Vila de Dornes

No silêncio da Península

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia ©PMC

A criação desta agora vila remonta ao século XII e ficou ligada a uma imagem milagrosa de Nossa Senhora do Pranto.

Chegámos pela manhã. Um pouco fria. O sol, porém, fazendo-se de forte, tentava iluminá-la. Conseguiu. Lá na beira do rio Zêzere, um afluente da margem direita do rio Tejo, encontrámos a pequena vila, que mais parece uma acolhedora aldeia – Dornes. E o sol irradiou aquela península. Uma terra com recantos e segredos por revelar. Ao longo do percurso do rio Zêzere, desde a Serra da Estrela até Constância, as margens do rio carregam belíssimas paisagens que dão cor às vilas e aldeias por onde passa, como é o caso de Dornes (vila do concelho de Ferreira do Zêzere, Portugal). Sente-se uma paz imensa com o silêncio dos que por cá ainda vivem. As ruas estavam vazias. Em sossego. Respira-se a pureza das águas enquanto se observa uma ininterrupta sucessão de perfeitas paisagens. 

Torre Pentagonal

Igreja Nossa Senhora do Pranto

Ruas em Dornes

Caminhámos até à igreja matriz da localidade – Igreja de Nossa Senhora do Pranto –, que foi mandada construir pelo Comendador D. Gonçalo de Sousa, em 1453. Mas já anteriormente, a primeira capela foi mandada erguer pela rainha Santa Isabel (esposa do rei D. Dinis), em finais do séc. XIII. Em homenagem à padroeira da vila, todos os anos se realiza a romaria, nas ruas, no dia 15 de Agosto. Palco de atracção turística.

Reza a história que aquela terra de templários guarda algumas lendas. E uma delas é mítica: Um pastor que perseguia um veado na Serra Vermelha ouviu uns gemidos. Não sabia de onde vinham. Procurou. Nada encontrou. Foi transmitir à Rainha Santa. Mas esta já sabia de onde vinham. Mandou-o ir buscar, no lugar de onde vinham os gemidos, uma imagem da Virgem Maria Nossa Senhora, onde estava com seu filho morto nos braços. E assim a Rainha Isabel mandou erguer uma capela na vila. Da outra margem do rio, o povo de Cernache contestou esse acontecimento, pois a imagem tinha sido encontrada em território deles. Levaram a imagem, mais que uma vez, mas a lenda diz que, misteriosamente, ela regressava sempre a Dornes, ao altar da Ermida. 

Sala dos Círios

Alguns dos residentes ainda resistem ao tempo e continuam a dedicar-se às embarcações artesanais.

Outro dos monumentos históricos é a também conhecida torre pentagonal, mandada erigir por Gualdim Pais (1118-1195), construída sobre ruínas, em pedra de argila, durante o período romano, e tinha como utilidade afastar os mouros. No interior da torre encontram-se várias estelas funerárias templárias. Em tempos passados, esta terra chegou a ter mais de 2000 habitantes. Agora, e tal como nos contou Artur, sacristão da igreja há 20 anos, «apenas vivem por cá pouco mais de 30 pessoas».

A nossa passagem foi curta, não porque não nos atraiu o local, mas porque ainda tínhamos de regressar ao Norte. O sol foi-se recolhendo, enquanto nós partíamos. Para trás ficou, na memória, a tranquilidade.

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