Luís Onofre – «As minhas raízes são tudo.»

Luís Onofre – «As minhas raízes são tudo.»

Já calçou nomes como Michelle Obama, a Rainha Letícia ou Paris Hilton, mas diz que o que o move verdadeiramente é «a ideia de calçar mulheres com histórias». Na sua, traz a herança do avô, que numa pequena lambretta distribuía os sapatos que criava pelos clientes dos arredores. Luís Onofre é nome ilustre no panorama nacional e internacional do calçado de luxo e esteve à conversa com a Villas&Golfe.

 

Ainda se lembra do primeiro sapato que criou? Como era? 
Sim, lembro-me perfeitamente. Foi um modelo feminino muito colorido, de salto alto, de linhas clássicas, mas já com o toque de sofisticação que sempre procurei imprimir. Na altura, eu queria criar algo que respeitasse a tradição familiar, mas com uma linguagem mais contemporânea.

A marca Luís Onofre é um legado com história familiar. Até que ponto as suas raízes moldam hoje o empresário mas também o homem fora do atelier?
As minhas raízes são tudo. Cresci a ver a minha avó e o meu pai a trabalhar no calçado com uma paixão contagiante. Isso ensinou-me desde cedo o valor da dedicação, da exigência e do saber-fazer. Hoje, mesmo nas decisões mais estratégicas, essas lições estão presentes.

Neste percurso, houve alguma dificuldade ou acontecimento que sentiu que o tivesse feito sair mais forte, quer do ponto de vista empresarial quer do ponto de vista humano?
Sim, houve vários momentos desafiantes. Alias, trabalhar num sector altamente exportador e numa pequena empresa faz com que os desafios sejam diários. A crise financeira de 2008 foi particularmente difícil, obrigou-nos a repensar a forma como trabalhávamos e nos posicionávamos no mercado internacional e a pandemia foi igualmente marcante. Também a Guerra na Ucrânia tem efeito nos negócios, na medida em que, historicamente, a Rússia era um mercado muito importante. No setor do calçado, fomos superando todas as adversidades. Se há alguma coisa que nos distingue é precisamente a nossa resiliência.

«[] o saber-fazer acumulado é uma competência que não queremos desperdiçar.»

Num setor tão competitivo como a moda, como equilibra o lado criativo com as exigências da indústria, a gestão financeira e a estratégia da marca?
É um equilíbrio que se constrói todos os dias. A criatividade é o coração da marca, mas não sobrevive sem uma estrutura sólida por trás. Aliás, numa empresa já com três gerações como o a minha, o saber-fazer acumulado é uma competência que não queremos desperdiçar. Acredito que a beleza da moda está também em conseguir transformar uma ideia criativa num produto viável, desejado e duradouro.

Já calçou primeiras-damas, artistas e figuras internacionais. Mas há alguém ou algum momento específico que sonha ainda «calçar»?
Mais do que uma figura em particular, o que me move é a ideia de calçar mulheres com histórias. Gosto da elegância que vem da confiança, do poder subtil que um sapato pode transmitir. Já tive o privilégio de calçar mulheres notáveis como a Rainha Letícia ou a Michelle Obama, mas o que me dá maior prazer é mesmo poder empoderar mulheres de todo o mundo. 

O que considera mais desafiante na liderança de equipas criativas: inspirar constantemente ou gerir diferentes personalidades e talentos?
Ambos são desafiantes mas extremamente enriquecedores. Gerir talentos exige sensibilidade e flexibilidade — cada criativo tem o seu ritmo, as suas referências, os seus silêncios. Inspirar é muitas vezes dar espaço para que o outro também traga algo novo. Procuro liderar com escuta ativa, promovendo um ambiente onde todos se sintam parte do processo. A criação é sempre um trabalho de equipa.

«Mais do que uma figura em particular, o que me move é a ideia de calçar mulheres com histórias.»

Qual o hábito ou ritual do seu quotidiano de que nunca abdica, e que acredita ser fundamental para se manter em equilíbrio?
Começar o dia cedo, essencialmente de preferência no mar e a surfar, porque desse modo tenho a tranquilidade necessária para enfrentar um novo dia. Infelizmente, tenho cada vez menos tempo para o fazer…

Que atividade ou gosto que nada tem a ver com a moda renova e inspira o criador Luís Onofre?
O surf, sem dúvida. Depois, viajar, conhecer novas realidades, novos mundos, novas gentes. Face ao ritmo frenético da moda, preciso de encontrar equilíbrio e novas fontes de inspiração. Muitas vezes, uma ideia para um detalhe ou uma silhueta surge precisamente nesses momentos de pausa e contemplação.

Quais são os pequenos prazeres que cultiva no dia a dia, que para si são verdadeiros luxos?
A família e os amigos são o nosso maior luxo. Por isso, um bom vinho à mesa com amigos, tempo com a família, são momentos simples, mas cheios de significado, que procuro não descurar.

Há alguma marca e/ou acessório de que goste particularmente, para além de sapatos? Pode ser de moda, de carros, de relógios…
Sou apaixonado por tudo o que respire design e criatividade.

«Procuro liderar com escuta ativa, promovendo um ambiente onde todos se sintam parte do processo.»

Há algum projeto «fora da caixa» que esteja a desenvolver ou que desejasse desenvolver no futuro?
Sim, estou muito entusiasmado com um projeto que junta duas paixões: o design e o golfe. Estamos a lançar uma linha de sapatos de golfe premium, que combina o conforto técnico exigido por este desporto com o ADN estético da marca Luís Onofre. É um segmento ainda pouco explorado em termos de luxo e sofisticação, e acreditamos que há um espaço muito interessante para crescer aí. O objetivo é trazer elegância para o green, com materiais nobres, tecnologia inovadora e, claro, o nosso cunho artesanal.

 

Texto: Carla Martins
Fotografia: Ana Nogueira

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