Brinquedo Tradicional

E a história do recordar é viver

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia ©PMC

Júlio Penela e Manuel Encrenca são os únicos fabricantes do brinquedo tradicional em Alfena

A vida da «PEPE e JATO» iniciou no século passado, quando um modesto trabalhador de Alfena (concelho de Valongo, Portugal) se começou a dedicar ao fabrico de brinquedos. Anos mais tarde, naquela que viria a ser a maior fábrica do género no país, um outro homem ganhava um incalculável amor às peças de madeira. Hoje, já não são as crianças os principais amantes dos Mercedes Táxis, dos Volkswagen e dos ciclistas que se tornaram valiosos para tantos coleccionistas. Cientes da herança deixada, Júlio Penela e Manuel Encrenca comandam o destino de uma arte que, este ano, poderá, finalmente, ter um espaço de culto e constituir uma passagem de testemunho para os mais novos. Juntos, os dois únicos fabricantes de brinquedos tradicionais da zona provam, todos os dias, que não há idade para perder a criança que existe dentro de cada um de nós.

Manuel Encrenca na oficina dos brinquedos

Produção artesanal

José Augusto Júnior foi o responsável pela brincadeira. Nos inícios dos anos 20 apanhava nas margens do rio Leça, na pequena aldeia de Alfena, em Valongo, pedrinhas para colocar dentro das rocas para entreter os bebés. Juntamente com as gaitas de asa, feitas em folha de flandres, estes foram os primeiros brinquedos fabricados em Portugal. Júlio Penela, o bisneto do fundador e atual gestor da BruPlast, que deu lugar à antiga «PEPE e JATO», exibe com orgulho alguns desses exemplares. Ao lado das relíquias não faltam os populares táxis e carrinhas Volkswagen. «São os que mais se vendem», garante Júlio, dentro e fora do país. Culpa do «revivalismo» que veio a reboque da «moda do vintage». Se não fossem os tempos que correm, o brinquedo tradicional já teria morrido pois, segundo Júlio Penela, «muitos não sabiam que o continuávamos a produzir». Hoje, a BruPlast foca-se no fabrico de artigos em plástico para a indústria, mas o herdeiro Júlio confessa que nunca lhe passou pela cabeça «abandonar o brinquedo», mesmo que isso tenha significado, noutros tempos, perda de dinheiro. «Nunca deixamos de os fazer e de os fazer como antigamente, isto é, com o mesmo método de produção. Só que agora os materiais têm mais qualidade», explica o representante da fábrica.

Júlio Penela e os populares carrinhos

«A oficina poderá nascer este ano com acervo da junta e de particulares. A construção rondará 1 milhão e 700 mil euros»

Apesar do nome ter sofrido alterações, no interior da fábrica continuam impressas as letras que levaram à criação de um império, de chapa e madeira, que o tempo desmontou. Os 90 trabalhadores deram lugar a três. E as normas europeias impuseram que muitos desses produtos deixassem de ser comercializados como brinquedos. Foi o agudizar de uma crise que se sentia há algum tempo.

Mas antes, já 1955, a fábrica tinha deixado de trabalhar com o pinho. Foi, mais ou menos, nessa altura que Manuel Ferreira ganhou o seu espaço. Hoje, toda gente o conhece por Manuel Encrenca mas, na verdade, Encrenca era o pai, diz num misto de orgulho e resignação. Depois de passar dos 80 anos, a saúde deixou de ser a mesma. «São os pulmões que sofrem mais, menina». Porém, o olhar continua malandro. Manuel aprendeu o ofício em que trabalhou toda a vida com o pai de Júlio. «Ensinaram-me a fazer brinquedos de madeira e nunca mais quis outra coisa». Mas veio a Segunda Guerra Mundial e os conflitos nas colónias. E a PEPE JATO virou-se para o plástico. O desgosto levou-o a despedir-se. À época, o dono da fábrica aceitou e deu-lhe as máquinas de produzir brinquedos de madeira, com a garantia de que, «se não desse certo, podia sempre voltar», conta Manuel. «Felizmente nunca mais regressei». Montou a oficina em casa e o negócio prosperou. Assim criou os filhos e construiu a vida, já lá vão 60 anos. Júlio e Manuel são os resistentes. Juntos são ‘danados para a brincadeira’. Contudo, no final das contas, brincar é uma coisa muito séria para ambos. «Se não fôssemos nós, o que seria do brinquedo?»

 

Moldes

Moldes

Juliana, a mulher, e Florinda, a irmã, ajudam Manuel com as pinturas dos ciclistas, das pombinhas e dos carros de bois que, há meia dúzia de anos, as lojas da Vida Portuguesa reavivaram e ressuscitaram. «Esse foi o grande impulso para Alfena não perder o título de capital do brinquedo», diz Júlio. Isso e a feira dedicada à arte que se faz na terra, vai para dois anos e que «tem ajudado a vender mais um bocadinho», garantem os dois fabricantes.

Este ano, assegura Arnaldo Soares, presidente da Junta de Freguesia de Alfena, vai nascer, no final deste ano, o local onde se retrata a história do brinquedo tradicional. O projeto já tem mais de dez anos e é um sonho que agora parece mais certo de se concretizar. «A oficina do brinquedo já tem projeto, candidatura aos fundos europeus e até já está contemplada no orçamento municipal», refere o autarca. O custo da obra «rondará 1 milhão e 700 mil euros». E nela caberá o acervo de brinquedos da junta e particulares. Fica a promessa.

 

Brinquedos em produção

Arnaldo Soares, Presidente da Junta de Freguesia de Alfena

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