Francisco Gonçalves, Enólogo na FGWines: «[…] Trás-os-Montes é um território extraordinário e extremamente apelativo.»
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Durante décadas, Trás-os-Montes viveu discretamente à margem das grandes rotas vínicas nacionais. Hoje, afirma-se como um dos territórios mais autênticos e promissores do panorama vitivinícola português, onde a altitude, os solos graníticos, as vinhas velhas e uma extraordinária diversidade de castas dão origem a vinhos de identidade singular. Numa conversa rica, falamos com Francisco Gonçalves, Enólogo da FGWines e confundador da Moont’alegre Vinhos, que partilhou com a Villas&Golfe a sua visão sobre o potencial de Trás-os-Montes a e forma como este território se revela em cada copo de vinho.
Fale-nos um pouco sobre este gosto pelo mundo dos vinhos que o levou à via profissional. Como começou esta trajetória?
Não sei se posso considerar isto algo hereditário ou não, mas os meus avós paternos já tinham vinha. Não sei se esse gosto veio no sangue e me levou efetivamente a enveredar pelo mundo do vinho. Mas foi algo que eu sempre quis, trabalhar com alguma coisa ligada à agricultura, à natureza. Na altura em que estudava, o curso de Enologia despertou-me muita atenção e acabei por me apaixonar por esta área. O mundo do vinho é extremamente cativante para mim, o facto de todos os anos haver um ciclo novo... Profissionalmente, comecei por estar ligado a um grupo muito grande de vinho do Porto e depois decidi criar um negócio próprio.

Montalegre não é a primeira região que a maioria das pessoas associa a vinho. O que torna este território tão especial do ponto de vista vitivinícola?
Montalegre sempre foi uma zona muito fria, uma zona de muita altitude. Contudo, com as alterações climáticas, tem-se proporcionado que esta cultura também se possa desenvolver aqui. Posso dizer que eu e o meu irmão fomos muito audazes quando decidimos fazer aqui a vinha mais alta de Portugal. As condições que temos em Montalegre criam, por si só, as caraterísticas diferenciadoras do vinho da região. O facto de estarmos a mil metros de altitude vai fazer com que o estágio do vinho lhe confira, obrigatoriamente, essas caraterísticas. Isso também tem a ver com as temperaturas, com a pressão atmosférica, com a oxigenação, pequenos pormenores mas que fazem essa diferenciação. Portanto, a partir de vinhas de altitude da região, trazemos as uvas e fazemos todo o processo e estágio do vinho em Montalegre a mil metros. Isso cria vinhos bastante diferenciadores.
«As condições que temos em Montalegre criam, por si só, as caraterísticas diferenciadoras do vinho da região.»
Onde se traduz essa diferença, motivada pelo clima e pela altitude, no perfil e na qualidade dos vinhos desta região?
O que sentimos quando provamos o vinho desta região está relacionado com a altitude das vinhas e com alguns terroirs que nós selecionamos. A fração aromática dos vinhos, de alguma forma, permanece mais tempo, porque, efetivamente, o facto de a oxigenação ser menor, as próprias temperaturas existentes, a estabilidade natural que os vinhos têm por causa do frio, tornam-nos especiais. Tudo isso faz com que os vinhos, no seu palato, o transmitam. São vinhos, de alguma forma, com mais densidade, vinhos aromaticamente intensos, e portanto, tudo isso faz com que efetivamente se tornem vinhos diferentes.
« [Trás-os-Montes tem] uma quantidade extraordinária de vinha velha, que é um património incrível, um património vitícola que nós temos que preservar […]»
Quando se fala em terroir, fala-se muito do solo, mas também da paisagem envolvente. Que papel desempenham elementos como o granito, o musgo, os bosques e a biodiversidade na personalidade destes vinhos?
O factor influenciador é, sobretudo, o facto de os solos serem graníticos. O facto de algumas vinhas virem de zonas com mais porosidade, outras com uma maior amplitude térmica, faz com que efetivamente essa diversidade se torne tão interessante, tão diferente. Também nesse sentido, Trás-os-Montes é um território extraordinário e extremamente apelativo.
Que características encontra num vinho de Montalegre que dificilmente conseguiria reproduzir noutra região de Portugal?
Acima de tudo, há um conjunto de características que resultam de escolhas que nós vamos fazendo e vamos acoplando de forma a conseguir que o produto final seja diferente. Os nossos vinhos brancos têm uma frescura, uma mineralidade muito presente, que tem a ver efetivamente com este terroir, com o facto de os solos serem graníticos, com a altitude. No caso do nosso projeto em concreto, todas as vinhas que o compõe estão entre os seiscentos e os oitocentos metros de altitude. Tudo isso faz com que efetivamente os vinhos, tenham essas características. Para além do estágio fazer com que efetivamente consigamos amplificar ainda mais esta a sensação de frescura e todo o lado aromático que o vinho tem. No caso dos tintos, conseguimos obter vinhos leves e frescos, não queremos concentração nem aquela potência nos vinhos que muitas vezes nos cansam. Queremos vinhos leves, frescos mas estruturados, vinhos gastronómicos, ou seja, vinhos que nos dão prazer quando bebemos.
« Os nossos vinhos brancos têm uma frescura, uma mineralidade muito presente, que tem a ver efetivamente […]com o facto de os solos serem graníticos […]
Durante muitos anos, Trás-os-Montes viveu um pouco à margem das grandes rotas vínicas nacionais. Considera que essa menor exposição acabou por preservar uma autenticidade que hoje representa uma mais-valia?
Eu acho que sim. Digo isto de uma forma muito pessoal. Eu estive sempre ligado à região do Douro, enquanto técnico trabalhei lá durante quinze anos. Quando decidi criar o meu projeto pessoal, juntamente com o meu irmão, foi efetivamente em Trás-os-Montes e teve a ver com isso, porque aqui ainda restava autenticidade, diferenciação. E este território, que tem um potencial extraordinário, consegue reunir isso. Conseguimos ter um produto autêntico, diferente. Acho que temos um longo caminho a percorrer, mas podemos, de alguma forma, se soubermos, preservar isto e chegar a uma ascensão.

Que castas ou estilos de vinho melhor expressam a identidade deste território e porquê?
Digamos que a região de Trás os Montes se foi mantendo um pouco para trás porque tínhamos o Douro ao lado com uma pujança comercial muito grande, e obviamente as pessoas tinham a sua atenção virada para o Douro. Hoje olha-se para Trás-os-Montes como um cantinho por descobrir, portanto, tem um potencial muito grande. Isso originou que se mantivesse ainda, por exemplo, uma quantidade extraordinária de vinha velha, que é um património incrível, um património vitícola que nós temos que preservar, porque é aquilo que outras regiões, como por exemplo o Alentejo, não têm com esta dimensão e com esta autenticidade. Aquilo que nós preservamos acima de tudo é esta vinha velha, que tem muitas castas espalhadas e onde numa parcela podem existir 15 a 20 variedades diferentes. Isso é que faz a região apelativa mas que faz o país também, faz com que efetivamente o país também se torne diferente do resto do mundo por essa diversidade vitícola. Paralelamente, à parte das vinhas velhas, temos castas muito presentes na região, como a tinta amarela, como o bastardo. São castas que estão muito na região e nas quais aposto, porque, para além de se darem perfeitamente bem no território, fazem vinhos maravilhosos.
A marca Moont'alegre Vinhos nasceu da vontade de valorizar um território muito particular. Qual foi a visão que esteve na origem deste projeto e que identidade pretende afirmar através dos vinhos que produz?
Nós somos o único projeto existente em Montalegre. A ideia foi trazermos para cá algo que não existia e que era aparantemente impossível concretizar. Quer a mim quer ao meu irmão nos chamam, muitas vezes, de loucos, devido àquilo que estamos a fazer. Mas a resiliência e persistência caraterística das gentes de Trás-os-Montes foi o foco no caminho que queríamos, e fez com que efetivamente chegássemos hoje a uma marca que já está espalhada pelo mundo. Exportamos para vários países, já fomos nomeados entre os 100 melhores vinhos do mundo por um dos maiores opinion makers mundiais, e portanto, estamos a tentar levar a região, os vinhos da região e acima de tudo o nome Montalegre para o mundo. Isto foi algo que dois filhos da terra, de alguma forma quiseram fazer pela terra, valorizar um bocadinho o interior e depois comunicá-lo de uma forma diferente e a partir de um produto que, à mesa, nos transporta para estas regiões, estas identidades.

FRANCISCO GONÇALVES COM O IRMÃO, PAULO GONÇALVES, AMBOS FUNDADORES DA MOONT’ALEGRE VINHOS
Se tivesse de convidar os leitores da Villas&Golfe a descobrir Montalegre através de um copo de vinho, como descreveria a essência deste território em poucas palavras?
O caráter e a autenticidade que os vinhos de Montalegre têm transmitem muito daquilo que é a própria região. Até mesmo o caráter da resiliência, porque isto é realmente algo que nos tira muito do corpo, que nos exige muito. E, portanto, tudo isso é transmitido no copo do vinho quando se prova e se percebe que são vinhos que têm caráter, que têm muita personalidade, que são audazes.
Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira