Adelino Leite Moreira, Cirurgião Cardíaco nos Hospitais CUF Porto e CUF Coimbra «[…] nesta especialidade a fronteira entre a vida e a morte é estreita, não há margem para erro.»
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Entre a precisão da ciência e a urgência da vida, Adelino Leite Moreira, Cirurgião Cardíaco nos Hospitais CUF Porto e CUF Coimbra, Diretor de Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do Centro Hospitalar e Universitário do São João e Professor Catedrático na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, construiu um percurso onde o rigor académico se cruza com a prática clínica de excelência. Numa conversa com a Villas&Golfe, falou de conhecimento, inovação e visão humana sobre a medicina, particularmente numa especialidade onde coração e pulmões têm importância vital.
O seu percurso na medicina levou-o a uma área particularmente exigente e vital. O que o motivou a escolher a cirurgia cardiotorácica?
Sempre fui uma pessoa claramente mais das Ciências do que das Humanidades. Sempre gostei muito de perceber o mecanismo do funcionamento das coisas. Na altura da escolha do curso, dividia-me entre Engenharia e Medicina, mas o peso familiar levou-me para Medicina. Quando entrei para Medicina, percebi a sua dimensão espetacular, numa vertente humana, mas também a possibilidade de lidarmos com mecanismos. […] E eu desejava ter capacidade para contribuir para a descoberta de novos. A maneira como eu vejo a medicina é compreendermos as bases, os mecanismos, e construirmos a partir disso. A parte cardíaca corresponde a isso de uma forma impressionante, porque o coração é como um motor, inclusivamente tem uma parte elétrica e uma parte mecânica. Ao longo do meu percurso académico, em determinado momento, fui também convidado para ter atividade académica ligada à Fisiologia e à Cirurgia Cardiovascular, que desenvolvo até hoje. […] Acho que a atividade clínica e académica se complementam e já orientei mais de 60 Doutoramentos. Ao longo da minha carreira já publiquei mais de 500 artigos científicos, alguns deles altamente citados e com relevância e muitos deles desenvolvendo conceitos com aplicação prática e que objetivamente ajudam os doentes.
«A maneira como eu vejo a medicina é compreendermos as bases, os mecanismos, e construirmos a partir disso.»
Da sua experiência, quais são os principais fatores modernos que mais comprometem a saúde cardiovascular?
Há uma parte que não conseguimos controlar que é o envelhecimento e a genética. Mas o modo de vida atual contribui para um aumento do risco e da incidência de doenças cardiovasculares. A falta de exercício físico, o sedentarismo, o stress, o tabagismo, a obesidade e a hipertensão alterial são os principais fatores, alguns deles ligados a um distúrbio do nosso metabolismo que envolvem a diabetes. Estes são os inimigos que fazem com que, apesar dos inúmeros avanços tecnólogicos e de haver menos gente a morrer de doenças cardiovasculares, esta continue a ser a principal causa de morte e de incapacidade nos países desenvolvidos. Há um cenário preocupante para o futuro, porque face ao aumento da incidência de distúrbios metabólicos como a obesidade, a diabetes e sedentarismo, existe o risco de, pela primeira vez na história da humanidade, a próxima geração viver menos do que a geração que a antecedeu.
Que caminhos mais promissores estão hoje a ser explorados na área cardiovascular e que avanços tecnológicos e científicos surgiram na última década?
Existem atualmente métodos que nos ajudam a tratar as doenças mais cedo e de forma mais eficaz, novos fármacos, nomeadamente para a diabetes e para a obesidade, que ajudam a tratar a saúde cardiovascular, e toda uma panóplia de inovação tecnológica que nos permite tratar doentes mais complexos, mais idosos e mais frágeis, com abordagens progressivamente menos invasivas, nomeadamente em cirurgia cardíaca. Penso que a Inteligência Artificial também terá um papel importante no futuro, sobretudo no diagnóstico precoce das patologias e na orientação do gesto médico, mas creio que na cirurgia cardíaca, pela sua complexidade, será das áreas onde chegará mais tarde.

Que práticas diárias considera verdadeiramente determinantes para proteger o coração e os pulmões a longo prazo?
Praticar atividade física saudável, o que não significa fazer um exercício extenuante, mas mantermo-nos ativos. Ter uma alimentação saudável, diminuir a ingestão de sal, de açúcares simples, de gorduras de origem animal, diminuir o consumo de carnes vermelhas e optar por hidratos complexos.
«Acho que a atividade clínica e académica se complementam […]»
O que representa, para si, viver com qualidade?
Para mim, desde logo, é termos tempo para refletir, fazermos o que gostamos e cuidarmos de nós. A qualidade de vida não se pode dissociar da saúde. A parte social também é muito importante, o convívio, o tempo para os nossos. O conforto financeiro, porque a pobreza extrema não dá saúde nem felicidade.
Que hábitos pessoais não abdica de cumprir?
Procuro ter cuidado com a alimentação. Não faço a atividade física que gostaria de fazer, mas a profissão como cirurgião cardíaco e académico é algo que gosto muito e me motiva. Procuro entregar-me todos os dias com paixão àquilo que gosto. E quando não tenho tempo para fazer exercício opto por pequenos hábitos, como por exemplo, utilizar as escadas e não o elevador.
Ao longo da sua carreira, o contacto diário com a fragilidade humana alterou a forma como olha para o tempo e para as prioridades da vida?
Sem qualquer dúvida. Enquanto profissional, eu próprio tive níveis de stress crescentes ao longo do tempo, mas hoje não deixo que os problemas e desafios do dia a dia tenham o mesmo impacto na minha vida. Há uma máxima que uso e partilho com os doentes: um problema só é um problema até aparecer outro maior. Quando um doente vem ter comigo eu procuro dizer-lhe exatamente isso, que pior do que ele ter uma doença grave, é ter uma doença que não tem tratamento. Uma cirurgia não é uma fatalidade, não é um modo de morte, é um modo de vida, feito cada vez com mais segurança. É evidente que ainda há doenças que não têm solução. O facto de lidar todos os dias com situações complexas traz-me algum stress, sem qualquer dúvida. Mas o tempo ajuda-nos a aprender a gerir, a relativizar. O planeamento também é muito importante, esperar o melhor mas preparar-me para o pior. Como digo aos meus doentes, tenho um plano b, um plano c … Muitas vezes, deito-me a pensar na minha estratégia. Mas nesta especialidade a fronteira entre a vida e a morte é estreita, não há margem para erro.

Houve algum caso clínico que o tenha marcado particularmente?
Vários. Nesta área vemos muito rapidamente o resultado daquilo que fazemos, o sucesso ou o insucesso. Todos podemos ter insucessos, mas eu posso dizer que aqui na CUF, 30% dos doentes que operei foram rejeitados noutras instituições, públicas e privadas, pela sua complexidade. Dou-lhe o exemplo de uma filha que me veio apresentar o caso do pai desesperada, porque o pai já tinha sido recusado para cirurgia noutras instituições e estava em cuidados paliativos em estado quase terminal. Eu avaliei a situação, o doente foi cá internado equilibrado, otimizado para a cirurgia cardíaca, tendo felizmente sobrevivido e melhorado significativamente. Era uma situação até do ponto de vista social um bocadinho frágil, não tinham subsistema de saúde, tinham um budget limitado, e ele teve alta pouco tempo antes de se esgotar o budget. Enquanto médicos, transportamos connosco tudo isto. Outro caso, o de uma senhora que andou anos “a fugir” dos médicos, depois andaram os médicos “a fugir” dela, depois encontrou um colega que a dirigiu para mim. Colapsou no meu consultório com um edema agudo de pulmão. Tinha sido considerada inoperável, foi do meu consultório na CUF para os cuidados intensivos, de onde não saiu antes da operação. Não consegui sequer extubá-la. Foi operada, evoluiu, foi referenciada no cardiologista assistente, e está neste momento a viajar pelo mundo e a desfrutar da vida. Para lhe ser sincero, nunca tive neste hospital nenhum doente que falecesse na mesa de operações.
«Uma cirurgia não é uma fatalidade, não é um modo de morte, é um modo de vida, feito cada vez com mais segurança.»
Há hoje uma inegável vontade de alcançar a longevidade. Se pudesse deixar uma única recomendação para quem ambiciona uma vida longa e com qualidade, qual seria?
O envelhecimento ativo e saudável pode ser um desafio para a Europa Ocidental, que tem um envelhecimento mais alto da população. Não falo em termos de idade de reforma, porque isso é uma situação de natureza política, mas o que quero dizer é que a reforma não deve significar inatividade. E o grande desafio da sociedade deve ser saber aproveitar estas pessoas, que muitas vezes estão fantásticas, têm um saber acumulado muito importante, que pode ser útil para a sociedade e para elas próprias. Devem fazer algo que lhes dê gosto, criar interesses que os mantenham ativos e não ceder ao isolamento social.
Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira