João de Sousa Rodolfo - «[…] a felicidade é feita de amor e de reconhecimento público.»
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Diz que é difícil imaginar fazer da vida algo diferente. Ainda assim, procurámos descobrir um pouco mais sobre João de Sousa Rodolfo, nome com lugar singular na arquitetura residencial contemporânea em Portugal. Com mais de três décadas de profissão, o seu traço deu lugar a uma obra reconhecida pela elegância tranquila com que integra topografia, luz e vida quotidiana – casas que “respiram”, calibradas pela personalidade de quem as habita. CEO e fundador do Traçado Regulador, atelier referência nacional no desenho de moradias de luxo, esteve à conversa com a Villas&Golfe num registo próximo e pessoal.
Onde termina a arquitetura e começa o João Rodolfo? Ou nunca há essa separação?
Talvez seja difícil separar, ou seja, imaginar a vinha vida fazendo algo diferente. De facto tenho a sorte de ter como trabalho uma actividade que me dá um enorme prazer e que pude e posso praticar ao longo de muitos anos. A arquitetura, o ato de criar espaços onde a vida acontece, é uma constante na minha vida.
Se pudesse construir algo que nunca será habitado por ninguém, apenas um gesto poético, sem função, o que seria?
Talvez esse objeto fosse apenas uma escultura habitável, ou percorrível. Seria uma espécie de labirinto, repleto de intriga espacial que permitisse leituras múltiplas – em resumo, um poema espacial sem os inúmeros constrangimentos, técnicos, legais, programáticos ou económicos dos projetos de todos os dias.

Qual o maior elogio que já recebeu de um cliente e o que mais o incomodou, vindo do mesmo universo?
Os elogios são aquilo que nos move. Tenho para mim que a felicidade é feita de amor e de reconhecimento público. Os maiores elogios vêm dos clientes quando são confrontados com as primeiras imagens dos projetos que produzimos e muitas vezes não são expressos por palavras, mas nas emoções refletidas no seu rosto. Quanto a algum aspeto negativo que tenha acontecido, não me recordo. Não tenho por hábito registar aspetos negativos, apenas registo o positivo. E essa é outra receita para construir felicidade.
«Os elogios são aquilo que nos move.»
Qual foi o momento mais solitário da sua carreira e o que aprendeu com ele sobre si mesmo?
A crise de 2008, que se agravou para mim em 2011, pois tínhamos em projeto muitos equipamentos sociais com contratos programa assinados pelo governo e que não foram em frente, obrigou-me a reduzir muito a estrutura do atelier para poder resistir. Essa crise ensinou-me que para resistir é preciso adotar estratégias que nos tornem menos dependentes de um único sector de mercado. O exercício da arquitetura enquanto negócio não dispensa a utilização de adequadas ferramentas de gestão e de marketing, bem como a capacidade de antever cenários futuros.
Com quem se aconselha quando está perdido entre decisões grandes? Há alguém que seja o seu «norte»?
Não tenho por hábito partilhar problemas. Identifico-os e resolvo-os. Só me apetece falar sobre eles quando já estão resolvidos. Por vezes, sou criticado por isso – a minha mulher não tolera. Ela é o meu apoio constante e gosta que eu partilhe o que me preocupa.
Já se emocionou com um cliente? Alguma história em que a empatia ultrapassou o desenho?
Sim, emociono-me com facilidade. Lembro-me de um casal a quem estávamos a apresentar o projeto e discutíamos as soluções espaciais e funcionais em planta. No ecrã em frente aos clientes um colaborador ia passando imagens do projecto, mas que os clientes não identificavam como sendo a sua casa. Comentavam «esta casa é linda…é mesmo um sonho». A certa altura disse-lhes: «mas esta é a vossa casa». A senhora emocionou-se e verteu uma lágrima…e eu também.
Prefere o cliente que sabe exatamente o que quer ou aquele que confia inteiramente na sua visão? Porquê?
Gostos dos dois tipos, mas talvez mais o segundo. O que não gosto mesmo é de clientes que mudam de ideias todos os dias, sem entender o que isso significa em custos de projeto. Às vezes uma pequena alteração na fase final do projeto significa a produção de centenas de desenhos novos.
«Não tenho por hábito partilhar problemas. Identifico-os e resolvo-os.»
Como vê a responsabilidade social do arquiteto hoje em dia?
Este é de facto um tema importante. O arquiteto influencia decisões que têm um enorme impacto na sociedade. Refiro-me aqui, não ao arquiteto enquanto decisor público, mas ao arquiteto comum que vive da sua atividade de projeto. A indústria da construção representa 13% do PIB mundial. No projeto dos edifícios são escolhidos materiais e soluções de eficiência energética que impactam de maneira diversa o ambiente. Não nos podemos esquecer que 40% do consumo energético acontece em edifícios. Assim, os arquitetos têm o poder de influenciar os seus clientes conduzindo-os às decisões mais adequadas no interesse de toda a sociedade.
Como imagina a cidade ideal do futuro?
Cidades mais pequenas, onde o automóvel não fosse o elemento dominante, com bairros inteiramente pedonais e com muitos espaços verdes, onde a socialização acontecesse a cada momento. Ou seja, um percurso em sentido contrário ao que vem acontecendo desde a revolução industrial, com o repovoamento do interior e com a reabilitação e o desenvolvimento sustentado dos seus núcleos urbanos.
Se pudesse passar um dia inteiro longe do mundo e sem culpa… o que faria?
Acho que já o fiz tantas vezes e de tantas formas que não encontro a resposta adequada. Já o fiz a viajar, a jogar golfe ou a visitar uma adega. E nunca senti qualquer culpa…
Há alguma paixão que gostaria de ter tido coragem de explorar mais a fundo fora da arquitetura?
Penso que não. Aos 64 anos, sinto-me perfeitamente realizado e, posso dizê-lo com muito agrado, feliz. Já não penso no que quero ser ou no que quero ainda fazer. Já olho para trás e digo: «Valeu a pena. Foi bom.».
O que é que o João Rodolfo arquiteto ainda não teve coragem de dizer publicamente?
Bom, digo quase tudo. Quando não o digo é por educação, por diplomacia ou porque posso ser mal interpretado. Mas hoje apetece-me gritar uma coisa: acho que produzimos legislação a mais, pouco clara, por vezes contraditória e que dá nós difíceis de desatar que impedem o livre desenvolvimento das atividades económicas. O exercício profissional da arquitetura não é exceção.
No final de tudo, o que é que deseja que digam de si: que foi um «grande arquiteto» ou um «homem extraordinário»?
Prefiro que digam que sou e não que fui ambas as coisas. Acho que não me vou importar muito com isso, quando já tiver ido… Não vou negar que o reconhecimento público é algo reconfortante para o nosso ego, tando do ponto de vista social como profissional.
«O arquiteto influencia decisões que têm um enorme impacto na sociedade.»
O que mais o alegra quando chega ao fim de uma obra?
Que o resultado seja tão próximo quanto possível do projeto e que a obra transpire qualidade por todos os poros.

Sabemos que recentemente foi convidado, tal como aconteceu com o Arq. Souto Moura, para o projecto de um conjunto de moradias na Quinta do Pinhão, perto de Lisboa. Como descreve esse desafio?
De facto trata-se de um grande desafio. Produzir o projecto para um conjunto de 18 moradias que se vão situar num contexto de grande qualidade ambiental, em muito boa companhia e para uma empresa que prima pela qualidade de construção – o Grupo Alves Ribeiro. Parece-me que nos saímos bem, pois a seguir às 18 moradias, recebemos a encomenda de mais 35.
Depois de tanto sucesso e de tantas obras emblemáticas, existe alguma obra que lhe falte fazer?
O próximo projeto. E sempre o próximo projeto. Cada projeto é um novo desafio, com novas variáveis e com novas dificuldades a vencer – o jogo nunca é o mesmo, muda sempre e nunca cansa.
«Aos 64 anos, sinto-me perfeitamente realizado e, posso dizê-lo com muito agrado, feliz.»
Texto: Carla Martins
Fotos: Nuno Almendra