José Gomes Ferreira

«Os bancos foram usados para favorecer amigos»

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia Nuno Almendra

«Posso dizer que já votei em partidos de direita e partidos de esquerda. Eu voto útil»

Chega atrasado, mal se lembrou da entrevista. Não, não vive de esquecimentos, mas a vida do diretor adjunto de informação da SIC é, como o mesmo o diz, imprópria para cardíacos. Esta conversa, que por força da circunstância se dividiu em duas partes, antes e depois de um direto televisivo, foca-se, essencialmente, na economia, a área de eleição de José Gomes Ferreira. A mesma que o país está habituado a vê-lo dominar. O estado atual do país nunca foge à mira da análise do homem que já foi confundido com um ministro. O jornalista, que faz questão de que o seu curriculum caiba numa folha A4, defende o direito à opinião, decorrente do estatuto que conquistou ao fim de longos anos de carreira. Não se define de direita, nem de esquerda. É, e isso assume, contra a corrupção «a que nenhum sector do país escapa» e a favor da diminuição da burocracia que impede os empresários de investir em Portugal.

 

Imaginava chegar tão longe na carreira?

Não cheguei muito longe, estou aqui, ao pé de si, no meio da SIC, com muito para fazer (risos). Não foi nada de extraordinário. É preciso trabalho, atenção, dedicação e estarmos sempre atentos a tudo. O meu percurso é muito simples. Aliás, eu tenho o meu curriculum numa folha A4. Faço questão que não tenha muitas coisas.

Porquê?

Por que acho que na vida só há duas ou três coisas importantes, não é preciso muita coisa.

E o que é importante, ou tem sido importante para si?

É tentar perceber a realidade e, quando não percebemos, fazermos muitas perguntas mesmo ingénuas, porque há coisas que nós não sabemos e, às vezes, os outros, que estão do outro lado a falar connosco, têm na sua cabeça que nós deveríamos saber. Parto sempre do princípio que ninguém sabe tudo e quando eu quero saber pergunto, mas pergunto insistentemente. Isso levou-me à fase em que, pensando que já sei alguma coisa, criei convicções, que partilho e defendo. Não é ser convencido. É reunir um conjunto de informações sobre determinadas matérias que já posso partilhar de uma forma afirmativa, tendo opinião. Permito-me fazer isso porque acho que tenho retorno com os meus espectadores e leitores. Uns criticam, outros aplaudem, mas não ficam indiferentes.

Nem todos os comentadores querem ser presidentes da República?

Não. Mas houve e há pessoas que continuam a pensar assim. Normalmente, se alguém diz que o Estado não pode gastar tanto em despesas fixas, por exemplo, ter uma estrutura de pagamentos de salários muito pesada e ter uma estrutura de sistemas de pagamentos de responsabilidades sociais e de pensões que nunca mudam e podem acumular erros e omissões, esse tipo de leitura é facilmente catalogado como de direita. Tão facilmente que é impressionante. E, no entanto, houve muitos governantes de esquerda que fizeram estas análises. Acho que isso é limitador da nossa atuação enquanto jornalistas e também reduz a amplitude do debate democrático.

Já foi confundido com o ministro das Finanças, Mário Centeno, nas fotografias oficiais do Eurogrupo. No seu entender fazia um papel melhor do que ele?

Eu percebo essa provocação, mas não me sinto especialmente atacado. Sinto que há pessoas que gostariam que os jornalistas tivessem agenda política, e eu não tenho. Eu faço política. Ai faço, faço. Ao escolher, ao decidir optar, faço política, mas não é política partidária. Já votei em vários partidos. Posso dizer que já votei em partidos de direita e partidos de esquerda. Eu voto útil. Voto naquele que entendo que seja o melhor para o país e, infelizmente, a maior parte das vezes, é o que faz menos mal ao país. É assim porque a escolha não é muita.

No livro que escreveu (O Meu Programa de Governo), a ideia que defende de Governo distancia-se muito do que atualmente vigora?

A maior parte das coisas que escrevi mantém-se atuais, os constrangimentos da nossa sociedade, os de fundo, não desapareceram. Resolveu-se um problema gravíssimo no financiamento da República e não só. Os dos bancos continuam a existir porque eles não conseguem ir ao mercado livremente pedir dinheiro, estão ainda muito limitados. As empresas públicas, boa parte delas, também não, mas o Estado conseguiu voltar a financiar-se e, portanto, houve de facto uma evolução interessante nesse aspeto. Darmos opinião sobre essa evolução do país é importante porque as pessoas têm de perceber. É preciso relacionar factos e tentar interpretá-los à luz das realidades, que, muitas vezes, nem são só internas, são externas, são decisões do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia...

«As instituições são maleáveis. Moldam-se aos interesses: qualquer coisa que um grande grupo quer consegue passar uma lei no Parlamento»

Há excesso de zelo no país?

Há tudo, excesso de zelo e, sobretudo, há uma coisa que é a parte da administração pública, que tem o poder de decidir, querer manter esse poder. Interessa-lhes ter os empresários na mão. É assim, literalmente. Muita gente que trabalha no Estado não gosta que eu diga isto, mas esta é a verdade. É assim com os Ministérios da Agricultura, do Ambiente, da Economia e da Administração Interna e da Saúde, para citar os que mais diretamente têm que dar autorizações para os empresários trabalharem. E é assim com as câmaras municipais. Algumas já aprenderam, mas muitas, quando um empresário lá vai dizer que quer fazer uma pequena oficina, ainda há funcionários a dizer: «Não! Façam mas é uma loja de artesanato!». Como se isso fosse viável para o futuro. Em alguns sítios, onde há mais turismo, pode ser. Mas não pode constituir-se um tecido empresarial e económico de um país só com esta ideia de turismo e de serviços. Não pode! E os funcionários destes departamentos não têm a cabeça orientada para captar investimento. Têm a cabeça orientada para justificar a continuação no seu posto de trabalho, porque se eles dissessem que sim a tudo, e isto é um problema do regime e da democracia, acabavam por esvaziar a razão da sua própria existência.

Mas há casos em Portugal em que se percebe, claramente, que a burocracia foi eliminada para satisfazer interesses...

Esse é o problema. O que acontece num sistema disfuncional é que o pequeno, médio e grande empresário, que não está feito com o poder, é bloqueado. E os empresários que ousam estar feitos com o poder, no sentido literal do termo, têm portas abertas… 

É fácil perceber quem está de um lado e quem está do outro?

Pode-se imaginar e alguns casos até já foram parar à investigação e à justiça. Mas depois há outra bolsa, a dos que não estão nem de um lado nem do outro, nem são pequenos e médios empresários à espera que os deixem investir, nem são corruptores, nem são os que entram no esquema. São as grandes multinacionais que têm tanto poder que condicionam os próprios governos e impõem leis. A democracia está bloqueada em muitos aspetos e isso tem um impacto imediato na atividade económica. E resolver estes problemas não faz parte da agenda política.

No caso do processo em que José Sócrates pôs o Estado em tribunal, quem vai ficar a perder, o próprio ou o Estado?

Hoje em dia faço uma análise mais global. Durante muito tempo pensei que Portugal estava a caminhar no sentido da clarificação das relações entre agentes económicos e sociais e que o grau de corrupção iria sendo diminuído… Apanhei uma desilusão porque fui percebendo, naqueles anos de loucura financeira, 2006, 2007, 2008 e 2009, em que se suspeitava de muita coisa, que era o próprio coração do Estado que estava afetado pela mancha da corrupção. Se repararmos bem, não há sector nenhum que escape. É um problema que vem de cima. As instituições são maleáveis. Moldam-se aos interesses: qualquer coisa que um grande grupo quer consegue passar uma lei no Parlamento. E depois os que estão no intermédio e na parte de baixo da escala dizem: «Mas eles fazem os negócios a seu favor, com a cobertura do Estado, e eu não consigo sacar o meu? Tenho de conseguir». E depois isto reproduz-se até em termos sociais, de pais para filhos. E não saímos disto. Portanto, estamos, neste momento, numa fronteira muito delicada entre um mundo desenvolvido, que vive em estados de direito, e nós, que não estamos verdadeiramente lá, e estamos a cair para um mundo subdesenvolvido em que vale a prepotência, o ‘desenrascanço’ e o esquema para conseguir decisões que favorecem o próprio em detrimento do que é a concorrência. Isto é gravíssimo e as pessoas não estão a perceber muito bem que estamos a voltar a um tempo em que as instituições bloqueiam porque não conseguem resolver estes problemas. É preciso fazer essa mudança, mas não sei se a classe política atual consegue. Também por isso acho que os jornalistas têm um papel de ir lançando o alerta e dizer que não pode ser. Muitas vezes a política partidária demite-se desse papel, porque lhes interessa. Há questões relacionadas com a banca, que a direita nunca quis investigar, porque apanhavam os seus diretamente. E a esquerda nunca quis investigar porque também apanha alguns interesses que quer defender. Ainda hoje é assim. A Caixa Geral de Depósitos é um perfeito exemplo disso. Os bancos foram usados para favorecer amigos e não para financiar atividades concorrenciais. É o saldo que se faz de 25 anos de banca privada em Portugal. Claro que isto não é a totalidade. Estou a falar dos desvios, que foram muitos, houve alguns bancos e muitos banqueiros que interpretaram bem. A direita em certos dossiês não quer que se investigue a fundo e a esquerda também não. O que nós vemos hoje é uma comissão de inquérito da CGD em que os políticos de esquerda não queriam ouvir muitos protagonistas, entre eles Armando Vara. Não estão interessados em retirar do segredo e do véu do silêncio um conjunto de práticas que foram feitas por políticos que se coligaram com banqueiros e favoreceram amigos? O espectro partidário não responde a certos interesses do país, portanto a imprensa tem de denunciar estas coisas.

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