Tiago Feijóo - «A pintura permite-me escutar o mundo por dentro […]».
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Foi com vista para o Douro, paisagem que lhe serve tantas vezes de inspiração, que Tiago Feijóo falou com a Villas&Golfe. Entre a criação artística e a curadoria, define a arte como «uma linguagem de escuta ampliada», e é do seu avô, Álvaro Pinto, figura incontornável do Futebol Clube do Porto, que traz o rigor e a paixão que a sustentam. Na sensibilidade e poesia das suas palavras mergulhamos numa conversa sem tempo.

O seu trabalho desenvolve-se entre a curadoria e a criação artística — duas linguagens distintas. Onde é que elas se cruzam e como é que a liderança se traduz no gesto artístico e no olhar curatorial?
O meu trabalho existe na fronteira entre a criação artística e a curadoria — dois campos distintos, mas que, no meu percurso, se alimentam mutuamente. A pintura permite-me escutar o mundo por dentro, captar vibrações que ainda não têm linguagem; a curadoria, por sua vez, permite-me organizar o mundo por fora, escutando contextos, artistas, instituições e públicos. […] A liderança, nesse cruzamento, não se impõe — ela escuta. É uma liderança sensível, que opera pela afinação […]. Liderar, para mim, é ter visão, mas também responsabilidade afetiva sobre o que se propõe ao mundo.
«Liderar, para mim, é ter visão mas também responsabilidade afetiva sobre o que se propõe ao mundo.»
Como projeta, através da arte, a sua escuta simbólica entre o visível e o invisível?
A arte é, para mim, uma linguagem de escuta ampliada — uma escuta que atravessa os sentidos e atinge camadas mais profundas da consciência. Quando pinto, não estou apenas a representar imagens, mas a escutar aquilo que ainda não se revelou por palavras. […] Nesse sentido, a arte torna-se um radar da consciência, um GPS simbólico que nos orienta entre o visível do presente e o invisível do por vir.
Qual o papel do seu avô, Álvaro Pinto, no seu percurso artístico e humano?
O meu avô, Álvaro Pinto, foi uma figura absolutamente determinante na minha formação. Mais do que uma referência familiar, ele representou para mim um arquétipo de integridade, compromisso e visão. Com um percurso notável no Futebol Clube do Porto, onde foi o vice-presidente com o mandato mais longo da história do clube, […] os valores que ele encarnava junto de Jorge Nuno Pinto da Costa — Rigor, Competência, Ambição e Paixão — […] em mim germinaram como regras internas, orientações éticas e afetivas para a vida. […] Aprendi com ele que o rigor não se opõe à liberdade criativa, mas a sustenta; que a ambição não deve ser confundida com vaidade, mas compreendida como desejo de superação; que a competência é um ato contínuo de responsabilidade; e que a paixão é a centelha vital de qualquer gesto verdadeiro. O que herdei do meu avô não foi apenas uma memória, mas uma forma de estar no mundo.
«Cada curadoria que realizo nasce de uma escuta profunda […]».
A arte vive entre o instante e a eternidade. Para si, uma pintura nasce para durar ou para incendiar um momento?
A pintura é, para mim, um organismo que respira entre o tempo e o sem-tempo. Há nela uma centelha que pode incendiar o instante […] e, ao mesmo tempo, existe a vocação para durar, para continuar emitindo sentido através das décadas, séculos ou consciências. Não vejo uma oposição entre o efêmero e o eterno, mas sim uma espiral: o instante verdadeiro tem uma dimensão de eternidade, e o que é eterno vive reencarnado em sucessivos instantes.

No seu processo criativo, o erro é inimigo ou cúmplice?
No meu processo criativo, o erro é cúmplice — e, por vezes, mestre. A criação autêntica não nasce de uma rota linear, mas sim de um campo em constante descoberta, onde o inesperado pode revelar estruturas mais profundas do ser. O erro, neste contexto, não é uma falha, mas uma abertura: um ponto de rasgo por onde a linguagem nova pode entrar.
Há exposições que mudam a forma como olhamos o mundo. Qual a curadoria que mais gosto lhe deu fazer até hoje?
Cada curadoria que realizo nasce de uma escuta profunda — não apenas das obras, mas também do tempo em que vivemos e da urgência simbólica de gerar diálogos que transcendam fronteiras. As que mais me marcam são precisamente aquelas em que consigo reunir artistas internacionais de enorme força simbólica com artistas portugueses, criando um espaço comum onde as linguagens distintas se tocam, se confrontam e se abrem mutuamente. Podemos neste momento encontrar no Palácio Sotto Maior precisamente isto, onde, na exposição «Mestres no Palácio», que organizei com o Dr. José Miguel Amorim e o Dr. Edgar Souto, criamos esta linguagem profunda de união internacional entre os vários artistas portugueses como Vieira da Silva, Paula Rego, entre outros, com Picasso, Miró, ou Salvador Dalí. Acredito profundamente que o público português tem o direito de aceder, no seu próprio território, a obras e artistas de referência mundial, mas também que esses encontros devem ser férteis para os nossos próprios criadores.
Se pudesse conversar uma noite inteira com um pintor ou artista plástico de qualquer época, quem escolheria — e que pergunta lhe faria primeiro?
Se pudesse sentar-me à mesa com uma figura histórica, escolheria Leonardo da Vinci — não apenas pelo génio artístico que o mundo reconhece, mas pelo cientista profundo, pelo pensador multidimensional que via o corpo humano como um microcosmo do universo. A sua forma de observar o mundo era quase simbiótica: não separava ciência de arte, nem forma de função — e nisso encontro uma ressonância com a minha própria prática, onde a pintura se torna linguagem viva, e a curadoria, arquitetura relacional do invisível. A minha pergunta seria direta e simbólica ao mesmo tempo: «No silêncio entre o traço e a descoberta, o que escutas do universo? Qual é o som da forma antes de ser corpo?» Leonardo, creio, compreendia isso.
Como equilibra a sua vida pessoal e profissional? Tem algum hábito que não dispense no seu dia a dia?
Equilibrar vida pessoal e profissional, para mim, não é separar — é integrar. Acredito que a arte verdadeira emerge quando o ser está inteiro. Tento viver de forma simbiótica com aquilo que faço, e isso implica disciplina, escuta e presença. Há dois hábitos diários que nunca abandono: o silêncio da manhã e o contato com a água. O silêncio, antes de qualquer gesto exterior, oferece-me um espaço interno onde escuto, reflito, escrevo ou simplesmente respiro. E há também a água. Tento nadar sempre que posso. Nadar é para mim um ritual de presença e de purificação.

Enquanto promotor da arte portuguesa além-fronteiras, como define hoje a arte portuguesa e a arte em Portugal?
A arte portuguesa carrega em si uma melancolia luminosa, uma poética de resistência e de reinvenção. É uma arte que nasce muitas vezes do silêncio, do íntimo, do olhar atento ao detalhe e ao tempo. Mas também é uma arte que ousa — que cruza fronteiras com uma força contida, quase sussurrada, mas absolutamente autêntica. Vejo a arte em Portugal como um campo fértil em profunda transformação: artistas e curadores estão mais conscientes do seu lugar no mundo e do seu papel na regeneração estética, simbólica e até ética da sociedade. […].
Tem um projeto na Quinta do Lago que visa transformá-lo num novo epicentro artístico, com uma forte componente educativa e social. São também este tipo de ideias que continuam a motivar a sua carreira?
Neste momento, vários projetos em que estou envolvido apontam para uma nova fase de transformação artística e cultural, tanto em Portugal como no contexto internacional. Na Quinta do Lago, um projeto que visa transformar este lugar emblemático num novo epicentro artístico, com uma forte componente também educativa e social. No plano internacional, um projeto particularmente especial para mim acontece em Auvers-sur-Oise, a cidade onde Van Gogh passou os seus últimos dias e pintou algumas das suas obras mais significativas. Foi ali que nasceu recentemente a Academia Van Gogh — uma iniciativa viva, ousada e visionária, que ajudei a fundar em parceria com Wouter Van der Veen e Alexandre Fonseca. Estamos a trabalhar com entusiasmo para trazer a Academia Van Gogh para Portugal, como um centro artístico internacional. Também na cidade do Porto, onde as minhas raízes afetivas e profissionais se entrelaçam, estamos a preparar com dedicação a inauguração de um novo museu no centro da cidade.
«Equilibrar vida pessoal e profissional, para mim, não é separar – é integrar».
Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira