Sobrinho Simões

«Tenho um medo terrível do cancro»

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia © PMC

«Já fui considerado o professor que se vestia pior na faculdade de medicina e deram-me um vale para ir às compras»

Dois minutos. Talvez três. Não foi preciso muito mais para se perceber logo. Chegou, sorriu e as frescas palavras fizeram o resto. Sobrinho Simões é de uma simplicidade admirável. Um gigante. Em cérebro. Daqueles brutais. Em sinceridade. Não há nos seus gestos ou no modo como fala qualquer resquício de erudito inacessível. Pelo contrário. É fascinante a proximidade que estabelece. Apesar de ser presidente e fundador do conceituado Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup). Apesar de ser o rosto mais marcante do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S). Apesar de imprimir o seu cunho, com grande prestígio, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Dos sentimentos ao cancro. Se é complexo, o Professor simplifica. E é como se fizesse magia. Pois é impossível embarcar com ele numa conversa sem se perder a noção do tempo. O tempo. Esse velho algoz que se atreve a perseguir o melhor patologista do mundo.

 

Ultimamente tem perdido muitos amigos?

Tenho perdido muitos amigos. O Dr. Mário Soares, o Miguel Veiga, o professor Serrão, que tinha sido o meu patrão. E morreram dois médicos meus, o professor Trigo Cabral que foi quem me operou ao joelho, e que foi sempre o meu ortopedista, e o Carlos Resende que era dermatologista e que veio trabalhar comigo quando eu era muito novinho, veio como monitor da minha disciplina. Portanto, eu tive cinco pessoas que me morrem, sendo de mundos muito diferentes. O Resende era mais novo que eu, foi meu mentor, é uma morte anacrónica, as mortes meta crónicas apesar de tudo custam menos. E eu lido mal com a perda dos amigos, não sei porquê mas lido.

Como se nota que está triste? As pessoas reparam?

Não. Eu sou um workaholic. Se tiver deprimido ou se tiver a começar a deprimir eu trabalho mais. A minha solução é a fuga em frente. Por isso, estou a trabalhar este ano muito mais do que trabalhei nos anos anteriores.

Mas, sendo uma pessoa tão racional, não consegue olhar para si e perceber que isso lhe pode estar a fazer mal, ou que lhe irá fazer mal?

Tenho a certeza de que me está a fazer mal. Se quiser, no limite, é uma forma de iludir a jubilação e, metaforicamente, é uma forma de iludir a morte. A gente é que não se apercebe (risos).

Pensa na sua morte?

Então não penso, claro que penso! Mas tomáramos nós estar muito bem-dispostos e morrer, não é? A morte, nesse aspeto, impõe-se pela sua inexorabilidade. Se o tipo não for burro sabe que é muito raro não se morrer e que não nos vai acontecer a nós. Estou numa fase engraçada, do ponto de vista de aumentar a atividade, o que é uma estupidez, do ponto de vista racional, porque, se no fundo eu vou ficar jubilado, a partir do próximo ano, eu vou ter menos atividade, e vou sentir mais esta quebra e devia estar a fazer um esforço de reduzir e não estou. Estou a acelerar, claramente.

Nunca se zanga?

Muito, ai meu Deus! Sou insuportavelmente colérico. Reajo a quente, sou malcriado, berro, por exemplo, mas não fico com parti pris, digo às pessoas o que tenho de dizer. Muitas vezes penso que perco a razão, porque me irrito e fico destemperado, mas não fico depois com pedras no sapato.

E é homem para pedir desculpa?

Sim, sim, não custa nada. O que já não tenho idade é para ter as furiazinhas que tenho. Todas as pessoas como eu, que são workaholics, são muito de fazer pequenas cenas de irritação, de exaltação. E atenção que não é bom. A minha mulher chateia-me sempre com isso em relação aos meus netos. É um mau exemplo ficar irritado, berrar… Berrar? A gente já é grande (risos). Tenho muita pena, mas é assim. Também já não vou a tempo de corrigir.

Sente que os seus alunos gostam de si e das suas aulas?

Tenho muitas coisas indirectas, de inquéritos e tal, em que sou considerado um tipo que acha graça a ensinar…tenho muitas vezes prémios que são cómicos. Já fui considerado o professor que se vestia pior na faculdade de medicina e deram-me um vale para ir às compras (risos). Não tenho nenhuma razão de queixa da recompensa que tive como professor em relação à maneira como os alunos me avaliavam. Há anos que nós fazemos inquéritos anónimos aos alunos, sempre achei que se devia fazer. Para aí há 20 anos, tive um dos inquéritos que era super positivo, que nós éramos sérios, que cumpríamos, que as aulas eram bem estruturadas, mas tínhamos uma queixa: «o professor Sobrinho Simões, que toda a gente diz que sabe tanto, dá umas aulas tão pobrezinhas» (risos) e eu fiz um slide. A minha grande aspiração é que as pessoas percebam e, portanto, não faço slides muito complexos. Acho que tive algum papel numa desmistificação que em Portugal havia sobre o que era cancro. O que é que as pessoas falavam do cancro e como é que falavam, exatamente porque consigo explicar as coisas com palavras simples.

«Tenho tido muita sorte no sentido de ter uma repercussão positiva a nível nacional»

E nesse caso, na luta contra o cancro…

Que é assustadora para as pessoas, por causa dos elementos psicológicos, não é pela realidade. Nós, apesar de tudo, morremos menos de cancro do que de acidentes vasculares cerebrais, o que é impressionante. Repare, o cancro está a aumentar em Portugal, como está a aumentar em todo o Mundo, mas nós estamos a morrer menos de cancro. Já tratamos mais, diagnosticamos mais precocemente, temos mais eficiência. Nós estamos tão bem como os outros países da Europa ocidental. Já diminuiu a mortalidade. Repare que estamos a passar de 50 mil novos casos por ano para 60 mil e a mortalidade tem-se mantido nos 25 mil ou a baixar. Se reparar, se forem 25 mil de 60 mil, já significa que nós já controlamos em muito mais de metade, o que é muito bom.

Mas controlamos de mais? Chegou a dizer que há cancros que deveriam ser deixados sossegadinhos.

Sim, mas isso é outra coisa. É preciso ter muito cuidado porque eu sou muito a favor da prevenção e do diagnóstico precoce por rastreio. Mas não é a mesma coisa rastrear uma pessoa de 40, 50 ou 60 anos, ou começar a rastrear velhinhos de 80 ou 90.

Não vale a pena?

Vale, mas é preciso ter muito bom senso. Na maior parte dos casos quando, numa pessoa de idade, mais de 80 anos ou 85, encontramos pequenos tumores, eles nem merecem a palavra de micro cancros porque não vão dar chatices. Portanto, é indecente a um senhor de 85 anos tirar-lhe a próstata porque ele tem dois ou três micro tumores e ele iria normalmente morrer antes de ter chatices. Quem diz isso diz o mesmo da tiroide. Há muitos nódulos pequeninos na tiroide que não interessa nada tirar, pelo amor de Deus!

Acha que tem ajudado a sociedade a perceber que o cancro é mau mas pode acabar por ser uma corrida que termina bem?

Sim, o cancro é controlável, por isso acho que sim, mas isso no meu pequeno mundo e porque temos gente muito boa. Eu tenho a trabalhar comigo pessoas que já são muito melhores que eu no diagnóstico de muitos tipos de cancro. Em cada cancro que diagnostico digo que não é cancro a dez casos mais. A relação benigno e maligno da tiroide é de dez para um, portanto eu não diagnostico só cancro, diagnostico, em dez pessoas, um que é um cancro que tem de ser tratado e nove que sossego porque eu digo que não têm cancro. O diagnóstico de cancro, apesar de tudo, é uma excepção em relação aos diagnósticos que fazemos de não cancro. Faz sentido? E para mim é muito bom. Eu nunca gostei de ser médico porque eu tenho muita pena dos doentes. Eu tenho pessoas na família que são clínicos oncológicos e que a determinada altura têm de dizer às pessoas que têm uma doença que é potencialmente mortal. Isso desgraçava-me. Eu nunca gostei de ver doentes e gosto muito de dar boas notícias.

Gostaria de deixar a sua marca?

Para mim o ensino é de longe a minha atividade mais recompensadora. Encontro muito mais recompensa no ensino, com os alunos de medicina, com os internos e patologistas, do que em atividades de investigação só, ou de diagnóstico.

Porque tem um retorno mais positivo?

Muito mais positivo e muito importante do ponto de vista dos efeitos futuros.

Porque deixa obra?

Porque se deixam pessoas.

Que é uma coisa de que gosta?

É a coisa que mais gosto de fazer. Aí diminui-me a tristeza de confirmar cancros malignos. Eu faço diagnóstico e treino pessoas a fazer diagnóstico. Isto é a coisa mais engraçada que há em termos de quem gosta de deixar uma memória, porque é a memória das pessoas. Eu acho muita graça a escrever pappers. E gosto muito de ser citado, essas vaidadezinhas mundanas (risos). Mas os pappers morrem, têm um período de vida. As pessoas que a gente treinou ficam.

Isso das memórias significa que gosta de tirar fotografias?

Não, não gosto. Gosto de memorizar.

Mas depois não consegue memorizar tudo…

Não… E, depois, acho muita graça que quando me mandam fotografias eu reconstruo aquela memória. Mas não tiro fotografias. Não tenho gadgets nenhuns, se tivesse perdia-os. Eu já me vejo à rasca com os óculos e o tablet. A fotografia é predadora, mas ao mesmo tempo fixa a memória. Eu uso muito isso hoje quando quero escrever coisas do meu avô de Arouca ou da minha avó de Bombarral e vou buscar fotografias aos álbuns da minha mãe. E a partir das fotografias eu lembro-me de situações. Acho muito engraçado, mas não tenho vida para isso.

Olhando para a sua vida, e sendo alguém que ganhou tantos prémios, tirou notas tão altas e está tão habituado ao sucesso, em que é que acha que merecia nota negativa?

Em muitas coisas. Primeiro na irascibilidade. Não se admite que um tipo da minha idade, adulto, perca a cabeça quando tem uma contrariedade. Não gosto de ser contrariado e não gosto de fazer burrices. Eu lido muito mal com os meus falhanços. A primeira coisa em mim a que eu dava logo negativa era a minha incapacidade de ter bom senso e boa educação perante uma grande contrariedade. A outra que tenho é eu ser muito eficiente em termos de dia a dia, faço imensas coisas, dou cabo da vida às pessoas, sou muito egoísta, as pessoas à minha volta trabalham que se matam, é assustador. Porque eu depois sou um rolo compressor, é outro aspeto negativo. Outro de que sou muito acusado na família é eu fazer muitas coisas. Para a minha geração, eu ajudava muito mais em casa que os meus colegas. Eu punha a mesa e levantava a mesa e punha os pratos na máquina, etc. Ficava com as minhas crianças, com os meus filhos uma vez por semana e nunca os fui pôr a casa dos meus pais ou dos meus sogros. Dava-lhes de jantar, davas-lhes banho. Iam era muitas vezes, coitados, com os fatos trocados. A minha filha chorava muito porque não ia com as coisas que queria porque eu não sabia que vestido é que ela queria levar, mas eu fiz sempre isto com pouco envolvimento afectivo. Quer dizer, eu lembro-me pouco dos meus filhos pequenos, lembro-me mal das casas onde vivi. Não faz sentido, eu tenho vergonha disso. As pessoas como eu, que fazem muitas coisas e têm muitos pequenos sucessos e não sei quê, fazem-no à custa de uma eficiência muito grande, responsabilização total – não dei chatices, não deixei de cumprir –, mas não há envolvimento afectivo. Estava a mudar fraldas às crianças e estava a pensar noutras coisas. Eu só acho graça aos meus filhos a partir da altura em que eu passo a interatuar com eles como adultos. Depois adorei sempre – porque a minha mulher não queria ir comigo para o estrangeiro, porque eu trabalhava muito – o facto de eles começarem a ir comigo. E eu tenho viagens do outro mundo com os meus filhos por toda a parte, mas é quando eles já eram interlocutores. Não acho graça nenhuma à criança pequena. É uma coisa negativa (risos). Se tivesse ligação afectiva isso provavelmente me tirava a capacidade de fazer mais, e mais depressa. É uma limitação e senti sempre isso com os meus filhos.

Mas tentou ser diferente com os seus filhos, virar-se para eles e dizer «Estou orgulhoso de ti!»?

Não, sempre dei a entender, são sempre lamirés. Isso não. E eles acusaram-me sempre disso, mas isso é muito da nossa cultura, quer do lado do meu pai, quer do lado da minha mãe. Na minha família não se fazem elogios fáceis, nunca se fizeram. A gente não precisa dizer que está orgulhoso porque eles sabem, por isso não se diz. De resto, no meu tempo e na minha educação, as pessoas não verbalizavam tanto quanto se verbaliza hoje.

 

«Se tiver que identificar a coisa que mais falta me faz direi que é o tempo»

É excessivo hoje?

É muito. Portugal tem notas altíssimas. Nós não temos nenhuma tradição de avaliação recompensa/castigo. É uma sociedade que não tem nenhuma capacidade de avaliar independentemente e recompensar. Nenhuma. Em parte por que somos todos primos e cunhados uns dos outros, somos uma sociedade de alto contexto, somos minifundiários. Não acreditamos no valor da avaliação e não temos coragem para distinguir. Nós damos notas muito altas a toda a gente. É sempre um coitadinho quando fez barraca, é sempre vítima.

É uma mais-valia para o país. Consegue perceber que é um dos nossos melhores?

Não, acho que tenho tido muita sorte no sentido de ter uma repercussão positiva a nível nacional, se calhar por causa desta coisa de ser o cancro e de as ciências da saúde terem importância. Se calhar por causa de ter uma facilidade de comunicação muito grande. As pessoas sentem-me útil e isso é muito recompensador. Toda a gente me goza muito com a história do patologista mais influente do mundo, mas porque faço muitos cursos em tudo quanto é América Latina, Europa de Leste... É essa gente que vota em mim. Tenho imenso gosto nisso, não é vaidade, é mesmo gosto. Por achar – se calhar é presunção – que sou útil.

Cada vez nos preocupamos mais em ser saudáveis, mas ainda assim morremos sempre. Mas a ideia que se tem é que não estamos a ser eficientes…

Não, porque somos pré-modernos. É verdade que só três, de dez pessoas que fumam, é que têm cancro de pulmão, depois há mais uma e meia que têm cancro da bexiga e outras coisas. Há mais de metade das pessoas que fumam que não vêm a morrer de cancro provocado pelo tabaco. E as pessoas acham sempre que vão cair nesses. E temos outra coisa que é terrível, a cultura da desresponsabilização. Nós somos uma sociedade que não criou, por não termos uma avaliação por recompensa/castigo. Eu se bater na minha mulher sou capaz de dizer que são só meus genes. Não são. É porque eu sou um selvagem, um malcriado e uma besta. Mas se eu disser «ah, mas o meu pai também já batia, isso não é genético, é cultural», é pior ainda. Nós em Portugal temos pouca literacia, temos uma cultura retórica, ao contrário dos anglo-saxónicos que são muito bons no que é essencial. Nós temos uma cultura do acessório, do pormenor. Nós não respondemos ao que nos perguntam, respondemos sempre uma coisa ao lado.

É isso que está a fazer agora?

Não. Eu não tenho tempo para pensar. Aproveito quando converso com os jornalistas para pensar, fui sempre assim. Aprendi consigo hoje algumas coisas sobre as quais nunca tinha pensado.

Conhece o poema do tempo, começa com a frase «para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu»?

Conheço, mas eu não tenho tempo para nada. Se tiver que identificar a coisa que mais falta me faz direi que é o tempo. Se calhar é por achar que o meu tempo está a acabar. Nisso não sou parvo. Eu acho que tenho pouco tempo. De certeza que parte desta minha aceleração tem a ver com isso. Eu sempre tive falta de tempo, agora tenho mais falta de tempo porque sei que tenho pouco tempo.

E de que é que anda a fugir?

Não sei, se calhar é a fuga da morte.

Morrer de cancro era uma coisa terrível?

Era. Tenho um medo terrível do cancro. Eu também sou muito medroso, tenho medo de tudo. Tenho medo do gás, tenho medo do escuro, tenho medo do desconhecido e tenho muito medo de todas as coisas. Sempre que vou fazer um exame de rotina tenho medo que se encontre qualquer coisa, e encontra-se sempre, na minha idade então encontra-se sempre. E sei que a pessoa ter ou não ter cancro, além de ter a ver com alguns fatores comportamentais, é sobretudo sorte. É por isso que eu sou contra aquela coisa estúpida do «venci o cancro». Venceu nada, teve sorte. Fez bem, foi a um médico bom, teve um diagnóstico precoce, mas, por amor de Deus, vencer o cancro? Como se quem morre com o cancro não tivesse força de vontade. É uma estupidez. E eu tenho medo. O cancro assusta-me muito, até porque sou pessimista. Na nossa família não temos muita concentração de cancros, temos mais de doenças vasculares, diabetes e acidentes cerebrais vasculares, e eu tenho mais medo disso. Tenho um medo horrível de ficar com demência e não perceber, e dar cabo da vida aos meus filhos e à minha família.

PARTILHAR O ARTIGO \\