Museu da Farmácia do Porto - Os tesouros de 500 milhões de anos da história universal da saúde

Museu da Farmácia do Porto - Os tesouros de 500 milhões de anos da história universal da saúde

No coração do Porto, o Museu da Farmácia convida a uma viagem tão inesperada quanto fascinante: um percurso por cerca de 500 milhões de anos de história da saúde, onde a humanidade se revela na sua eterna luta contra a doença, na procura da cura e no desejo profundo de aliviar a dor.
A coleção, de rara riqueza artística, antropológica e científica, constrói-se como uma verdadeira narrativa universal. Aqui, cada civilização é apresentada através das suas práticas médicas e farmacêuticas, desde os primeiros vestígios de vida na Terra, com peças que remontam a 500 milhões de anos, até à contemporaneidade. Pelo caminho, cruzam-se culturas tão distintas no tempo e no espaço como o Antigo Egito, a Grécia Antiga, o Império Romano, o mundo islâmico, a África, a América do Sul ou o Tibete.

[…] o Museu da Farmácia convida a uma viagem tão inesperada quanto fascinante: um percurso por cerca de 500 milhões de anos de história da saúde […]

O percurso expositivo no Museu da Farmácia do Porto desafia o visitante a começar pela peça mais antiga– um fóssil marroquino com 500 milhões de anos - avançando depois por objetos que impressionam pela diversidade de formas, funções e simbolismo. Instrumentos cirúrgicos evocam as conquistas técnicas do Império Romano, enquanto máscaras de curandeiros e feiticeiros revelam a dimensão espiritual e ritual da medicina praticada em várias tribos africanas e sul-americanas, onde a saúde se confundia com rezas, plantas medicinais e cerimónias ancestrais.
Entre as peças mais emblemáticas encontram-se os vasos de vísceras do Antigo Egito, testemunhos de uma civilização que acreditava na preservação do corpo para a vida além-morte, e exemplos claros de como medicina, religião e cosmologia caminharam juntas ao longo da história. A simbologia também ocupa um lugar central: a serpente, símbolo universal da farmácia, surge como metáfora de transformação, regeneração e renovação — um ícone que atravessou séculos, adaptando-se a diferentes culturas.

[…] máscaras de curandeiros e feiticeiros revelam a dimensão espiritual e ritual da medicina praticada em várias tribos africanas e sul-americanas […]

O mundo romano deixou marcas profundas na evolução farmacêutica, nomeadamente com a introdução do vidro para a conservação de medicamentos, percebendo-se desde cedo que este material oferecia maior segurança. Já no universo islâmico, entre os séculos X e XVI, a farmácia conheceu um notável avanço: os árabes foram pioneiros ao combinar química e plantas medicinais, utilizando potes de cobre, misturas de mel e açúcar para tornar os remédios mais agradáveis e decorando os recipientes com citações do Alcorão, numa estratégia engenhosa para conquistar a confiança dos doentes. Não é por acaso que a primeira farmácia árabe surgiu no século VIII, muito antes da primeira farmácia europeia, criada apenas no século XIII. 
Um dos momentos mais surpreendentes da visita é a entrada na extraordinária Farmácia Islâmica do século XIX, proveniente do Império Otomano. Originalmente integrada num palácio de Damasco, este espaço absolutamente espantoso, de decoração dourada e requintada, convidava as pessoas a permanecer, a conversar e a tomar os seus medicamentos num ambiente de conforto e beleza. A farmácia foi adquirida pela ANF antes da guerra civil da Síria, preservando assim um património de valor incalculável.

Um dos momentos mais surpreendentes da visita é a entrada na extraordinária Farmácia Islâmica do século XIX, proveniente do Império Otomano. 

De igual forma, o museu permite visitar a Farmácia Estácio, do Porto, cujo espólio físico se encontra incrivelmente bem conservado, transportando o visitante para a antiga Rua Sá da Bandeira. Da cultura portuguesa destacam-se ainda peças como um almofariz com as armas da Casa Real Portuguesa ou o balcão que pertenceu ao Hospital da Marinha, em Lisboa, espaço inaugurado pelas tropas francesas.
Entre as curiosidades mais singulares está uma peça verdadeiramente única: a mala de farmácia da família imperial russa Romanov, equipada com alguns dos medicamentos mais caros da sua época, reflexo do estatuto e do poder de uma das dinastias mais marcantes da história europeia. No Museu, recorda-se também que, durante séculos, os barbeiros desempenharam funções médicas, sinalizando os seus serviços com ligaduras à porta, indicando que faziam sangrias e extraíam dentes. Uma bacia de barbeiro para sangrias, datada do século XVII, de Lisboa, é um objeto que convida a imaginar esta «arte», diríamos, um pouco arrepiante.

Entre as curiosidades mais singulares está uma peça verdadeiramente única: a mala de farmácia da família imperial russa Romanov, equipada com alguns dos medicamentos mais caros da sua época […]

A história do próprio museu é, por si só, um exemplo de visão e perseverança. Em 1981, um grupo de farmacêuticos portugueses decidiu que este património não podia perder-se. Através de doações, aquisições em leilões e muita dedicação, começou a formar-se a coleção, impulsionada por Salgueiro Basso, figura determinante neste projeto. O Museu da Farmácia de Lisboa abriu em 1996, na sede da ANF, enquanto o Museu da Farmácia do Porto abriu portas em 2010, na sede norte da associação. O espaço de Lisboa alberga ainda um espólio mais vasto, complementando a experiência iniciada no Porto.
Mais do que um museu, o Museu da Farmácia do Porto é uma viagem pela história da humanidade, contada através da ciência, da crença, da arte e da constante reinvenção do saber. Um lugar onde se percebe que, apesar das diferenças culturais e temporais, a busca pela cura sempre foi — e continua a ser — uma das mais profundas expressões do que significa ser humano. Um espaço incrível, que a Villas&Golfe convida a conhecer.

Mais do que um museu, o Museu da Farmácia do Porto é uma viagem pela história da humanidade […].


Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira

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