Jaime Coutinho: «[…] a arquitectura nunca deve ser um exercício de ego»
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Há quase cinco décadas que Jaime Coutinho desenha mais do que casas: desenha formas de viver. Num percurso intimamente ligado ao nascimento e afirmação do luxo residencial no Algarve, o arquiteto fez do conceito «Design for Lifestyles» a essência do seu trabalho, colocando sempre a pessoa e a forma como habita no centro da arquitetura. Nesta edição, a Villas&Golfe presta homenagem ao seu percurso, ao seu legado e à visão que ajudou a definir outra forma de viver o Algarve.
Quando olha para trás, para os tempos de Vale do Lobo e para o crescimento da Quinta do Lago, sente que ajudou a desenhar não apenas casas, mas um verdadeiro estilo de vida no Algarve?
O meu percurso profissional ficou profundamente marcado pelo convite de Sander van Gelder para integrar Vale do Lobo, em Outubro de 1978, logo após concluir a licenciatura em Arquitectura. Esse desafio mudou a minha vida e permitiu-me iniciar carreira no mais prestigiado resort de luxo da época. Pouco depois assumi a Direcção de Planeamento e Projectos e o cargo de Arquitecto-Chefe, funções que desempenhei até fundar a JCA, em 1989, mantendo ainda uma colaboração com Vale do Lobo até 1999. Vivi de perto a evolução do chamado Triângulo Dourado — Vale do Lobo, Quinta do Lago, Vilamoura e Vila Sol e outros — acompanhando a transformação da arquitectura de férias para uma linguagem contemporânea, luminosa e funcional, adaptada a um mercado internacional cada vez mais exigente. Foi um período decisivo na afirmação do Algarve como destino de referência do turismo residencial de luxo.
«Creio que o arquitecto deve cultivar uma imagem coerente com a sua forma de trabalhar e com o seu universo profissional. »
Conviveu e trabalhou ao lado de figuras absolutamente marcantes como André Jordan e Sander van Gelder. De que forma influenciaram a sua forma de pensar a arquitetura?
Durante 20 anos trabalhei com Sander van Gelder, com quem discutia estratégias e uma visão de lifestyle de luxo muito à frente do seu tempo. Dedicava-se integralmente ao desenvolvimento de Vale do Lobo e transmitia-nos essa exigência diariamente. Destaco igualmente o período em que fui assistente de Sir Henry Cotton, acompanhando o desenvolvimento do Royal Golf Course, uma experiência inesquecível que me ensinou o valor da simplicidade e do rigor. Quanto a André Jordan, nunca trabalhámos directamente, mas acompanhei de perto o seu legado visionário na Quinta do Lago, Vilamoura e Campo de Belas. Foi um privilégio testemunhar o impacto dos seus empreendimentos e perceber que a arquitectura deve nascer menos da teoria e mais da realidade do lugar.

Ao longo do seu percurso, muitas personalidades nacionais e internacionais passaram pelos seus projetos e pela sua vida. Qual foi o maior ensinamento que retirou dessas experiências?
O maior ensinamento foi compreender que a arquitectura nunca deve ser um exercício de ego, mas um acto criativo e poético colocado inteiramente ao serviço das expectativas e da forma de viver de cada cliente.
Há referências muito especiais no seu imaginário pessoal — nomes como Audrey Hepburn, Ayrton Senna, Maluda e grandes figuras do universo artístico, cultural, empresarial e político. Que impacto tiveram esses ícones na sua visão de elegância e sensibilidade estética?
Tive o privilégio de conviver com personalidades como Audrey Hepburn, enquanto Arquitecto Chefe no resort Vale do Lobo- onde quase comprou um lote- a pintora Maluda e diversos profissionais de referência das áreas da arquitectura e do design de interiores, entre eles Graça Viterbo, Teresa Almendra, Nini Andrade Silva e Laura Osório. Relativamente a Ayrton Senna, a casa onde viveu na Quinta do Lago foi um projecto meu, inicialmente concebido para outros proprietários e posteriormente remodelado para os donos seguintes. O contacto com clientes e personalidades de diferentes nacionalidades alargou naturalmente a minha visão de elegância, de luxo discreto e de sensibilidade estética, sempre assente na capacidade de escutar e interpretar quem habita os espaços. Foi também dessa relação de confiança que nasceram amizades que perduram até hoje.
O Jaime Coutinho sempre cultivou uma imagem muito própria: sofisticada, discreta, elegante e profundamente ligada ao lifestyle. Essa também é uma forma de viver e comunicar a arquitetura?
Creio que o arquitecto deve cultivar uma imagem coerente com a sua forma de trabalhar e com o seu universo profissional. Mais do que a aparência, importa transmitir confiança, discrição e autenticidade. Recordo clientes que me disseram que, para além do portefólio, foi precisamente essa postura que os levou a confiar-me os seus projectos. Gosto de pensar que essa identidade também se reflecte no atelier e na minha própria casa, espaços que exprimem a forma eclética como vivo a Arquitectura.
«Não desenho apenas casas; procuro desenhar formas de viver.»
O lema "Design for Lifestyles" tornou-se quase uma assinatura emocional da JCA. Qual era o seu objetivo quando criou esse conceito?
"Design for Lifestyles" traduz a essência da JCA. Projectar significa entrar intuitivamente no universo de quem vai viver cada espaço, compreendendo os seus hábitos, emoções e expectativas. Não desenho apenas casas; procuro desenhar formas de viver. Recordo um casal inglês que, ao ver o estudo prévio, me disse emocionado que era exactamente aquilo que procurava, e a partir dali gerou-se uma amizade que perdura até hoje. Esse momento confirmou-me que a arquitectura só faz sentido quando se consegue interpretar, com sensibilidade, a vida de quem a habita.
«Projecto de forma absolutamente livre, sem me deixar condicionar por tendências. »

Ao longo de mais de três décadas, trabalhou com nomes incontornáveis do design e da decoração. Como descreve essa relação entre arquitetura e interiores?
Arquitectura e Arquitectura de Interiores devem caminhar lado a lado desde o início. São disciplinas distintas, mas profundamente complementares. O diálogo entre arquitectos, designers de interiores, paisagistas e posteriormente restantes especialidades enriquece o projecto e conduz a um resultado final verdadeiramente pensado para os clientes.
As suas casas têm algo raro: não seguem tendências e, ainda assim, permanecem atuais décadas depois. Existe uma espécie de intuição estética?
Projecto de forma absolutamente livre, sem me deixar condicionar por tendências. A intuição é uma ferramenta determinante no meu processo criativo. Mais do que procurar uma arquitectura "intemporal", interessa-me criar espaços que, décadas depois, continuem a cumprir plenamente a sua função e a proporcionar bem-estar a quem os habita.
Muitos dos seus projetos nasceram em locais únicos — Quinta do Lago, Vale do Lobo, Ria Formosa, Vilamoura. A paisagem algarvia continua a inspirá-lo?
Naturalmente. Nunca inicio um projecto sem conhecer profundamente o terreno, em diferentes momentos do dia. A paisagem, a luz, os sons e a envolvente fazem parte da concepção. Recordo-me de enviar a um cliente um vídeo do chilrear de um pássaro no seu futuro lote, na Quinta do Lago. Anos depois, continua a acordar com esse mesmo som. Talvez essa seja uma das melhores expressões do conceito "Design for Lifestyles".
Depois de tantos anos a desenhar casas para famílias de todo o mundo, o que distingue verdadeiramente uma grande casa?
Uma grande casa não se remete à dimensão, mas à qualidade dos espaços e à forma como promove bem-estar. Luz natural, vistas, paisagismo, conforto, privacidade e serenidade são hoje a verdadeira expressão do luxo. Mais do que impressionar visualmente, uma casa deve responder à identidade e às memórias de quem a habita.
«Mais do que impressionar visualmente, uma casa deve responder à identidade e às memórias de quem a habita.»
Há projectos que marcam um arquitecto para sempre. Qual foi o projecto que mais o emocionou?
É difícil escolher apenas um. Recordo uma moradia em Vale do Lobo, cujo lote foi redesenhado para aproveitar da melhor forma a orientação solar e as vistas sobre o oceano; uma casa na Quinta do Lago com design de interiores de Graça Viterbo; outra construída no local da antiga Casa Redonda; outra desenvolvida em parceria com o arquitecto e amigo Richard Burt, e ainda outra localizada na frente do lago da Quinta do Lago, talvez o projeto que mais prazer me deu realizar.
Hoje, olhando para o legado que construiu, sente-se mais realizado pelo reconhecimento profissional ou pelo impacto que teve na vida das pessoas através das casas que criou?
Diria que por ambos. O reconhecimento profissional honra-me profundamente, embora nunca tenha sido a minha principal motivação. Por isso, a homenagem ao meu legado que o CEO da Villas & Golfe me propôs, fazendo dele um dos temas centrais desta edição comemorativa dos 25 anos da revista, constitui para mim uma grande honra. Continuo a chegar diariamente ao atelier com a mesma motivação de sempre. Olhando para o meu percurso, acredito que o meu legado se traduz na evolução da arquitectura residencial turística, desde os primeiros projectos na Quinta do Lago, como a Casa Ayrton Senna, até aos projectos desenvolvidos ao longo dos últimos 25 anos, período que a Villas & Golfe acompanhou de perto em várias edições. Mas o maior impacto do meu trabalho mede-se nas pessoas: é um privilégio ver as casas que projectei integrarem as histórias de vida dos seus proprietários e saber que muitos dos meus clientes se tornaram amigos.
O que gostaria que dissessem sobre Jaime Coutinho daqui a 50 anos?
Não espero que haja uma rua ou uma rotunda com o meu nome [entre risos]. Gostaria apenas que, nas moradias que perdurarem, alguém pudesse reconhecer uma arquitectura que manteve a sua essência e continuou a proporcionar qualidade de vida a sucessivas gerações, a arquitetura de um arquiteto chamado Jaime Coutinho. Esse será o meu maior legado. Aproveito para agradecer a todos os colaboradores da JCA, uma verdadeira família, bem como aos inúmeros parceiros e projectistas que, ao longo dos anos, contribuíram para tornar possível este sonho e este percurso.
Texto: Carla Martins
Fotos: Nuno Almendra