Ovídeo Rodrigues, CEO da OR Properties «[…] para construir uma vida de sucesso, não basta construir uma carreira. […]»

Ovídeo Rodrigues, CEO da OR Properties «[…] para construir uma vida de sucesso, não basta construir uma carreira. […]»

Fale-nos um pouco sobre a sua formação, a passagem pelas Forças Armadas e o seu percurso até chegar ao ramo imobiliário.
A minha formação é na área da informática, que levei comigo quando entrei nas Forças Armadas. Essa experiência foi fundamental na minha formação enquanto pessoa: ensinou-me disciplina, responsabilidade, resiliência e, sobretudo, a importância de cumprir objetivos mesmo quando as condições não são as ideais. Quando cheguei ao imobiliário, a realidade era completamente diferente. Não tinha praticamente contactos. Comecei verdadeiramente do zero. Nos primeiros tempos, a minha preocupação era construir uma rede. Foram anos muito difíceis, nos primeiros dois anos praticamente não faturei. Houve períodos em que a realidade financeira era bastante dura, em que a alimentação passava por coisas simples. Mas aquilo que me mantinha ali não era a perspetiva imediata de ganhar dinheiro, era a paixão que estava a desenvolver pelo imobiliário. Continuei. Mais tarde, uma mudança de marca imobiliária foi um ponto de viragem. Comecei a construir uma carteira de clientes e uma rede de contactos e, sobretudo, percebi que tinha encontrado o meu lugar profissionalmente. Foi então que compreendi que o meu caminho não estava no imobiliário generalista, mas no alto valor, no luxo e, mais tarde, no off-market.

 

 

O que trouxe desse período para o homem e empresário que é hoje?
Trouxe muito mais do que disciplina. Trouxe a capacidade de começar do zero sem medo das dificuldades. Quando não existem contactos ou resultados, aprendemos a valorizar cada oportunidade e cada pessoa. Aprendi também que a persistência é, muitas vezes, mais importante do que o talento. Venho de uma família com poucos recursos e, ao entrar no segmento de luxo, tive de aprender um mundo que me era desconhecido: linguagem, comportamento, apresentação, etiqueta e cultura empresarial. Nunca senti que precisava de deixar de ser quem sou, mas percebi que cada mercado tem os seus códigos. Luxo não é simplesmente vestir uma determinada marca: a nossa imagem e comunicação fazem parte da experiência que proporcionamos.

Está no setor imobiliário há mais ou menos quinze anos, e em poucos anos passou de consultor a construir uma marca própria no segmento de luxo. Em que momento percebeu que não queria apenas vender propriedades, mas criar uma identidade?
Foi uma evolução natural. Nos primeiros anos, estava focado em sobreviver, aprender e construir uma carreira. Com o tempo, percebi onde queria estar. Não queria competir apenas pelo número de imóveis ou anúncios, mas construir uma identidade própria. Queria que um proprietário não pensasse apenas numa agência, mas numa empresa capaz de lhe oferecer algo diferente. Foi dessa visão que nasceu a OR Properties: uma marca com critérios, posicionamento e personalidade própria, ligada ao segmento de alto valor, ao luxo e ao off-market.

Qual o modelo de negócio que está por detrás da marca e o que distingue a OR Properties no mercado em que se insere?
O nosso modelo assenta em três pilares: confidencialidade, discrição e relacionamento. Não procuramos trabalhar todos os imóveis ou clientes, mas os certos. A especialização no segmento de alto valor levou-nos naturalmente ao off-market, onde a confiança e a relação assumem uma importância ainda maior. Um imóvel off-market não é apenas uma propriedade não publicada na Internet, mas uma comercialização controlada, através de uma rede de contactos, para chegar ao comprador adequado sem exposição desnecessária. É esta combinação de conhecimento do mercado, rede de contactos, confidencialidade e capacidade de relacionamento que define a nossa proposta de valor.

 

 

A Forbes chamou-lhe “o homem por trás da marca”. Hoje, sente que Ovídeo Rodrigues e OR Properties são duas entidades distintas ou uma é, inevitavelmente, uma extensão da outra?
São duas entidades distintas, mas existe inevitavelmente uma ligação muito forte. A OR Properties tem de ser maior do que o Ovídeo Rodrigues. Uma empresa não pode depender eternamente da personalidade do seu fundador. Mas seria impossível dizer que não existe muito de mim na marca. Os meus valores, exigência, visão do serviço e do off-market estão presentes na OR Properties. O meu objetivo é que, com o tempo, a marca consiga ter uma identidade própria, independentemente da pessoa que está à frente dela.

«Comecei verdadeiramente do zero.»

O que é que um cliente do segmento de luxo procura realmente?
Procura confiança, acesso, segurança e discrição, mas também alguém que compreenda o que pretende sem que tenha de explicar tudo. Não precisa de dezenas de imóveis, mas de uma seleção criteriosa de oportunidades. Muitas vezes falamos de património construído ao longo de uma vida ou de gerações. Por isso, o serviço tem de estar à altura do património que representamos.

«Os meus valores, exigência, visão do serviço e do off-market estão presentes na OR Properties. »

A OR Properties assume o off-market como uma das suas grandes valências e defende a discrição e a confidencialidade. Na sua opinião, porque é que o verdadeiro luxo pode estar precisamente naquilo que não se mostra?
Porque aquilo que é verdadeiramente exclusivo não precisa de estar disponível para todos. Vivemos num mundo marcado pela exposição, mas existem clientes e propriedades para os quais isso não faz sentido. Um proprietário pode querer vender sem que o mercado saiba, tal como um comprador pode procurar uma propriedade sem querer tornar essa intenção pública. O off-market permite criar esse espaço de privacidade e representa, para nós, uma das características do verdadeiro luxo: ter acesso àquilo que não está disponível para todos.

A OR Properties ultrapassou já os 100 milhões de euros em volume de negócios, tem centenas de imóveis transacionados e soma dezenas de reconhecimentos. Quando olha para estes números, o que lhe dá mais orgulho?
Os números são importantes: demonstram sustentabilidade, confiança do mercado e sucesso. Mas há algo de que me orgulho ainda mais: as relações que permanecem depois de cada transação. Clientes que regressam ou recomendam, proprietários que voltam a confiar-nos o seu património e profissionais que se tornam parceiros. Uma venda termina com a escritura. Uma relação profissional pode durar décadas. E, para mim, esse é o verdadeiro património que uma empresa constrói.

 

 

Portugal transformou-se profundamente enquanto destino de investimento e de residência para clientes internacionais. Depois de vários anos de experiência no ramo imobiliário, que Portugal vê hoje através dos olhos de quem procura uma propriedade de excelência?
Vejo um Portugal cada vez mais internacional, sofisticado e exigente. Os clientes internacionais já não procuram apenas uma boa casa e localização: valorizam arquitetura, privacidade, segurança, sustentabilidade, serviços e qualidade de vida. Portugal reúne uma combinação de fatores difícil de replicar noutros mercados. O desafio será acompanhar esta evolução sem perder aquilo que torna o país verdadeiramente especial.

«A especialização no segmento de alto valor levou-nos naturalmente ao off-market, onde a confiança e a relação assumem uma importância ainda maior.»

Nos próximos cinco a dez anos, onde acredita que estará o verdadeiro valor do mercado imobiliário: na localização, na arquitetura, na sustentabilidade, na privacidade…?
A localização continuará fundamental, mas o verdadeiro valor estará na combinação de localização, arquitetura, sustentabilidade, eficiência energética, privacidade, segurança, tecnologia e qualidade de vida. E acrescentaria uma palavra: escassez. As propriedades verdadeiramente excecionais são, por natureza, escassas.

Como protege o seu espaço pessoal num setor que exige disponibilidade constante e exposição? Há alguma rotina, disciplina, que considere indispensável para a sua saúde mental e vida familiar?
Como pai de família, aprendi que nem tudo gira à volta do imobiliário. Neste setor, é fácil cair na ideia de que temos de estar permanentemente disponíveis e a trabalhar. Mas, com o tempo, percebi que sem uma estrutura familiar forte podemos ter a sensação de que temos tudo e, ao mesmo tempo, não temos nada. A família é a minha base. O trabalho ocupa uma parte importante da minha vida, mas procuro criar espaço para além dele. Nos tempos livres, gosto de ir ao ginásio, ler e, curiosamente, montar LEGO — atividades que me permitem desligar do ritmo do dia a dia. Hoje, talvez a minha maior disciplina seja compreender que, para construir uma vida de sucesso, não basta construir uma carreira. É preciso também ter pessoas com quem partilhar aquilo que conseguimos construir.

Texto: Carla Martins
Fotos: Nuno Antunes

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