Nini Andrade Silva – «O meu coração é português, mas eu sou do mundo.»
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Nini Andrade Silva é nome que se tornou geografia, verdadeiro lugar criativo. Nascida na ilha da Madeira, moldada pelas paisagens vulcânicas e pelo ritmo do Atlântico, a sua linguagem própria conta histórias visuais por todo o mundo, transformando a arquitetura de interiores em experiências sensoriais e culturalmente imersivas. A Villas&Golfe, onde a sua voz já ecoou tantas vezes, celebra-a nesta edição de aniversário, desafiando-a a uma conversa onde a inquietação luminosa que guia o seu percurso se destaca.
Nini, a sua história tem-se entrelaçado, ao longo dos anos, com a da Villas&Golfe. Quando olha para este percurso, como sente que evoluiu a sua visão do design e a forma como se expressa através dele?
O meu percurso no design sempre foi profundamente pessoal, ancorado na minha origem madeirense, mas também projetado para o mundo. Cresci entre as pedras do Funchal, os “calhaus” que marcaram a minha infância, e a luz intensa do Atlântico; esses elementos muito concretos moldaram o meu olhar, a minha relação com a matéria e a forma como entendo a beleza. Mas, com o tempo, o mundo também se tornou a minha casa. Trabalhar e viver em cidades tão distintas como Nova Iorque, Londres, Paris, Copenhaga ou Joanesburgo ampliou a minha visão e deu-me novas linguagens. Foi essa experiência internacional, diversa, multicultural, profundamente desafiante, que me permitiu transformar a emoção da Madeira numa estética universal. Hoje, sinto que evoluí para uma abordagem mais sofisticada e estratégica, onde o design é sempre uma síntese: emoção e funcionalidade, memória e inovação, poesia e precisão. Cada projeto é pensado para ser uma experiência, não apenas um espaço. Para mim, o design tornou-se um exercício de identidade, a minha e a de cada lugar , mas sempre com a ambição de criar algo que possa ser sentido em qualquer parte do mundo.
O meu percurso no design sempre foi profundamente pessoal […]
Costuma dizer que, enquanto tiver saúde, não pensa em parar. Essa paixão pelo que faz é, de certa forma, o seu motor diário — o seu sonho em movimento?
Sim. O design não é apenas uma profissão para mim, é a minha forma de estar no mundo. É um sonho em movimento. Acordo todos os dias com vontade de criar, de experimentar, de descobrir novas formas de contar histórias através da arquitetura e do interior. Essa urgência criativa é o que me mantém energizada e responsável pelos meus projetos e pela equipa.
A Madeira continua a ser uma presença forte no seu universo criativo. Que lugar ocupa hoje a ilha naquilo que concebe e sente?
A Madeira é o meu ponto de partida e o meu refúgio. Foi onde nasci, onde vivi grande parte da minha vida, e onde ainda guardo a minha casa e os meus afetos. A ilha não é apenas uma inspiração visual, é uma matriz emocional. A madeira, a pedra, o vento e o mar estão presentes no meu trabalho como memórias constantes. Mesmo nos projetos mais internacionais, levo comigo esse sotaque sensorial, porque acredito que a autenticidade nasce dessas raízes.
A sua assinatura é reconhecida dentro e fora de Portugal. Ainda se vê como uma embaixadora do design e da alma portuguesa no mundo?
Sim, de certo modo. Nunca deixei de ser portuguesa no meu trabalho; a sensibilidade, a poesia, a autenticidade fazem parte da minha identidade criativa. É uma honra para mim representar essa forma de design português que valoriza matéria, emoção e memória. Quando trabalho fora, levo comigo a cultura portuguesa, mas também aprendo com os contextos onde vivo. Essa troca enriquece-me como designer e como pessoa.
Viveu e trabalhou em cidades tão distintas como Nova Iorque, Londres, África do Sul ou Dinamarca. Qual destas geografias mais a marcou?
Cada geografia marcou-me de uma forma diferente. O meu coração é português, mas eu sou do mundo. Sempre disse que o planeta se transformou numa cabana, e sinto isso profundamente. Nova Iorque deu-me ambição; Londres, disciplina; a Dinamarca ensinou-me a simplicidade; África do Sul, a força da natureza. Mas ao mesmo tempo, pertenço a todos e a nenhum, porque cada lugar se tornou parte da minha identidade criativa. E, apesar de ter vivido em tantas cidades, a Madeira continua a ser o meu porto emocional. É onde tenho a minha casa, os meus amigos de infância, as minhas referências. O mundo é a minha casa.
Em mais de 35 anos de carreira, deu forma a hotéis, residências, peças de mobiliário, joias… Há um projeto que recorde como o mais arrojado ou desafiante da sua trajetória?
Ao longo da minha carreira, percebi que, pela natureza do meu trabalho e pela identidade que construí, todos os projetos que chegam até mim já são arrojados à partida. Os clientes procuram-me precisamente porque querem algo que vá além do previsível, querem alma, querem identidade, querem risco. E, sendo profundamente envolvida em tantos universos, hotéis de luxo, residências, product design, curadorias, joias, conferências internacionais, cada projeto traz um desafio diferente. Uns desafiam-me pela complexidade narrativa, outros pelos materiais inesperados, outros ainda pelo contexto cultural ou pela responsabilidade simbólica que carregam. Por isso, nunca consigo escolher “o mais desafiante”. Cada projeto é um mundo, um diálogo e uma entrega completa. E, sendo todos tão únicos, cada um obriga-me a reinventar-me. E é exatamente isso que me fascina.
Os clientes procuram-me precisamente porque querem algo que vá além do previsível, querem alma, querem identidade, querem risco.
Está envolvida em vários projetos internacionais. Pode revelar-nos alguns dos mais recentes — ou aqueles que mais entusiasmo e curiosidade lhe despertam neste momento?
O ano de 2025 foi verdadeiramente fantástico, uma viagem constante, cheia de acontecimentos importantes e desafios estimulantes. Para os próximos meses há vários projetos que me deixam muito entusiasmada. Fui convidada para ser Keynote Speaker na Maison&Objet 2026, em janeiro, em Paris, o que é um reconhecimento internacional muito especial. Estamos também a trabalhar em projetos hoteleiros de grande exigência, cada um com a sua alma própria: Belmond, Autograph Collection (Marriott), Barceló, IHG Kimpton, entre outros. São projetos muito diferentes entre si, mas todos com elevada complexidade técnica e uma grande responsabilidade cultural. E há ainda colaborações internacionais e novos desafios que estão a ser preparados, alguns dos quais não posso revelar ainda, mas que prometem trazer capítulos muito emocionantes para o próximo ano.
E qual projeto ou obra mais a marcou até hoje?
São muitos, na verdade são todos, e por razões muito diferentes. Cada projeto cria em mim uma ligação pessoal: aos lugares, às equipas, às histórias. Por isso, escolher apenas um seria impossível. Posso, ainda assim, destacar alguns que tiveram impacto profundo em diferentes fases da minha vida e carreira. Os projetos que desenvolvi na Colômbia, por exemplo, marcaram-me de forma humana, emocional e cultural, a ponto de me conduzirem ao papel de Cônsul Honorária da República da Colômbia. O W Hotel São Paulo, o primeiro W no Brasil, foi outro marco, não apenas pela escala, mas por ter inspirado a criação da Coleção Amazónia, uma linha de peles 100% vegan desenvolvida com a Monteiro Fabrics, mostrando como um projeto pode gerar novas linguagens e até novas indústrias. O Design Centre, que criei na Madeira, é quase uma ilha dentro da minha ilha: um espaço onde a minha identidade criativa vive de forma plena. O meu primeiro grande hotel, o Aquapura Douro Valley, marcou-me porque foi ele que abriu portas para o mundo. E o Savoy Palace, também na Madeira, é um colosso de arquitetura emocional, uma obra de uma vida, construída com rigor e poesia. Mas estes são apenas alguns exemplos num universo muito maior. Cada projeto deixou uma marca única e irrepetível, e todos fazem parte da minha história.
Profissionalmente, todos a conhecem como Nini. Mas o seu nome é Isabel Andrade Silva. Quando a chamam Isabel, como é esse reencontro com a sua identidade de origem?
Na verdade, fui eu que escolhi o meu nome, ainda em criança. A minha mãe dizia que a primeira palavra que pronunciei foi “Nini”, e ficou para sempre. Ela brincava: “até o nome tiveste de pôr…” Por isso, quando alguém me chama “Isabel”, há sempre um pequeno desfasamento, quase não reconheço que estão a falar comigo. A minha identidade é Nini. É assim que vivo, que crio, que existo no mundo.
Para lá do design, o que lhe dá prazer no quotidiano? Que pequenos rituais ou momentos cultiva como essenciais?
Gosto muito de estar com a família, de viajar sem planeamento, de caminhar na natureza, de ler e pintar. Também tenho rituais simples: manter um caderno sempre perto para anotar ideias que surgem à noite, reservar tempo para meditar sobre os projetos, ouvir música. Esses momentos alimentam-me e permitem que recarregue.
A família tem sido um pilar importante na sua vida. Como conseguiu equilibrar o lado afetivo e o ritmo exigente de uma carreira internacional?
Não é sempre fácil, mas para mim a família é prioridade. Tenho uma equipa, um atelier que é uma família, e um equilíbrio que construí ao longo dos anos. Trabalho muito, sim, mas também valorizo ter tempo para estar com quem amo. Acredito que o afeto e a disciplina caminham juntos.
O luxo faz parte do seu universo profissional — mas e na sua vida pessoal? Há algum objeto ou hábito que considere o seu luxo preferido?
O meu luxo mais precioso é o tempo, tempo para criar, para respirar, para estar. Também valorizo pequenos luxos muito pessoais, como um bom livro, uma peça de arte, uma conversa sincera… coisas que não se compram, mas se vivem.
O conceito de luxo tem vindo a reinventar-se. O que significa, hoje, o verdadeiro luxo para si?
Para mim, o verdadeiro luxo é a autenticidade. É a simplicidade sofisticada, a imperfeição natural, a matéria que nos fala. É aquilo que permanece quando retiramos tudo o que é acessório. É a presença, a memória, a emoção.
Se pudesse escolher um desafio criativo ainda por realizar, qual seria?
[…] Estamos a expandir cada vez mais pelo mundo, com o objetivo de fortalecer a marca Nini Andrade Silva e, sobretudo, deixar um legado duradouro no mundo. Isto é algo que me move profundamente e que me dá propósito. Gostaria também de criar uma escola internacional de design, onde profissionais e estudantes de todo o mundo pudessem desenvolver mestrados e programas avançados, partilhando conhecimento e estimulando a criatividade global. Para mim, este é o futuro da marca, um futuro que contribui, ensina e inspira. Sou igualmente Embaixadora da Associação Garouta do Calhau, uma causa muito próxima do meu coração, à qual quero dedicar cada vez mais energia e apoio. Tudo o que faço, todos os projetos e iniciativas, têm como objetivo deixar uma marca positiva, criar experiências e contribuir para algo maior do que eu mesma, é assim que penso o meu legado.

© Ricardo Lopes
E olhando para as novas gerações — há algum designer ou tendência contemporânea que a inspire ou a faça acreditar no futuro do design de interiores?
Sim. Acompanho designers que valorizam sustentabilidade, artesanato, autenticidade e emoção. Gosto de quem não se impõe por gigantismo, mas por pensamento, sensibilidade e propósito. Acredito que o futuro do design pertence a quem pensa de forma ética, criativa e humana.
[…] o design não é só sobre espaços bonitos e funcionais, mas sobre como esses espaços nos ajudam a viver melhor, com mais alma, mais presença e mais alegria.
Que mensagem deixaria aos leitores da Villas&Golfe, nesta celebração de 25 anos de uma publicação que chega ao mundo e que também dá destaque ao design?
É uma honra fazer parte desta celebração. Desejo que a Villas&Golfe continue a promover valores de excelência, sensibilidade e criatividade. E deixo uma reflexão: o design não é só sobre espaços bonitos e funcionais, mas sobre como esses espaços nos ajudam a viver melhor, com mais alma, mais presença e mais alegria.
Texto: Carla Martins
Fotos: Mestre Homem Cardoso