Luís Mira Amaral - «Ainda hoje, se vir passar um Porsche, olho sempre.»

Luís Mira Amaral - «Ainda hoje, se vir passar um Porsche, olho sempre.»

Aos 80 anos, Luís Mira Amaral continua a pensar o país com a mesma acutilância com que um dia o ajudou a decidir. Engenheiro e economista, antigo Ministro da Indústria e da Energia, gestor de referência da EDP à Caixa Geral de Depósitos, alia uma experiência rara a um humor maduro e frontal. Intelectualmente inquieto, fala de poder, ambição, desilusões e luxo com a elegância de quem prefere a substância à ostentação — e nunca deixou de pensar pela própria cabeça.

É engenheiro e economista de formação, foi gestor, professor, ministro… Que experiências profissionais foram mais marcantes para si?
Comecei a trabalhar como Engenheiro mas tive sempre a ambição de estudar economia. O meu primeiro emprego foi na Direção Geral de Náutica Civil, onde se faziam projetos em estações elétricas nos aeroportos portugueses. Isso, como primeiro emprego, foi uma experiência muito marcante […]. Mas a experiência que mais me marcou na vida foi a função como Ministro da Indústria e da Energia, que exerci durante oito anos. Eu tinha experiência na área da indústria e da energia, tinha formação técnica e económica também nessas áreas e tinha sido Engenheiro da EDP. No Banco do Fomento Nacional tinha conhecido toda a indústria portuguesa e tinha ainda lecionado Economia Industrial na Faculdade de Economia da Nova. […] Portanto, no governo tive a oportunidade de aplicar não só os conceitos teóricos e académicos como a experiência profissional nas duas áreas. Foi uma experiência fascinante. 

«[Ter sido] Ministro da Indústria e da Energia […]. foi uma experiência fascinante.»

E olhando para trás, que decisões considera que moldaram significativamente a sua vida profissional e pessoal?
No Técnico havia dois professores que chegavam de Mercedez com chauffeur e eu, como jovem estudante, olhava para eles e pensava «este é o modelo que eu quero ser no futuro, ser Presidente de um Conselho de Administração e ter um Mercedez com chauffeur». Como jovem burguês empedernido da Praça de Londres, estes professores marcaram-me positivamente, não tanto pela sua competência técnica mas sim pela sua dimensão social. Pela negativa, a Guerra Colonial, que marcou a minha geração. […] Saí da tropa aos 29, por isso perdi seis anos de vida profissional… Marcou-me profundamente ver aqueles infelizes regressados da Guerra, que chegavam ao Hospital Militar todos estropiados ou já mortos, ver os seus ossos num saquinho de plástico. Isso marca uma geração. 

O que é que o sucesso nas diferentes áreas profissionais lhe trouxe que não imaginava e o que lhe retirou?
Não tenho razões de queixa, tive sempre uma vida sem preocupações. A minha ambição profissional era não só ter realização profissional mas ter uma vida boa. Na minha vida estudantil nunca alinhei com associações de estudantes porque aquilo era tudo malta esquerdista e eu não me revia na esquerda estudantil portuguesa, mas também não me revia no antigo regime, que me cheirava a bolas de naftalina. Quando apareceu o Expresso com Francisco Sá Carneiro, quando apareceu a ala Liberal também com Balsemão e Pinto de Leite, eu percebi que aquela era a minha gente. Isso também foram marcos importantes no meu começo de vida. Gostei muito do que fiz enquanto Engenheiro, adorei ter a experiência com a economia e com a indústria portuguesa no Banco do Fomento e gostei muito de ser Ministro da Indústria e da Energia. As pessoas ainda me reconhecem como Ministro e muitas dizem-me que fui o melhor Ministro de economia e da Indústria da democracia portuguesa. Isso para mim é muito gratificante. Mas só quando saí do Governo é que comecei a ganhar dinheiro. Regressei à banca, fui administrador do BPI, da CGD, CEO do Banco BIC português. Antes, tive uma boa vida profissional, mas era um técnico. Não sou rico, mas vivo confortavelmente e feliz.

O país mudou muito desde que esteve no centro da decisão política. O que o deixa hoje mais otimista em Portugal e o que o preocupa seriamente?
O que me deixa mais otimista é toda uma nova geração extremamente bem formada que as escolas portuguesas de Economia, Engenharia e Gestão estão a lançar. Temos das melhores escolas nestas áreas a nível mundial, que estão a formar jovens portugueses para o mundo e que são os melhores entre os melhores. O que me desgosta é termos um país que está estagnado por incapacidade do sistema político de lhe dar desenvolvimento económico e social. Choca-me profundamente que ao fim de mais de 30 anos de integração europeia com volumosos fundos comunitários o país não saia da cêpa torta. Perceber que esta juventude extremamente bem formada não vê perspetivas no país e vai-se embora entristece-me. Exportamos os melhores e importamos mão de obra indiferenciada de baixa qualificação. O impasse a que o país chegou desgosta-me profundamente.

Assumiu recentemente que teve uma depressão quando saiu da Caixa Geral de Depósitos, onde era Presidente da Comissão Executiva. O que se aprende sobre a vida e sobre saúde mental quando se vive um episódio assim?
Não tive uma depressão por causa do trabalho na Caixa Geral de Depósitos, mas porque fui enganado e enxovalhado pelo governo do PSD. Pediram-me para ir para a Caixa Geral de Depósitos para os ajudar, […] prometeram dar-me a presidência da Caixa Geral de Depósitos mas mentiram-me, enganaram-me e depois ainda me insultaram e enxovalharam em público. Isso é que eu não lhes perdoo e não esqueço. Foi isso que me causou uma depressão, foi a maneira como fui enganado e enxovalhado em praça pública pelo governo do PSD. Desde esse dia, nunca mais vesti a camisola do partido e nunca mais contaram comigo para ajudar o PSD. Mas, hoje em dia, a vida moderna e empresarial é tão intensa e difícil que é normal as pessoas passarem momentos menos bons. Mas há psicólogos e psiquiatras para ajudar. As pessoas podem ter momentos de fraqueza e, claro, precisar dessa ajuda.

«Choca-me profundamente que ao fim de mais de 30 anos de integração europeia com volumosos fundos comunitários o país não saia da cêpa torta.»

O luxo hoje vai muito além do material. O que é verdadeiramente um luxo inegociável na sua vida?
O luxo exagerado é uma ostentação que eu não subscrevo. Gosto de coisas boas mas pela sua qualidade, não pela etiqueta. É uma área económica em que os franceses se mantêm fortes, eu aprecio o luxo francês. Aquele estilo de novos ricos, que utilizam telemóveis e relógios cravados de diamantes e coisas do género, eu abomino esse exibicionismo. Mas aprecio um homem que sabe vestir um fato e uns sapatos com gosto e qualidade. Se me falar de carros de luxo, como um Bentley ou um Rolls Royce, também aprecio. São sinónimo de grande qualidade. 

Gosta de carros, restaurantes e viagens… Há algo material que o faça, verdadeiramente, perder a cabeça? Tem marcas preferidas?
Perder a cabeça não. Mas ainda hoje, se vir passar um Porsche, olho sempre. Se passar um Bentley, um Rolls Royce, um Aston Martin, não perco a cabeça mas fico encantado. Hoje em dia, na Marina de Cascais há vários stands dessas marcas e sempre que vou lá passo para ver os carros. É um gosto meu. Mas também aprecio ver uma pessoa bem vestida, quer homem quer mulher. Vestir bem não é vestir caríssimo, é um savoir faire.

«Não tive uma depressão por causa do trabalho na Caixa Geral de Depósitos mas porque fui enganado e enxovalhado pelo governo do PSD.»

Que hábitos ou atividades são o seu refúgio quando precisa de se abstrair, de desligar?
Devo dizer que não faço interregnos longos. Nesse aspeto, basta-me dormir uma sesta ao sábado e ao domingo à tarde, desligar o telemóvel, não ver televisão. Um dia sem abrir o computador é suficiente para conseguir desligar. Para além disso, vou ao ginásio duas vezes por semana, faço máquinas e natação e ando a pé no paredão de Cascais. Quando está bom tempo, passear no meu MGB descapotável em Cascais e no Guincho, com um bom blusão e um bom gorro, é extremamente agradável. Aproveito o fim de semana para ler muito. Gosto de ler sobre economia, finanças, gestão, energia. Não perdi a minha curiosidade e tenho o mesmo ritmo de leitura que tinha antes. A única diferença é que depois do jantar não faço mais nada, porque estou esgotado. Quando estava no governo, jantava e ainda ia trabalhar.

Como definiria a fase atual da sua vida?
Eu sou hoje aquilo a que se chama, de uma forma sofisticada, um senior avançado. Repare, eu tenho 80 anos. A minha concepção de reforma era abandonar funções executivas e passar a ter funções não executivas. Não queria, como alguns fazem erradamente, ir para casa e não fazer nada, isso é um desastre. Hoje em dia faço atividades de consultoria e dou aulas de pós-graduação de economia e de gestão e isso dá-me imenso gozo. Mantenho-me ativo intelectualmente. Escrevo para jornais, faço comentários televisivos sobre coisas que domino profissionalmente. Isso é que demonstra verdadeiramente a minha qualidade de vida. 

«Vestir bem não é vestir caríssimo, é um savoir faire.»

 

Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira

Voltar para o blogue