Grupo Teatral Henrique Artes - Teatro Despido de Adereços
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Militares, bancários, empresários, estudantes universitários e alunos do ensino médio. Nos cerca de vinte elementos que hoje compõem o Grupo Teatral Henrique Artes, há lugar para várias profissões e percursos de vida. Durante o dia, levam rotinas comuns em Luanda; mas é à noite, depois de um dia de trabalho intenso, que se reúnem para dar corpo e voz ao que mais os move — o teatro. Continuam a ensaiar no Colégio Henrique, o espaço onde tudo começou há mais de duas décadas, com pouco mais do que uns metros quadrados, um rádio e uma vontade imensa de criar.

Foi ali, em 2000, que tudo começou, quase por acaso. Flávio Ferrão, então estudante, juntou alguns colegas para encerrar o ano letivo com uma peça. O entusiasmo foi tal que a administração do colégio o desafiou a continuar. “Continuei a fazer teatro e, com o tempo, fiz cursos profissionalizantes na área para fortalecer as minhas bases — deixei de ser aluno e passei a ser o responsável pela companhia”, recorda o encenador e diretor, que até hoje lidera o grupo.
Dessa iniciativa estudantil nasceu uma das companhias mais reconhecidas e persistentes de Angola. O Grupo Henrique Artes soma mais de duas décadas de actividade ininterrupta, várias digressões nacionais e internacionais, e distinções de prestígio, entre as quais o Prémio Nacional de Cultura e Artes, atribuído pelo Presidente da República, e o FESTLIP – Festival de Teatro da Língua Portuguesa, no Brasil, onde representou Angola com aplausos.

As suas encenações cruzam crítica social, humor e poesia, sempre com uma linguagem acessível e profundamente angolana. Nos últimos anos, o grupo apresentou peças como Hotel Komarca, Passageira 640, A Paixão de Pai José e Passos para a Independência de Angola — esta última levada, em 2025, aos Estados Unidos da América, numa digressão cultural que marca um novo capítulo na sua história.
Durante muito tempo, o grupo representou apenas textos de autoria de Flávio Ferrão, mas hoje o repertório é mais diverso, incluindo obras de autores como Mena Abrantes, Victor Guerra e Victor Hugo Mendes. Mesmo sem uma sala própria — ensaiando muitas vezes em espaços cedidos ou improvisados —, o Henrique Artes mantém-se fiel à sua essência: fazer teatro despido de adereços, com emoção, convicção e um profundo amor pela arte.

Prova viva de que o teatro, em Angola, ainda pode ser uma forma de resistência, de expressão e de beleza — mesmo quando o palco é pequeno e os recursos escassos. Porque, como diz o próprio Ferrão, “o amor é o único cenário de que realmente precisamos."
Texto: Andreia Barros Ferreira/Redação
Fotografia: Manuel Teixeira
«Ensaiam com pouco mais do que uns metros quadrados de espaço, um rádio e muita dedicação.»