Luandino Carvalho

«Considero-me um homem da arte e da cultura, com o jornalismo no sangue»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia © PMC

«Tenho um orgulho grande em ser angolano, em pertencer a este povo, em ter esta cultura»

«Sou um angolano sem complexos, que tem no sangue várias zonas de Angola», eis, aqui, Luandino Carvalho, fruto de uma mistura entre o Huambo (terra do pai) e o Bié (terra da mãe). Nasceu em Luanda, na Maternidade Augusto Ngangula (na época Maternidade de Luanda), em Setembro de 1967. Antes da independência, estudou no Colégio Sagrado Coração de Jesus. Mais tarde, foram as aulas na Escola Augusto N'Gangula que o doutrinaram, assim como o ensino médio em jornalismo no Instituto Karl-Marx Makarenko. De malas e bagagem viajou até Portugal, em 1992. Foi estudar Design na EPOA, Escola Profissional Ofícios Artísticos, em Vila Nova de Cerveira. Dois anos depois foi parar às Caldas da Rainha, onde estudou Belas Artes na Escola Superior de Artes e Design. Desde cedo que, para Luandino, desenhar e pintar «era como respirar». Chegou a participar em concursos internacionais de desenho infantil e ganhou três prémios. Aos 12 anos esculpiu um busto do Presidente Agostinho Neto (que foi oferecido pela Radio Nacional de Angola à viúva Maria Eugenia Neto). Hoje, está aqui para nos falar das suas histórias.

 

Quem é Luandino Carvalho?

Considero-me um homem da arte e da cultura com o jornalismo no sangue. Criativo por natureza. Também gosto de política. Trabalhei na Radio Nacional de Angola e na Televisão Pública de Angola (TPA). Gosto de comunicar e de estar em contacto com o universo das artes. Fiz entre 2006 e 2010 o programa Texturas na TPA. Entrevistei mais de 120 artistas plásticos. A relação entre a imprensa e a cultura é algo muito importante na minha vida. Não é possível viver uma sem a outra.  

O que mais o marcou na infância?

Creio que os anos quentes de 1974 e 1975, e toda aquela agitação social, que afetou o nosso país e as nossas famílias. Foram anos marcantes. Ouvir tiros e a deflagração de engenhos bélicos para uma criança é muito marcante. Felizmente, não teremos mais guerra em Angola. Também as brincadeiras nos quintais e na rua me marcaram, assim como as idas aos estádios de futebol com o meu pai, onde o verde da relva, as luzes dos holofotes, a multidão a gritar «goloooo» contagiaram o meu imaginário até hoje.  Lembro-me de viagens, músicas, idas ao cinema, à praia. Uma viagem até ao Huambo ficou-me na memória, pelas paisagens, o cheiro e sons de um ambiente fora da cidade. Lembro-me do Monamgambé de António Jacinto cantado por Rui Mingas. Essa música ficou-me no ouvido e faz-me recuar no tempo sempre que a oiço. 

É um homem da cultura. Que importância tem ela para si?

A cultura não é um pelouro, e muito menos um argumento para justificar algo quando nos convém. A cultura é o que somos e o que fomos. Durante a Segunda Guerra, Winston Churchill, no Reino Unido, pediu um grande corte orçamental em detrimento da guerra. Cortaram orçamentos de todas as pastas ministeriais, mas quando chegou a vez de cortar no Ministério da Cultura, Churchill respondeu: «Nem pensem nisso. Então estamos a fazer esta guerra para quê?». É com uma cultura rica que um povo se torna forte. Parte das nossas tradições seculares foram destruídas, mas o que resta delas deve ser alvo de uma valorização e de um estudo, a todos os níveis. Esse é o nosso DNA.

Como vê as relações culturais entre Portugal e Angola?

Atualmente somos dois países soberanos que se relacionam culturalmente a nível de Estado de uma maneira cordial e benéfica. É sabido que existem alguns episódios pouco agradáveis que têm ocorrido, praticados por cidadãos que estão identificados, mas que não conseguem minar os laços de amizade e cultura entre os dois povos. Durante os meus quase quatro anos a trabalhar em Portugal, dei conta que existem sectores que levam à letra a expressão «países irmãos». Aqui, em Portugal, a nossa cultura tem sido fortemente difundida. A prova disso são os concertos de música, os lançamentos de livros, as exposições de pintura, etc. Recentemente, a Sra. Ministra da Cultura de Angola, Carolina Cerqueira, teve um encontro de cortesia com o seu homólogo Luís Filipe Castro Mendes e ficou a promessa de Portugal apoiar Angola na candidatura de M'Banza Congo a Património da Humanidade na UNESCO, cerimónia que ocorrerá em Agosto.  

Gosta de Lisboa?

Gosto de trabalhar em Lisboa e de viver em Lisboa. Vivo com a família, tenho um trabalho que me dá prazer. Lisboa é uma cidade que faz reduzir, em parte, as saudades que tenho de Luanda. É uma cidade com muitas atividades culturais e desportivas. O Benfica é outro beneficio que Lisboa tem. Desde que cheguei, o Benfica é campeão todos os anos (risos). Vim para Adido Cultural em 2013 a convite da então Ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva. 

E que sentimento tem o Luandino pelo seu país?

Angola é a minha pátria, o meu país. Temos um mapa com um recorte fronteiriço bonito e de fácil identificação. Um hino bem escrito e com uma melodia linda. A nossa bandeira tem uma força incrível. Tudo isso misturado com a bravura do meu povo que, nos diferentes períodos históricos, lutou pela autodeterminação total. Tenho um grande orgulho em ser angolano, em pertencer a este povo, em ter esta cultura. 

 

Em criança


\\ Fotografia Direitos Reservados

Em criança


\\ Fotografia Direitos Reservados

Estúdio Texturas


\\ Fotografia Direitos Reservados

«Aqui, em Portugal, a nossa cultura tem sido fortemente difundida»

 

Gosta das artes. Que artistas admira?

Admiro os pintores renascentistas pela qualidade do pormenor e pela maneira como passavam para o espectador as encomendas dos reinos e das igrejas para os quais trabalhavam. Na pintura mais recente, Picasso, Kandinski, Van Gogh, Dalí ficaram-me na retina pelo inconformismo e inovação que implementaram no pincel. Em Angola, não posso deixar de me referir a alguns nomes que influenciaram o meu trabalho. O meu tio-avô Roberto Silva, o Neves e Sousa e, mais recentemente, o Tirso Amaral e o incontornável Viteix.    

Movimenta-se no mundo político. Tem ambições nessa área? Quais?

Defendo e executo a política cultural preconizada pelo Ministério da Cultura de Angola. Considero que a minha prestação, enquanto servidor do Estado, tem servido para contribuir para o engrandecimento do meu país. Todo o ser humano tem que ter ambições. Eu tenho as minhas, naturalmente. A minha ambição é ver o meu trabalho resultar em benefícios concretos para o meu país, em ser um bom patriota e um bom pai de família. 

O seu padrinho, Luandino Vieira, é uma figura incontestável de Angola. Que relação tinha, ou mantém, com ele?

Tenho o nome do Luandino porque o meu falecido pai e ele eram ambos nacionalistas e amigos. Foram presos juntos, mas o Luandino foi para o Tarrafal cumprir uma pena maior. Quando nasci, em 1967, os meus pais deram-me este nome em homenagem ao Luandino Vieira, que na altura ainda tinha o nome de registo José Manuel da Graça. Conheci o Luandino Vieira nos anos 70-80. Sempre me tratou com carinho. Por coincidência, em 1992 quando vim estudar para Portugal, fui viver em Vila Nova de Cerveira, uma vila muito bonita no Alto Minho. Partilhámos a mesma casa e durante os três anos privei muito com o «cota» Luandino. Tornámo-nos bons amigos e sempre que posso vou a Cerveira visitá-lo. 

  É, também, um homem da imprensa, mesmo não sendo jornalista de profissão. Como vê, atualmente a comunicação social em Angola?

Existe qualidade no geral. Mas também existem profissionais com comportamentos que ferem a deontologia da profissão. Muitos jornalistas não revelam as fontes, não fazem o contraditório e isso descredibiliza o órgão para o qual trabalham. Podemos escrever o que nos apetecer em Angola. Não há represálias nem os órgãos são fechados por isso. Quem disser o contrário está a mentir e basta olhar para as capas dos periódicos em Luanda.

A lei da imprensa em Angola foi alterada em 2016. O que achou disso?

Sigo com particular atenção as mudanças que ocorrem a nível da nossa comunicação social. Participei nas discussões públicas do pacote legislativo da comunicação social. Todos participaram, todos contribuíram. Concordo com o teor das leis aprovadas.

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