Ricardo Viegas d'Abreu, Ministro dos Transportes de Angola – «Angola reúne condições objectivas para se afirmar como uma ponte estratégica entre África e o resto do mundo.»

Ricardo Viegas d'Abreu, Ministro dos Transportes de Angola – «Angola reúne condições objectivas para se afirmar como uma ponte estratégica entre África e o resto do mundo.»

No ano em que Angola assinala meio século de Independência, o sector dos Transportes assume-se como um dos pilares centrais da transformação económica e da integração do país no contexto global. Em entrevista, Ricardo Viegas d’Abreu, Ministro dos Transportes, traça a visão estratégica para o desenvolvimento das infra-estruturas nacionais — dos aeroportos aos portos, passando pelos caminhos-de-ferro e plataformas logísticas — e explica como estes projectos estruturantes estão a posicionar Angola como um hub regional de mobilidade, comércio e investimento.


No ano em que Angola celebra 50 anos de Independência, de que forma o sector dos Transportes se afirma hoje como um dos principais motores do desenvolvimento económico, da coesão territorial e da abertura do País ao Mundo?
Angola assinala 50 anos de Independência num momento de afirmação estrutural do seu modelo de desenvolvimento. O sector dos Transportes é um pilar crítico dessa trajectória, actuando como alavanca de integração territorial, eficiência económica e projecção externa. A estratégia do Executivo está centrada na construção de um sistema integrado, moderno e competitivo, orientado para ligar produção, mercados e fronteiras, reduzir custos logísticos e aumentar a eficiência das cadeias de valor. Este alinhamento, consagrado no Plano Director e no PDN 2023-2027, permite acelerar a diversificação económica, potenciar sectores produtivos e garantir maior equilíbrio no acesso a oportunidades e serviços em todo o território.

A entrada em funcionamento do Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto representa um marco histórico. Que impacto terá na mobilidade e no investimento?
Trata-se de uma infra-estrutura estruturante, desenhada para responder às exigências actuais e antecipar a evolução da mobilidade aérea. Com capacidade para cerca de 15 milhões de passageiros por ano e 130 mil toneladas de carga, posiciona Angola como plataforma de ligação entre África, Europa, Médio Oriente e Américas. Mais do que uma infra-estrutura aeroportuária, configura um ecossistema económico integrado, com zonas logísticas, comerciais e residenciais, capaz de atrair investimento, gerar emprego e dinamizar novas actividades. A sua entrada em funcionamento marca um salto qualitativo na conectividade internacional e no posicionamento competitivo do País.

«A estratégia do Executivo está centrada na construção de um sistema integrado, moderno e competitivo […]»

O Corredor do Lobito avança com envolvimento internacional. Que importância assume?
O Corredor do Lobito afirma-se como um dos projectos logísticos mais relevantes do continente, ligando o Atlântico ao interior da África Austral e Central e criando uma via eficiente para o escoamento de recursos e mercadorias. Em Angola, tem impacto directo na dinamização das regiões do interior e na integração territorial ao longo do eixo Lobito–Huambo–Luena–Luau. Responde simultaneamente a desafios estruturais como a diversificação económica, a segurança alimentar e a transição energética. A nível regional, com forte ligação ao Copperbelt, constitui uma alternativa logística competitiva, reforçando o papel de Angola como plataforma estratégica de acesso aos mercados internacionais.

Como enquadra hoje o papel dos portos nacionais?
Os portos nacionais estão a passar por uma transformação estrutural orientada para a competitividade e eficiência. Destaca-se o Terminal de Águas Profundas do Caio, no Porto do Caio, em Cabinda, cujo concurso público internacional para construção e gestão foi recentemente lançado, bem como a expansão do Porto do Namibe e a modernização das infra-estruturas de Luanda, Soyo e Porto Amboim. Estas infra-estruturas reforçam a capacidade operacional e a qualidade do serviço, posicionando Angola nas rotas do comércio regional e global. Ao assegurar o escoamento eficiente de minerais, produtos agrícolas, combustíveis e carga contentorizada, contribuem para reduzir custos logísticos e aumentar a competitividade das exportações.

Que transformação trará o Metro de Luanda?
Luanda enfrenta desafios estruturais de mobilidade associados ao crescimento urbano acelerado. O Metro de Superfície integra uma solução multimodal com sistemas BRT, autocarros e ferrovia, orientada para eficiência e sustentabilidade. A sua implementação exige articulação estreita com o Governo Provincial de Luanda, entidade com responsabilidade directa na gestão dos transportes urbanos, incluindo redes rodoviárias e operadores. O impacto traduz-se na redução dos tempos de deslocação, melhoria da qualidade de vida e menor pressão sobre a rede viária, sendo determinante o reforço do planeamento urbano e da governação integrada para garantir a sua eficácia e sustentabilidade.

«O Corredor do Lobito afirma-se como um dos projectos logísticos mais relevantes do continente […]»

Como as plataformas logísticas contribuem para posicionar Angola como hub africano?
As plataformas logísticas são elementos críticos na estruturação de cadeias de abastecimento eficientes, permitindo a integração de diferentes modos de transporte e a optimização do fluxo de mercadorias. A Plataforma da Caála, associada ao Corredor do Lobito, reforça o apoio ao agronegócio e à capacidade exportadora. O posto fronteiriço do Luvo evidencia ganhos de facilitação no contexto da Zona de Comércio Livre Continental. No seu conjunto, estas infra-estruturas consolidam Angola como hub regional de distribuição, com capacidade para servir mercados internos e países da África Austral e Central.
 
Que investimentos estão a ser feitos nos caminhos-de-ferro?
O sistema ferroviário está a recuperar centralidade na estrutura económica nacional. Estão em curso projectos de interligação entre os corredores de Benguela, Luanda e Moçâmedes, visando a criação de uma rede integrada e funcional. O modelo de desenvolvimento inclui concessões e parcerias com operadores especializados, com o objectivo de melhorar a eficiência e atrair investimento privado. Paralelamente, avançam os projectos do Corredor do Namibe e do Corredor Norte, com apoio da IFC, reforçando a conectividade interna e regional e consolidando corredores de desenvolvimento económico.

Qual a visão para a TAAG?
A TAAG é um activo estratégico para o posicionamento de Angola no transporte aéreo regional e internacional. O processo de renovação da frota e modernização operacional visa reforçar a competitividade, melhorar o serviço e expandir a rede de destinos. Com o novo aeroporto, a companhia ganha condições para intensificar a conectividade entre África e os principais mercados globais. A estratégia inclui a abertura ao capital privado com parceiros que acrescentem valor, assegurando uma companhia mais eficiente, orientada para o mercado e alinhada com a ambição de afirmar Angola como hub aéreo relevante.

Como avalia a confiança internacional em Angola?
O reforço do alinhamento com padrões internacionais e instituições multilaterais tem sido determinante para a credibilidade do sector. Organizações como a OACI e a OMI estabelecem referenciais essenciais de actuação. O envolvimento do Banco Mundial, FMI e União Europeia reflecte confiança nas reformas institucionais, na melhoria da regulação e na transparência. Este enquadramento tem permitido mobilizar financiamento, conhecimento técnico e investimento privado, factores críticos para acelerar a execução de projectos estruturantes e consolidar o posicionamento de Angola.

Que mensagem deixa aos investidores internacionais?
Angola apresenta-se hoje como um destino de investimento com fundamentos sólidos: localização estratégica, infra-estruturas em expansão e um quadro institucional progressivamente mais previsível e transparente. As reformas em curso reforçam a estabilidade regulatória e criam condições para parcerias sustentáveis. O programa de concessões e parcerias público-privadas abre oportunidades concretas nos sectores portuário, aeroportuário, logístico e ferroviário. A proposta é clara: um parceiro confiável para projectos de longo prazo com impacto nacional e regional.

«A TAAG é um activo estratégico para o posicionamento de Angola no transporte aéreo regional e internacional.»

Que desafios futuros se colocam ao Ministério?
Os desafios concentram-se na consolidação das reformas estruturais, materializadas no PROCREST, com foco na governação, eficiência operacional, digitalização e qualificação do capital humano. É igualmente crítico garantir a sustentabilidade financeira dos sistemas de transporte público e responder às exigências da mobilidade urbana nas grandes cidades. Paralelamente, importa aprofundar a integração entre modos de transporte, transformando corredores logísticos em verdadeiros eixos de desenvolvimento económico, com impacto directo na competitividade do País.

Como imagina Angola no mapa global dos transportes?
Angola reúne condições objectivas para se afirmar como uma ponte estratégica entre África e o resto do mundo. A combinação entre localização geográfica e investimento em infra-estruturas cria uma base robusta para esse posicionamento. O objectivo é consolidar um sistema de transportes integrado, eficiente e competitivo, capaz de suportar o comércio internacional, acelerar a diversificação económica e reforçar a integração regional, afirmando o País como um dos principais centros logísticos do continente africano.

 

Texto: Redação 
Fotos: Edson Azevedo

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