Jorge Santana da Silva, Arquiteto e CEO da GolfDesign.pt - «Mais do que deixar um conjunto de campos, gostaria de deixar uma forma de pensar a arquitetura de golfe […]»
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Com quase quatro décadas dedicadas à arquitetura de campos de golfe, Jorge Santana da Silva é um nome incontornável na área, sendo autor de alguns dos percursos de golfe mais emblemáticos em Portugal e no estrangeiro. Nesta entrevista à Villas&Golfe, reflete sobre o percurso que o levou da topografia ao golfe, a influência de mestres como Robert Trent Jones Sr. e Cabell Robinson, a evolução do setor e a importância de uma arquitetura que respeite a paisagem e a identidade de cada lugar.
A sua formação é em topografia e engenharia geométrica. Como nasceu a paixão pela arquitetura de campos de golfe e o que o levou a criar a Golf Design?
Comecei a jogar golfe ainda na juventude, quase por acaso, em Troia, durante a fase final da construção do campo. Mais tarde, na Madeira, tive a oportunidade de continuar a praticar no Campo de Golfe do Santo da Serra. Quando a empresa para a qual trabalhava ficou responsável pelas primeiras terraplenagens e modelações do terreno, fui nomeado diretor da obra. Foi aí que nasceu verdadeiramente a minha paixão pela arquitetura de campos de golfe. Fiquei fascinado pela capacidade de modelar e valorizar a paisagem, criando um território destinado ao jogo que simultaneamente se afirmava como uma obra de arte integrada na natureza.

JORGE SANTANA DA SILVA COM ROBERT TRENT JONES
Trabalhou com nomes como Robert Trent Jones Sr. e Cabell Robinson. Que ensinamentos desses mestres continuam presentes no seu trabalho?
Mr. Jones era um homem verdadeiramente especial. Acompanhei projetos com ele na Europa, no Norte de África e nos Estados Unidos. Os seus campos procuravam criar uma primeira impressão poderosa, mas raramente eram excessivamente penalizantes, oferecendo opções estratégicas alternativas. Como gostava de dizer: «Hard par, easy bogey». Se Robert Trent Jones Sr. foi uma referência incontornável, Cabell Robinson foi efetivamente o meu mentor. Ao seu lado desenvolvi competências de desenho, planeamento e acompanhamento de obras de campos de golfe. Quando decidiu criar o seu próprio gabinete, escolheu-me para o acompanhar. Durante cerca de cinco anos partilhámos responsabilidades no atelier e no terreno, numa experiência determinante para a minha carreira. Homem carismático, sereno e generoso, ensinou-me muito e ajudou-me a crescer profissionalmente. Mantemos até hoje uma profunda amizade. Do ponto de vista técnico, ensinou-me a ser mais audaz na conceção.

JORGE SANTANA DA SILVA COM DAVID FROST
Ao longo de mais de 40 anos de carreira, assistiu à transformação do golfe português. O que mudou mais?
Nas últimas quatro décadas assistimos a uma transformação extraordinária. Portugal passou a dispor de alguns dos melhores campos da Europa. O Algarve afirmou-se como um dos principais destinos de golfe do mundo e surgiram projetos de excelência noutras regiões. Mudou também a forma de projetar e construir campos, assim como o próprio jogador. Mas, para mim, a maior transformação foi o reconhecimento do golfe como um ativo estratégico para o turismo nacional, pelo seu contributo para a economia, valorização imobiliária e promoção internacional de Portugal.
Quando visita um terreno pela primeira vez, o que procura? O que lhe indica que ali pode nascer um grande campo de golfe?
A minha formação em topografia permite-me visualizar rapidamente o potencial de um território. Se o terreno é fundamental, o promotor surge logo a seguir. Uma boa ideia necessita de visão, compromisso e capacidade de investimento. Os melhores terrenos apresentam uma topografia equilibrada, qualidade paisagística e riqueza ambiental. Em última análise, a beleza original do terreno é sempre a maior oferta que a natureza pode fazer a um arquiteto de campos de golfe.
Defende uma arquitetura que respeita a paisagem e o ambiente. Até que ponto a natureza deve condicionar o desenho de um campo?
Os elementos naturais existentes tornam-se os verdadeiros marcos identitários de um campo de golfe. Ao longo da carreira procurei preservar a paisagem e os valores naturais, integrando a vegetação existente no desenho dos campos e identificando elementos que considerava importantes preservar. Muitas vezes percorri os terrenos identificando e marcando individualmente árvores e outros elementos naturais que considerava importantes preservar. A construção de um campo de golfe é uma intervenção artificial no território, mas isso não significa ignorar ou descaracterizar o local. Não me revejo totalmente em abordagens que recriam artificialmente determinados estilos de golfe através de desmatações extensivas ou profundas transformações da paisagem original. Reconheço o mérito técnico desses projetos, mas considero que cada terreno deve ser respeitado na sua identidade. Os campos mais marcantes são aqueles em que cada buraco tem personalidade própria e em que a natureza participa ativamente na construção dessa memória.
Entre os muitos campos que desenhou, que projeto mais o marcou?
Sem dúvida, o Mangais Golf Resort, na barra do rio Kwanza, em Angola. Foi o empreendimento onde tive maior liberdade para criar um campo de golfe e desenvolver um masterplan integrado. O local possui uma riqueza paisagística extraordinária e uma diversidade rara. Foi também, provavelmente, o projeto mais difícil da minha vida profissional. A distância, a complexidade logística e a escassez de investimento tornaram o acompanhamento da obra extremamente exigente. Viajei mais de cinquenta vezes para Angola por causa deste empreendimento. Apesar das dificuldades, foi uma experiência profundamente gratificante. Um estudo recente identificou mais de 150 espécies de aves no local, demonstrando como um campo de golfe, quando corretamente integrado no meio envolvente, pode contribuir para a preservação da biodiversidade. A presença permanente de crocodilos nos lagos testemunha igualmente a riqueza ecológica do habitat.
Define-se como um tradicionalista. Como encara hoje a arquitetura de campos de golfe numa era de modelação 3D e inteligência artificial?
Sendo de uma geração que ainda se adapta, com alguma dificuldade, às atuais tecnologias, reconheço que estes instrumentos se tornaram fundamentais. Tenho a sorte de contar, há muitos anos, com um sócio mais jovem, Alexandre Ribeiro, que domina estas ferramentas. No entanto, continuo a valorizar a presença no terreno durante a construção. Muitos colegas apoiam-se excessivamente no trabalho de atelier ou delegam grande parte da criatividade em experientes shapers, que, apesar do seu valor, necessitam sempre da visão do arquiteto. Na minha opinião, o 3D e a IA dificilmente conseguirão apreciar e conjugar todos os ingredientes que contribuem para um bom projeto de golfe.
«Os campos mais marcantes são aqueles em que cada buraco tem personalidade própria e em que a natureza participa ativamente na construção dessa memória.»
Como imagina os campos de golfe daqui a 20 ou 30 anos?
Vejo mais campos curtos, de 9 ou 12 buracos, mais contidos nos custos, na ocupação e no tempo de utilização. Serão necessárias mais academias e campos municipais. Nos campos de dimensão tradicional haverá mais projetos de renovação e restauro do que novas construções. As exigências ambientais terão um peso crescente nos licenciamentos. Ainda assim, continuarão a surgir novos projetos ligados ao desenvolvimento turístico e imobiliário.
Considera-se um bom jogador de golfe?
Nunca me considerei um grande jogador, nem tive essa preocupação. Sempre dediquei mais tempo a desenhar campos do que a aperfeiçoar o meu jogo. Entre os 30 e os 40 anos cheguei a atingir um handicap ligeiramente abaixo de 8, o que me permitia desfrutar plenamente do jogo. Participei em torneios, mas muitas vezes preferia percorrer o campo sozinho. Eu e o campo. Sem pretensões.
Depois de quase 200 projetos, há ainda algum sonho profissional por concretizar ou área que gostaria de explorar? Algum projeto em mãos que queira destacar?
Se considerarmos todos os trabalhos em que participei, o número de projetos poderá aproximar-se dos duzentos. Entre os que assinei, guardo um carinho especial pelo Laranjal, Pinheirinho, Ombria e Os Mangais. Cada um representa momentos distintos da minha carreira. Continuo a ter o mesmo sonho de quando comecei: voltar a criar novos campos de golfe de raiz. Tenho também um interesse especial pela remodelação de campos existentes, adaptando-os às exigências atuais do jogo, da manutenção e da sustentabilidade. Talvez o meu maior objetivo nesta fase seja garantir a continuidade da GolfDesign.pt. Mais do que deixar um conjunto de campos, gostaria de deixar uma forma de pensar a arquitetura de golfe: respeitadora da paisagem, integrada na natureza e focada na criação de experiências memoráveis para os jogadores.

CONSTRUÇÃO VALE PISÃO
Como gostaria que o seu contributo para o golfe português e internacional fosse recordado?
Ao longo da minha carreira encontrei muitas vezes pessoas surpreendidas ao saber que determinados campos foram desenhados por um português. Desde os tempos em que trabalhei com Robert Trent Jones Sr. e Cabell Robinson, habituei-me a colaborar em projetos difíceis, onde era necessário encontrar soluções criativas para ultrapassar condicionantes. Essa realidade moldou a minha forma de pensar a arquitetura de golfe.
Sinto-me privilegiado por saber que parte da minha passagem por este mundo ficará registada nesses lugares. Os campos de golfe são obras vivas, que permanecem durante décadas e são desfrutadas por milhares de pessoas. Saber que a minha pegada no território continuará a ser vivida e apreciada por outros é uma enorme fonte de satisfação.
Texto: Carla Martins
Fotos: Direitos Reservados