Joana Taya – «[…] muitas vezes, quando começo uma nova peça, o impulso inicial vem de um lugar de revolta.»
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Entre geografias, memórias e emoções, a pintora Joana Taya constrói uma linguagem artística profundamente enraizada na identidade africana e na experiência do mundo. Nascida entre Angola e a diáspora, a artista transforma vivências pessoais em obras que cruzam intimidade e consciência coletiva. Nesta conversa com a Villas&Golfe Angola, revela como a sua trajetória internacional molda o seu olhar sobre o ser humano, enquanto afirma a arte como espaço de reflexão, resistência e esperança.
A sua obra nasce entre Angola e o mundo. De que forma a identidade angolana continua a influenciar o seu olhar artístico, mesmo vivendo fora?
Embora viva há muitos anos fora de Angola, Angola vive sempre dentro de mim. A música, a gastronomia, o convívio do dia a dia, os costumes, a forma de pensar, as minhas referências visuais, as cores, os padrões e até a vontade de um dia regressar fazem-se constantemente presentes na minha vida. Quando crio, uso a minha arte não só como um diário pessoal, mas também como um meio de transmitir as minhas mensagens a partir do olhar e da experiência de uma mulher africana.

Tendo passado por realidades tão distintas como Lisboa e a Noruega, o que é que essas experiências internacionais acrescentaram à forma como interpreta e representa o ser humano?
A experiência de viver na Noruega durante 13 anos, onde tive os meus filhos, foi profundamente transformadora e rica em aprendizagem. Foi também nesse período que a minha saudade por Angola se intensificou e onde desenvolvi a minha técnica e percurso artístico de forma profissional. A cultura norueguesa ensinou-me a olhar o mundo com mais paciência e tolerância, valorizando a ideia de que o bem comum acaba por influenciar o bem de cada um. Essas vivências influenciam diretamente a forma como interpreto e represento o ser humano, trazendo uma maior sensibilidade, equilíbrio e consciência coletiva ao meu trabalho. Entretanto mudei-me para Portugal em 2016, onde encontrei uma comunidade africana muito mais presente do que aquela que tinha na Noruega. Essa proximidade tem-me inspirado bastante, e a mistura de influências africanas e europeias na literatura, na música, na língua e na gastronomia tem sido muito enriquecedora.
«A experiência de viver na Noruega durante 13 anos, onde tive os meus filhos, foi profundamente transformadora e rica em aprendizagem.»
Angola é um país em transformação. Como vê o seu futuro, e de que forma a arte pode acompanhar ou até antecipar essa evolução?
O meu desejo é que Angola continue a ser um país de paz, que consiga garantir a todos os cidadãos condições básicas como higiene, educação, saúde, alimentação, trabalho, transporte e segurança. Espero também que o país continue a fortalecer as suas parcerias com outras nações africanas e que, com o tempo, se torne mais auto-suficiente, especialmente em termos económicos e em bens essenciais, tornando-se cada vez mais autónomo. A arte nasce de uma reflexão sobre o ambiente que nos rodeia. No meu caso, procuro criar um espaço de representação da mulher africana, com a esperança de contribuir para a criação de referências num mundo cada vez mais dividido.
«Trabalho muito em torno do empoderamento mental africano e procuro desenvolver esse diálogo ao longo das minhas obras.»
A sua pintura explora muito a identidade e as emoções. O que a move, intimamente, quando começa uma nova obra? Existe uma história, uma memória ou um impulso?
Admito que, muitas vezes, quando começo uma nova peça, o impulso inicial vem de um lugar de revolta. No entanto, ao longo do processo, através de reflexão e da própria expressão, procuro transformar esses sentimentos em possíveis soluções, quase como se estivesse a escrever um diário. O meu processo passa por escrever estórias diferentes em cada coleção. Trabalho muito em torno do empoderamento mental africano e procuro desenvolver esse diálogo ao longo das minhas obras. Vivemos num mundo marcado por muito caos e injustiça, mas, ainda assim, tento criar um espaço onde exista esperança e harmonia.
«[…] a verdadeira riqueza de Angola está nas suas pessoas, cheia de vozes que merecem ser vistas e escutadas.»

Sendo uma artista com percurso global, que mensagem gostaria de transmitir ao mundo sobre Angola e que Angola gostaria que o mundo descobrisse através da sua arte?
Gostaria de transmitir que Angola é um país profundamente rico, não só culturalmente, mas também intelectualmente. Que a verdadeira riqueza de Angola está nas suas pessoas, cheia de vozes que merecem ser vistas e escutadas.
Texto: Redação
Fotos: Nuno Almendra