Valter Hugo Mãe

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia ©PMC

«Acho que verdadeiramente aquilo que me motiva é saber que há algumas pessoas que reconhecem, sobretudo, a honestidade dos meus livros»

 

É uma espécie de alma inquieta. Segundo diz, «tem andado bastante sossegadinho», mas nada o impedirá de se apaixonar, e apaixona-se todos os dias, por uma ideia que lhe desperte o ímpeto de escrever sobre o que o sobressalta. Valter Hugo Mãe é assim. A cara e a coroa da mesma moeda. Simples e complexo. O seu coração, transparente, ouve-se pelas palavras que diz. Calmas. Um pouco pausadas e verdadeiramente genuínas. Consciente do caminho que trilhou, assegura que não é pessoa de se satisfazer com pouco. Ainda para mais depois de ter conseguido atingir tamanho reconhecimento. Que agradece. E respeita. Por isso, procura o diferente. E não se importa de colocar a sua vida em risco, se isso acabar por lhe proporcionar um bom livro. Apesar de se achar perigoso, a única coisa que é preciso acautelar na sua presença é o fascínio pelo modo como nos hipnotiza com as suas palavras. Ditas, ou escritas. Os génios, por vezes, estão demasiado perto de nós.

 

Consegue olhar para os livros que já escreveu e escolher um predilecto?

Concretamente, no que diz respeito à qualidade literária, estou sempre mais ligado àquilo que fiz recentemente. Mas depois posso preferir o tempo de escrita de um determinado texto, posso entender que fui mais feliz, ou que havia um encanto, ou que se produziu um encanto, mais ou menos, irrepetível, numa ou noutra altura. A escrita do meu primeiro romance foi um vértice na minha vida, no sentido em que me fez mudar de caminho e me fez entender inclusive sobre quem sou e sobre quem sou enquanto autor, mas sobre o que eu sou enquanto pessoa, por isso, a escrita do «O Nosso Reino» foi um tempo de entrada num certo mundo de Alice, neste caso um mundo do Valter.

 

O que é preciso para se sentir pronto para começar a escrever?

Normalmente o livro começa quando uma ideia insistente, até mais ou menos urgente, na minha cabeça encontra uma expressão estética. Quando uma determinada ideia se coloca diante de mim como literária. Eventualmente, eu tenho a intenção de escrever sobre muitos assuntos. Há muita coisa que me preocupa e sobre a qual eu gostaria de escrever. Mas começo a escrever a partir o momento em que uma dessas ideias se coloca diante de mim como uma estética definida, como se ela própria conseguisse conquistar a sua beleza. Até gostaria de decidir com maior isenção o livro que vou escrever a seguir, pensando «interessa-me escrever sobre este assunto, neste momento», mas, normalmente, sou sempre seduzido pela capacidade de um certo embelezamento, de um certo esplendor expressivo, discursivo, que os assuntos conseguem trazer ao de cima.


\\ Fotografia ©PMC


\\ Fotografia ©PMC

«Sempre vivi um pouco angustiado com o mundo tal qual ele é»

 

E é exigente. É alguém que, se não estiver satisfeito, começa de novo.

Exatamente. Sou cada vez mais exigente. Cada vez mais horrivelmente exigente. No sentido em que desenvolvo manias e maneiras mais apertadas, mais sufocantes, mais obstinadas, para escrever. Escrevo sempre mais ao pé de um nervosismo que talvez seja crescente, que não era tanto assim nos primeiros livros. Mas a verdade é que estou convencido de que chego a livros melhores (risos).

 

O que sente na pele quando percebe que grande parte das pessoas gostam muito dos seus livros?

É muito gratificante. Fico um pouco incrédulo, no sentido em que a vida é uma precipitação. Por mais que nos empenhemos em alguma coisa, a sensação de que o tempo nos desaparece é muito violenta, muito forte. Por isso, é muito fácil – ao mesmo tempo que tenho a consciência de que escrevi certos romances, e por isso, tenho a memória do trabalho que cada um deles implicou – parecer-me que ainda sou um miúdo, num certo sentido. Fico muito estupefacto com a minha idade e por isso o reconhecimento custa-me a crer, nesse sentido em que muitas coisas em mim ainda são as coisas do miúdo de que me lembro, por isso, fico muito grato. Acho que verdadeiramente aquilo que me motiva é saber que há algumas pessoas que reconhecem, sobretudo, a honestidade dos meus livros. De que são livros verdadeiramente empenhados em serem boa literatura.

 

Um dos seus fãs era Saramago. Vê isso mais como uma bênção ou uma maldição?

É uma profunda bênção e foi muito generosa da sua parte, ao mesmo tempo foi uma espécie de conferência de responsabilidade. Ou seja, ele entregou-me a responsabilidade de estar à altura daquilo que disse. O Saramago, de alguma forma, solicita-me essa espécie de intensificação das minhas capacidades, independentemente de depois as pessoas gostarem ou não do resultado. O que eu acho que retiro desses elogios que me fazem é um bocado esse compromisso de seriedade.

 

Parece ter algum receio de falhar… Escreve porquê e para quem?

Eu escrevo sempre pelo mesmo motivo: porque me sinto incomodado e incompleto. Quando aludo ao mundo de Alice tem muito que ver com isto de entrarmos numa plenitude que não é possível nas evidências mais imediatas. Sempre vivi um pouco angustiado com o mundo tal qual ele é e sempre sonhei com um mundo melhor e com gente melhor e com ser melhor também. Por isso, creio que escrevo por causa disso, para ser melhor, para conceber uma maturação do pensamento e da humanidade.

 

E haverá hoje mais livros do que pessoas dispostas a lê-los?

Sim, eventualmente. Sobretudo, quem lê nunca lerá o que quer, talvez nem sequer lerá o que merecia ser lido. E uma boa parte dos cidadãos não lê em absoluto. O trágico não é não se ler. O trágico é que chegamos a uma cidadania um pouco destituída de qualidade, digamos assim. As pessoas podem ser muito bem-intencionadas, podem ser muito boas pessoas, mas são pouco estruturadas. Quem não lê talvez abdique de se melhorar, talvez abdique de se instruir.

«Talvez vulnerabilizasse a minha vida um pouco para conquistar um grande livro»

Procura sempre diferenciar-se. E que, através dos seus olhos, as pessoas vejam algo inovador. Até que ponto está disposto a ir para que um livro seja realmente diferente?

 

Se fosse algo garantido, se houvesse uma aplicação no telemóvel que eu pudesse acionar para me darem a dica, iria um bocadinho longe. Talvez vulnerabilizasse a minha vida um pouco para conquistar um grande livro. Acho que de alguma forma é o que eu faço, vulnerabilizo muito a minha vida.

 

Isso significa que é perigoso ou que não se importa de se pôr em perigo?

Significa as duas coisas. Não é não me importar de me pôr em perigo, porque me importo. Mas por vezes é necessária essa coragem, essa frontalidade com as ideias, de ir com os lugares, inclusive. Eu fico sempre à espera que a natureza do mundo reconheça as minhas intenções benignas, talvez por isso, no momento em que estou a arriscar algo, a natureza me poupe.

 

Este ano disse que já subiu aos palcos com os «Governo». Tem um ar muito tímido, mas depois tem esta faceta de se conseguir expor. Vai acontecer mesmo?

Não temos nada marcado, mas estamos a chegar lá. Vamos ter um single com uma música gravada agora no início do ano, que até vai ter vídeo. E, depois, estaremos a gravar um rol de temas novos. E é possível que no primeiro trimestre deste ano a gente faça uma ou outra apresentação, assim meio a ver o que nos apetece.

 

Sente-se feliz com os passos que tem dado?

A felicidade é um conceito sempre muito complexo. Depois precisaria de a dividir, ou precisaria de definir a felicidade da minha intimidade enquanto cidadão, familiar, e a felicidade enquanto autor…

 

Então dividimos. A felicidade enquanto autor como está?

(risos) A felicidade enquanto autor existe sim. Quando me queixo da minha vida íntima socorro-me na minha vida de autor, na felicidade e no quanto é gratificante o meu percurso literário, para parar de me queixar.

 

Corre para o trabalho porque se sente insatisfeito?

Sim, se tiver com uma dor de cotovelo vou escrever. Vou escrever um livro tão lindo, tão lindo, que até a dor de cotovelo me vai passar. E quem me abandonou vai pensar «abandonei-o, mas o tipo escreve bem como o carago». A gente vinga-se quando somos rejeitados. E das duas uma: ou nos abatemos e perdemos a força e de alguma forma parece que desistimos, ou então redobramos as capacidades e passamos por cima e terraplanamos um bocadinho a dor, plantando um jardim. Quer dizer, fazendo crescer algo esplendoroso a partir do sofrimento por que passamos. E por isso essa dimensão de autor é aquilo que me tem permitido, com toda a graça do mundo, a redenção de todas as coisas más que me aconteceram. E todos nós temos coisas más à nossa espera e muitas já aconteceram e por isso é inevitável.

 

Está apaixonado por algo ou por alguém neste momento?

Eu estou sempre apaixonado. E sou muito complicado (risos). Não deve ser fácil lidar comigo (risos). Acho que sou muito intenso, as pessoas dizem-me que fico logo em modo de casamento e pelos vistos é assustador. Mas não sou obstinado, não sou como nos filmes, não penso logo em casamento. Pedi uma vez em casamento… Acho que lido com as relações de um modo muito sério. Sou muito entregue. Tenho pouca alma de século XXI, de geração Tinder. Tenho alguns amigos que estão no Tinder e têm, como dizer, uma atividade diária, avassaladora. E eu gosto de saber disso, gosto que me contem. Dava um livro, um filme, uma coisa qualquer, a vida de alguém no século XXI cujo amor dura 15 minutos. Que tem paixões de 15 minutos. É engraçado. Mas eu sou completamente ao contrário disso no funcionamento. Ainda que isso me possa interessar como tópico de pensamento e ainda que eu possa até entender porque é que a humanidade chega a um ponto de não querer mais do que 15 minutos de relações, eu sou completamente ao contrário. Sou à moda antiga. E sou assim desde pequenino. Desde menininho que eu era uma alminha casadoira.

 

Que qualidade e defeito apontaria a si próprio?

Qualidade… acho que sou generoso. Um defeito… não entendo quando as pessoas não gostam de mim e fico marcando presença, mesmo quando as pessoas pensam «o tipo nunca mais se vai embora».

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