Amadeo de Souza-Cardoso

O segredo da arte moderna

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Paulo Costa

Amadeo de Souza-Cardoso destacou-se na profissão de desenhador e de caricaturista, em Lisboa.

 

Há histórias de grandeza que o tempo não sabe exaltar. O tempo, com o seu poder ingrato da memória, catapultou para as profundezas do esquecimento um dos nomes que mais marcou a geração de pintores modernistas do século XX. Com uma obra fulgurante, inspirada pelas revoluções estéticas da altura, Amadeo de Souza-Cardoso foi um artista português que partiu à descoberta do brilho de Paris, mas o seu próprio brilho foi esquecido devido à sua morte prematura. Com apenas 30 anos, Amadeo de Souza-Cardoso despediu-se de uma carreira internacional promissora, antes de receber os merecidos louros por tamanha criatividade. Com obras icónicas como a Clown, Cavalo, Salamandra, o pintor exímio parece ter sido traído pelo próprio tempo, que o afastou da consagração artística e da história da arte internacional, transformando-o num dos segredos mais bem guardados da arte moderna. 

 

A história de Amadeo de Souza-Cardozo começa em Manhufe, uma aldeia pertencente ao concelho de Amarante, terra onde hoje pode ser visitado o Museu Municipal dedicado à vida e obra do artista português. Com raízes burguesas, não fosse o seu pai um grande proprietário rural e vinhateiro – raízes que lhe permitiram viver com toda a pompa e circunstância em Paris entre 1906 e 1914 -, Amadeo de Souza-Cardozo revela muito cedo a sua veia artística, sempre apoiada pelo atento Tio Chico. Em 1905, Lisboa abre-se à originalidade do jovem Amadeo, que depois de ingressar no curso preparatório de desenho, acaba por se destacar na profissão de desenhador e de caricaturista. Contudo, é no dia em que comemora os seus 19 anos que a maior aventura da sua vida começa, antecipando uma curta, mas intensa carreira. Partindo para Paris, capital da euforia artística, o jovem português reconhecido pela sua curiosidade rodeia-se de ícones da esfera criativa da época, contribuindo para o diálogo artístico e para a ruptura dos cânones da representação clássica. 

 


\\ Fotografia Museu Calouste Gulbenkian-Colecção Moderna


\\ Fotografia Museu Calouste Gulbenkian-Colecção Moderna

Num olhar atento sobre a obra do pintor português são facilmente perceptíveis as influências portuguesas.

Num olhar atento sobre a obra de Amadeo de Souza-Cardoso são facilmente perceptíveis as influências portuguesas, que se prolongam nas várias etapas do seu trabalho, muitas vezes aliadas aos ícones de inspiração parisiense. Manhufe e as memórias de juventude revelam-se através daquilo que Amadeo considerava a sua pertença, tanto natural como cultural: montanhas, bosques, letras de canções, instrumentos musicais regionais, bonecas populares, azenhas, castelos imaginados, interiores domésticos familiares e objetos quotidianos. Mesmo adoptando um estilo de vida urbano, é notável que Amadeo se manteve ligado ao seu mundo rural e familiar, respeitando a sua atmosfera portuguesa através das montanhas, que tão frequentemente serviram de fundo às suas obras. No entanto, o mundo moderno, representado pelas suas opções estilísticas marcadas pelo hibridismo cubista, futurista, órfico e expressionista, desvenda-se numa dinâmica similar. Sem uma hierarquia específica, as suas origens misturam-se com manequins mecânicos, fios de telégrafo ou telefone, lâmpadas eléctricas e até anúncios publicitários, dos perfumes, do champanhe, etc. colados sobre as pinturas. No pico da sua criatividade e rodeado pelas suas montanhas, após voltar para Portugal em 1914, o pintor português despediu-se da vida com apenas trinta anos. No baú do tempo ficou o seu talento e originalidade, raras vezes aplaudido graças ao triste golpe do destino.


\\ Fotografia Paulo Costa

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