José Paulo Nóbrega, PCA do ICB-URBE (Icolo e Bengo – Urbe): «A Cidade Aeroportuária […] É a prova de que Angola chegou ao século XXI — e veio para disputar um lugar entre os hubs estratégicos do continente.»

José Paulo Nóbrega, PCA do ICB-URBE (Icolo e Bengo – Urbe): «A Cidade Aeroportuária […] É a prova de que Angola chegou ao século XXI — e veio para disputar um lugar entre os hubs estratégicos do continente.»

Em torno do Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto está a nascer uma cidade pensada de raiz para redefinir o posicionamento de Angola no mapa global. Nesta entrevista, José Paulo Nóbrega, PCA da ICB-URBE, explica a visão estratégica por detrás da Cidade Aeroportuária de Icolo e Bengo, os pilares do projecto, o papel da arquitectura internacional, a integração de empresas angolanas e a ambição de transformar o AIAAN num motor económico, logístico e turístico de escala internacional.

 

Qual é a visão estratégica da ICB-URBE para o desenvolvimento da nova cidade aeroportuária em torno do AIAAN?
A visão da ICB-URBE parte da ideia de que o AIAAN representa uma oportunidade histórica para construir uma nova centralidade económica com base nas melhores práticas internacionais. Assenta em cinco pilares: posicionar Angola como plataforma de integração económica regional e global; consolidar o entorno do aeroporto como polo logístico, industrial e comercial; criar um ecossistema completo com habitação, serviços e inovação capaz de atrair talento e investimento; garantir um crescimento faseado, orientado pela procura e alinhado com critérios ESG; e inserir Angola no radar dos grandes investidores internacionais. Um elemento essencial é a protecção do próprio aeroporto, que constitui o ponto de partida da missão. A Cidade Aeroportuária não é apenas construída à volta do aeroporto, mas sim um ecossistema em que ambos crescem de forma interdependente e reforçada. A visão não é construir uma cidade à volta de um aeroporto. É criar um ecossistema onde a cidade e o aeroporto crescem juntos — cada um tornando o outro mais forte.

«[…] o AIAAN representa uma oportunidade histórica para construir uma nova centralidade económica […]»

Quando falamos da Cidade Aeroportuária de Icolo e Bengo, de que conceito estamos a falar exactamente?
Trata-se de uma aerotrópole, um modelo urbano em que o aeroporto funciona como âncora de um ecossistema económico alargado, à semelhança de casos como Dubai, Singapura ou Amesterdão. A ICB-URBE gere a reserva fundiária em redor do AIAAN, assegurando o controlo da concessão, do tipo de construção e da sua finalidade. Este enquadramento garante previsibilidade e segurança jurídica ao investimento, fundamentais para reduzir risco e aumentar a atractividade. A operação do aeroporto exige cumprimento rigoroso de normas internacionais de aviação civil, que regulam a ocupação do território envolvente. A disciplina urbanística não limita o desenvolvimento — garante-o. A escolha da Foster + Partners para o masterplan reforça essa ambição, tratando-se de um dos mais reputados gabinetes mundiais, responsável por infraestruturas como os aeroportos de Hong Kong e Pequim. O processo incluiu uma fase de escuta das especificidades angolanas, envolvendo também empresas nacionais, que participam no desenvolvimento e execução dos projectos, reforçando a capacidade técnica do país.

Que projectos estruturantes estão em curso e qual o impacto esperado?
Está em desenvolvimento um Polo de Serviços Aeroportuário que integra hotelaria, restauração, manutenção aeronáutica, handling, catering e apoio às tripulações. Este conjunto cria um ecossistema eficiente, melhora a experiência dos passageiros e gera receitas não aeronáuticas essenciais à sustentabilidade do aeroporto. Inclui também centros de formação aeronáutica e técnica, promovendo emprego qualificado e posicionando o aeroporto como nó estratégico. Em paralelo, o Polo Logístico Aeroportuário visa transformar Angola de consumidor logístico em plataforma activa, com terminais de carga internacional, zonas industriais, infraestruturas de apoio e serviços empresariais. O impacto é significativo: as empresas passam a ter acesso directo a rotas globais e a processos simplificados através de um One Stop Shop, reduzindo burocracia e acelerando investimentos. O objectivo é posicionar Angola como hub regional para África Central e Austral, diversificando a economia e reduzindo a dependência do petróleo.

De que forma a ICB-URBE pretende atrair investimento e qual o papel do turismo?
A estratégia de atracção de investimento assenta numa abordagem activa, com roadshows internacionais e contacto directo com fundos soberanos, fundos de infra-estrutura, private equity e operadores especializados. Cada proposta é adaptada ao perfil do investidor. O turismo de alto valor tem um papel central. O projecto integra um campo de golfe desenhado por Ernie Els, resorts de luxo, spa, centro de convenções, casinos e retail duty-free. A isto juntam-se activos como o Parque Nacional da Quiçama, com cerca de 9.600 km² e acesso próximo do aeroporto, e Cabo Ledo, reconhecido pelas suas condições para surf. Esta combinação oferece experiências diferenciadoras — golfe, safari e surf — posicionando Angola como destino competitivo no turismo internacional e reforçando a sua imagem global.

Que papel poderá esta cidade aeroportuária desempenhar no futuro de Angola?
O seu impacto dependerá da capacidade de execução, consistência e visão de longo prazo. Quando plenamente desenvolvida, permitirá posicionar Angola como hub logístico de referência na África Central e Austral, reforçar a captação de investimento estrangeiro e dinamizar sectores como turismo, serviços, logística e inovação. Mais do que um projecto urbano, constitui uma garantia para o próprio aeroporto, assegurando a sua operação sustentável e protegida de crescimento desordenado. A protecção da reserva fundiária deve ser vista como um desígnio nacional, envolvendo Estado e sociedade na salvaguarda de um investimento estratégico. A Cidade Aeroportuária não é apenas o maior projecto de desenvolvimento urbano da nossa história recente. É a prova de que Angola chegou ao século XXI — e veio para disputar um lugar entre os hubs estratégicos do continente.

«O objectivo é posicionar Angola como hub regional para África Central e Austral, diversificando a economia e reduzindo a dependência do petróleo.»

 

Texto: Redação 
Fotos: Direitos Reservados

Voltar para o blogue