Elsa Logarinho, Cientista do i3S - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde «É possível que, dentro de uma década, existam vacinas antienvelhecimento.»
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Elsa Logarinho, Bioquímica e Cientista Investigadora do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, lidera em Portugal um projeto internacional financiado com três milhões de euros pelo Conselho Europeu de Investigação para estudar os mecanismos moleculares do envelhecimento. À Villas&Golfe, explica como o trabalho da sua equipa pode abrir caminho a novas terapias e possíveis medidas profiláticas, numa conversa sobre ciência, longevidade e os limites do que ainda é possível alcançar.
Fale-nos um pouco sobre o seu percurso profissional e académico. O que a trouxe à ciência?
Sou licenciada em Bioquímica pela Universidade do Porto e escolhi este curso porque já tinha a ideia de que queria fazer investigação, estudar as biomoléculas do nosso organismo. Tinha a paixão pelos ácidos nucleicos, pelo DNA, pela informação genética. Fui fazendo o meu percurso naturalmente, nada foi planeado. Na altura do meu projeto de curso, juntei-me ao antigo Centro de Citologia Experimental, na Universidade do Porto, e aí trabalhei a drosophila melanogaster, a mosquinha do vinagre. Seguiu-se um Doutoramento na mesma área, depois sete anos na academia. Nunca deixei verdadeiramente a ciência, mas a carreira docente em Portugal é uma exigência a tempo integral, ao contrário de outros países. Estar no ensino foi uma experiência muito boa mas quis voltar à investigação a tempo inteiro. Entretanto, fiz um Pós-Doutoramento e em 2015 iniciei o meu grupo de trabalho e decidi dedicar-me a uma área completamente diferente, o estudo do envelhecimento. Comecei no antigo Instituto de Biologia Molecular e Celular, que posteriormente se mudou para o edifício onde hoje é o i3S. Neste momento sou Diretora de Grupo e Investigadora Principal.

Em 2025, conquistou uma bolsa de três milhões de euros do Conselho Europeu de Investigação para estudar o envelhecimento, no âmbito do projeto científico internacional CenAGE, que lidera no nosso país. O que é que isto significou para si e o que é que realmente significa para Portugal?
As bolsas do Conselho Europeu de Investigação são extremamente competitivas e prestigiadas, destinadas a projetos disruptivos — ideias originais e questões que poucos colocariam. Este financiamento apoia investigação básica, neste caso sobre o envelhecimento, que muitas vezes as pessoas associam a uma vertente estética, mas o que realmente estudamos é o conjunto de processos moleculares que determinam a velocidade a que envelhecemos. Trata-se de uma bolsa de sinergia, ou seja, uma candidatura conjunta de investigadores cuja ideia só pode ser concretizada pela combinação das suas expertises. No nosso ano houve mais de 700 candidaturas, com várias fases de seleção, pelo que esta conquista — partilhada com dois investigadores do Institute Curie, em França — foi enorme e exigiu muito trabalho. Para mim, este financiamento é particularmente relevante, tendo em conta o contexto da ciência em Portugal, marcado por baixo investimento, reduzidas taxas de aprovação e projetos de pequena dimensão. Fazer investigação competitiva em Portugal é como fazer omeletes sem ovos. Este apoio vai permitir acesso a metodologias avançadas, expandir a equipa e recrutar recursos humanos mais especializados, capazes de desenvolver o projeto ao mais alto nível.
«[…] Este financiamento é particularmente relevante, tendo em conta o contexto da ciência em Portugal, marcado por baixo investimento […].»
Qual o grande objetivo deste projeto e desta bolsa de investigação? O que tem sido desenvolvido desde então?
O foco deste estudo é o nosso genoma, ou seja, o nosso DNA. Hoje já é possível sequenciar o nosso genoma, mas há umas pequenas regiões que permaneciam desconhecidas, que nunca foi possível sequenciar nem perceber o que eram, os centrómeros. São zonas muito importantes porque são particularmente instáveis, são sujeitas a mutação, a alterações no número de sequências repetitivas. Têm também imenso controlo epigenético, que está relacionado com a forma como são modeladas as respostas a qualquer tipo de stress. Com novas metodologias de sequenciação, às quais podemos ter acesso com este financiamento, conseguimos mapear devidamente estas regiões, caraterizá-las e ver como se alteram com a idade. Para isso, vamos focar-nos nas células do sistema imunitário, porque já recolhemos algumas evidências de que este DNA é particularmente alterado nas células do sistema imunitário. Os vírus gostam particularmente de alterar estas regiões, o que significa que durante a nossa vida, sempre que nos vamos infetando, esses vírus vão deixando cicatrizes em diferentes regiões do nosso genoma.

Assim sendo, que relação tem o sistema imunitário com o envelhecimento?
Sabemos hoje que o envelhecimento do sistema imunitário e as alterações no DNA das células imunes têm grande impacto na velocidade do envelhecimento. Com a idade, estas células perdem número e eficácia. Observámos que os centrómeros estão alterados ao longo deste processo, podendo ser uma das causas dessas mudanças. Ao mesmo tempo que perdemos células imunes que combatem infeções, aumenta um tipo de células pró-inflamatórias, gerando um estado de inflamação crónica associado à idade — o inflamaging. Há um desequilíbrio: diminuem as células de defesa e aumentam as inflamatórias, o que também está ligado à autoimunidade. Como estas células circulam por todo o organismo, acabam por enviar sinais que afetam outros tecidos, contribuindo para o envelhecimento dos órgãos. Para cuidar do sistema imunitário, ajudam a restrição calórica, o sono adequado e o exercício físico. O jejum, por exemplo, promove um “reset” celular, ativando a autofagia, processo em que a célula recicla detritos para gerar novos componentes. Nos últimos anos, a investigação do envelhecimento tem avançado muito na área do sistema imunitário. Perspetiva-se o desenvolvimento de abordagens inovadoras, como vacinas que possam atrasar o envelhecimento, muitas baseadas na inibição de moléculas inflamatórias. É possível que, dentro de uma década, existam vacinas antienvelhecimento.
«O envelhecimento pode ser atrasado, mas revertê-lo é outra questão.»
O que é que isto pode significar se o projeto for bem sucedido?
A abordagem deste projeto é diferenciadora, focando-se numa região específica do genoma até agora pouco explorada. Vamos esclarecer o papel do DNA repetitivo no envelhecimento celular, demonstrar a sua importância na regulação do sistema imunitário e realizar validação pré-clínica para avaliar se a modulação destas regiões pode atrasar o envelhecimento em modelos animais. Este é o plano para seis anos de trabalho. Acima de tudo, pretendemos gerar conhecimento que possa ser traduzido em novas aplicações, terapias e possíveis medidas profiláticas.
O envelhecimento é uniforme em todo o corpo?
Ao que parece, não. Atualmente, já conseguimos medir a idade biológica através de vários métodos, o que permite avaliar a trajetória de vida e o risco de comorbilidades associadas ao envelhecimento. Estas medições incluem relógios epigenéticos, baseados no DNA, e outros assentes em indicadores bioquímicos. Os estudos mostram que os órgãos que mais contribuem para uma longevidade saudável são o cérebro e os associados ao sistema imunitário. Pessoas com idade biológica mais baixa nestes órgãos, mesmo que menos favorável noutros, tendem a apresentar uma longevidade mais saudável.
Podemos concluir que é certo que poderemos atrasar o envelhecimento? E reverter?
O envelhecimento pode ser atrasado, mas revertê-lo é outra questão. Tem sido difícil provar essa reversão: mesmo quando conseguimos abrandar o processo, a idade biológica tende a estabilizar no ponto em que o tratamento começa, sem realmente diminuir. Para atrasar o envelhecimento, atuamos na epigenética; revertê-lo implicaria intervir na genética, um domínio complexo que levanta questões profundas sobre a própria espécie humana. Ainda assim, há exemplos de envelhecimento programado, como a menopausa ou a evolução do timo, que poderiam servir como referência para uma verdadeira reversão. Hoje, o foco está na longevidade saudável, não na longevidade máxima. Não defendo o transumanismo; o objetivo é viver melhor, não necessariamente mais tempo. Já é claro que conseguimos atrasar o envelhecimento, mas ainda não existe medicina anti-envelhecimento propriamente dita: não está protocolada nem há especialização médica formal nesta área. O envelhecimento deve ser reconhecido como uma condição médica, passível de diagnóstico e monitorização. Atualmente, porém, tudo ainda decorre sem diretrizes claras.
«O envelhecimento deve ser reconhecido como uma condição médica, passível de diagnóstico e monitorização.»
De que forma tenta atrasar o seu próprio envelhecimento? Quais são os seus hábitos nesse sentido?
Tenho alguns cuidados, sobretudo na alimentação: evito alimentos processados e privilegio uma dieta variada à base de produtos frescos. Não faço grande restrição calórica… embora devesse. Nesta fase, admito que nem sempre consigo manter bons hábitos de sono. Tenho também atenção ao sol. É saudável, mas em excesso pode causar mutações no DNA, já que a pele — o nosso maior órgão — comunica com todo o organismo. Meia hora por dia é suficiente para obter a vitamina D necessária.
Enquanto cientista, que legado gostaria de deixar? Qual o seu maior sonho?
Não sonho com prémios Nobel nem coisas assim, mas gostaria de deixar uma escola. Digo muitas vezes à minha equipa: continuem a fazer novas perguntas — esse é o método científico. Quero que as nossas descobertas gerem mais conhecimento e contribuam para novas terapias. Faço também muita comunicação de ciência, procurando criar engagement nestas áreas. Por fim, gostaria de ver surgir uma medicina da longevidade devidamente protocolada.
«Quero que as nossas descobertas gerem mais conhecimento e contribuam para novas terapias. »
Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira