Companhia de Dança Contemporânea de Angola - «A arte deve incomodar e inquietar»
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«O Sul
O sol o sul o sal
as mãos de alguém ao sol
o sal do sul ao sol
o sol em mãos do sul
e mãos de sal ao sol
O sal do sul em mãos de sol
e mãos de sul ao sol
um sol de sal ao sul
o sol ao sul
o sal ao sol
o sal o sol
e mãos de sul sem sol nem sal
Para quando enfim amor
no sul ao sol
uma mão cheia de sal?»
Ruy Duarte de Carvalho
Fundada em 27 de Dezembro de 1991 pela coreógrafa e bailarina Ana Clara Guerra Marques, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola é um dos primeiros grupos do género a surgir em África. O espectáculo A Propósito de Lweji, da autoria de Ana Clara, foi o primeiro da companhia a subir ao palco. Hoje, com cerca de 34 anos de actividade, a CDC Angola integra no seu currículo várias dezenas de espectáculos em muitos países e cidades — já tendo levado o seu trabalho a 17 países e 39 cidades, actuando perante milhares de espectadores.
Para além da apresentação ao público, a companhia tem um papel importante na formação artística em Angola, pois integra uma oficina de artes que liga o ensino artístico, as artes e a comunidade, e aposta na dança inclusiva, integrando no seu elenco bailarinos com deficiência física (como o bailarino Samuel Curti).

Com um trabalho profundamente profissional, reflexivo e rigoroso, a CDC Angola trabalha sobretudo em três vertentes: em primeiro lugar, investigação e criação a partir das máscaras, danças e culturas patrimoniais angolanas; em segundo lugar, trabalho de intervenção social, explorando questões actuais; e em terceiro lugar, experimentação e investigação coreográfica contemporânea. «É uma companhia, de certa forma, crítica, porque acredito que a arte não deve ser produzida para exclusivo deleite e entretenimento. Acho que a arte deve incomodar e inquietar. Só a inquietação e o incómodo é que movem o artista», defende Ana Clara Guerra Marques. Para a coreógrafa, a sua missão é justamente essa: «fazer um trabalho que será valorizado mais tarde e que servirá de alicerce para as gerações futuras de artistas, porque não podemos aceitar que um bailarino seja apenas aquele que dança atrás de um cantor ou num espectáculo de televisão; um bailarino é um ser pensante e tem muito mais a dar do que o mero entretenimento». O grande objectivo de Ana Clara Guerra Marques e da companhia que dirige é «projectar a dança em Angola para outro plano», impedir que ao nível da arte se fique «na ideia falsa, retrógrada e falaciosa de que em África as pessoas se devem circunscrever à cultura ou à dança tradicional».

Paisagens Propícias permanece o espelho desse propósito: um trabalho maduro que mostra que em Angola também se desenvolve criação de dança com elevado nível profissional. E agora, com novas temporadas (como O Vendedor de Inutilidades em 2025), a CDC Angola reafirma que a contemporaneidade, a investigação e a internacionalização são parte integrante da sua identidade.