Ricardo Pinto dos Santos, CEO MDS Portugal – «É, muitas vezes, na adversidade que está a oportunidade.»

Ricardo Pinto dos Santos, CEO MDS Portugal – «É, muitas vezes, na adversidade que está a oportunidade.»

É de pensamento efervescente, mas defende um crescimento sustentável e com propósito. Ricardo Pinto dos Santos, CEO da MDS Portugal, destaca a importância de cuidar do capital social das organizações e de deixar um legado de valores como a seriedade e a integridade. À Villas&Golfe falou do lado mais pessoal da vida de um CEO e do seu gosto arrojado…por cintos.

Quando acorda de madrugada a pensar em trabalho, em que pensa exatamente?
Acordo sistematicamente com temas de trabalho. É evidente que isso decorre da responsabilidade que se tem, da complexidade e quantidade de temas, é inevitável. É normalmente sobre a agenda do dia e o desafio da entrega, do atingimento das metas da empresa.

Qual o momento da sua carreira que mais o desafiou enquanto líder? Como transformou essa experiência em aprendizagem e crescimento?
É difícil destacar apenas um momento, quando já se tem 30 anos de carreira. Mas há claramente dois que se destacam: um na empresa onde trabalhei anteriormente, também um corretor de seguros, que foi a infelicidade do falecimento de um líder, na sequência do qual tive de assumir a condução informal da equipa. Foi uma passagem abrupta, na qual houve necessidade de acalmar a ansiedade e manter a estabilidade da equipa. Naquele momento alguém tinha de assumir o papel de agregador. Isto também me fez conseguir ter um pensamento mais estratégico perante um momento mais vulnerável da empresa. Foi uma fase desafiante, marcante e estruturante na minha carreira. Na verdade, sempre que dei grandes saltos na minha carreira, todos estiveram associados a um momento disruptivo. Destaco também outro momento, também transformacional, que é a chegada, anos mais tarde, à MDS, já com uma posição de liderança. A entrada na MDS fez-me entrar num mundo muito diferente: uma empresa com mais pessoas e muito competentes e com uma dimensão muito maior do que aquela que eu liderava, com tudo o que isso tem de bom e de desafiante. Foi um mundo que me transformou e claramente fez a diferença na minha carreira. O meu maior ensinamento ao longo do meu percurso profissional é que, muitas vezes, é na adversidade que está a oportunidade.

[…] sempre que dei grandes saltos na minha carreira, todos estiveram associados a um momento disruptivo.

Houve momentos em que o peso da sua função, como líder de uma organização multinacional, impactou mais a sua família? Como conseguiram equilibrar essas fases?
Só com paciência e tolerância da família é que se faz uma boa gestão entre a vida pessoal e profissional. Não se consegue simplesmente desligar o interruptor à sexta-feira ou à noite, principalmente quando se ocupam posições de liderança. Há comportamentos típicos do ambiente de trabalho que acabam por se transportar para casa. Mas procuro sempre ouvir as chamadas de atenção e agir, pois considero que é fundamental ter uma vida pessoal equilibrada para se ter um bom desempenho profissional.

Em que espaços se sente mais criativo: numa sala de reuniões, num avião ou a caminhar sozinho?
Tendencialmente, sinto-me mais estimulado em contexto de reunião. Tenho um lado relativamente rápido e perspicaz nessa perspetiva. Não sei se isso me torna mais criativo ou estimulado do que quando estou em silêncio. Acho que os dois, com estímulos diferentes, levam a resultados diferentes. Num avião transatlântico tenho um pensamento mais sereno, mais estruturado. Mas o pensamento da reunião traz efervescência e eu gosto mais de ambientes efervescentes.

É fundamental ter uma vida pessoal equilibrada para se ter um bom desempenho profissional.

Como é que a MDS está a integrar a inteligência artificial nos seus processos para se manter competitiva?
Na MDS apostamos, desde sempre, na inovação e tecnologia e há duas dimensões centrais nas quais temos aplicado a inteligência artificial. Uma é claramente na componente operacional. É um processo ainda relativamente recente para todos, mas na MDS já temos várias áreas onde estamos a usar a IA para melhorar a eficiência operacional, por exemplo, no tratamento de correspondência de clientes, de dados e ficheiros. Por outro lado, estamos a implementar a IA no desenvolvimento de negócio,numa componente mais analítica, através de modelos preditivos, ou seja, para prever comportamentos de propensão de compra.

Que peça de roupa ou acessório é quase uma extensão da sua identidade?
Eu escolheria sapatos e cintos. Tendencialmente sou uma pessoa conservadora e formal, mas sempre gostei, desde miúdo, de coisas diferentes. Fui mudando com a idade, mas gosto de ter o meu toque de personalidade, portanto os sapatos são tendencialmente todos muito clássicos, mas os cintos são irreverentes (alguns com missangas, outros com croché e muita cor…). A utilização dos dois em simultâneo carateriza-me. O cinto revela o meu lado mais descontraído, arrojado, e bem resolvido.

Há algo que o mundo empresarial valoriza e que considera profundamente sobrevalorizado?
O crescimento permanente e sistemático e o foco no curto prazo.Hoje as empresas vêm-se reféns da entrega constante de resultados, o que leva a casos de «obsessão» pela eficiência,distanciando-nos das pessoas e da importância do capital social das empresas. Hoje os gestores têm pouco espaço para isso. Perdeu-se nas empresas o que existia antigamente, do contributo para o desenvolvimento das comunidades, por exemplo, com a criação de cantinas, creches ou bolsas de estudo. O dinheiro também serve para fazer bem à sociedade. O crescimento e o lucro são importantes, mas em equilíbrio com este papel social. Na MDS, apesar das exigências de crescimento, preocupamo-nos com esta dimensão social.

Qual o legado que ambiciona deixar na empresa e na sua vida pessoal?
Na perspetiva pessoal, preocupo-me com a formação dos meus filhos. O maior legado que quero deixar-lhes são os valores. Que sejam, acima de tudo, boas pessoas. Se além disso forem bons estudantes e excelentes profissionais, melhor ainda - mas o essencial é que sejam boas pessoas. Desejo deixar uma marca assente em valores reconhecidos por todos - respeito, seriedade, proximidade e integridade - tanto no plano pessoal como no profissional.  É gratificante perceber que os nossos parceiros reconhecem estas características na MDS. Ouvir alguém dizer: «Lembras-te daquela fase em que havia um grupo de pessoas bons profissionais, íntegros e competentes que se destacaram e marcaram a indústria?» - isso, para mim, é o maior legado.

Na MDS, apesar das exigências de crescimento, preocupamo-nos com a dimensão social.

Qual foi o último livro que leu e que o fez parar para pensar na sua própria vida?
Há livros que me marcaram de diferentes maneiras, mas destaco dois que também tiveram impacto na minha vida profissional: o livro sobre Steve Jobs, fundador da Apple, e o livro sobre Tim Cook, o seu sucessor. Gosto de os relacionar. Por um lado, o do Steve Jobs faz pensar pela capacidade de ver, pela sua coragem e loucura, pela capacidade de fazer coisas tão bonitas, mas num modelo de gestão que não é o mais correto, mas com a obsessão por garantir que as pessoas tinham as condições certas para «performar». Já o Tim Cook trouxe equilíbrio às equipas, tolerância ao erro e à adaptação, um lado de sensibilidade e de cuidador, e não perdeu valor nos mercados acionistas. O ideal numa posição de liderança é ter uma combinação dos dois: reconhecer que é crucial a efervescência e um espírito «selvagem» que vê mais além, mas sempre em equilíbrio com a sustentabilidade e a estabilidade das equipas.

 

Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira

 

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