
José Manuel Fernandes - «Portugal tem uma agricultura cada vez mais moderna e competitiva.»
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É licenciado em Engenharia de Sistemas Informáticos mas também frequentou o curso de Direito. Assumiu vários cargos ao longo do seu percurso profissional e político, como os de professor, Presidente da Câmara e Deputado ao Parlamento Europeu. Atualmente a desempenhar funções como Ministro da Agricultura e das Pescas, José Manuel Fernandes dá-nos o gosto de um conversa onde se revela um homem da leitura, da escrita e de paixões como a cozinha e a concertina.
Como está a ser este novo desafio como Ministro da Agricultura e das Pescas?
É uma nova missão que assumo com determinação e com o máximo empenho e dedicação que me são possíveis. Estamos a reconstruir um Ministério que tinha sido desmantelado e a valorizar estes setores que são cruciais para a nossa economia e para a nossa coesão territorial.
Num contexto de globalização, de inteligência artificial e de tantas mudanças sociais e económicas, que papel assume hoje a agricultura em Portugal?
Portugal tem uma agricultura cada vez mais moderna e competitiva. A inteligência artificial, a robotização, a internet e a agricultura de ponta e de precisão estão cada vez mais presentes. Em Portugal, as palavras agricultura e pescas significam competitividade, coesão territorial, sustentabilidade, gastronomia, turismo, património, investigação, indústria. É essencial que se tome consciência desta dimensão transversal. Os empregos diretos do complexo agroflorestal e pescas representam cerca de 9,1% do total do emprego na economia e correspondem a cerca de 5.2% do PIB.
«A média de idade dos nossos agricultores é superior a 64 anos. Temos de rejuvenescer este setor.»
Considera que o agricultor ainda é visto como um profissional de baixo estatuto, ou existe hoje uma nova qualificação do setor agrícola?
Um dos nossos objetivos é mostrar a evolução e inovação do setor agrícola, que exige qualificações cada vez mais elevadas. Infelizmente, determinadas narrativas levadas a efeito por radicais verdes tentaram rotular os agricultores como vilões e malfeitores, quando, na verdade, são dos que mais defendem a sustentabilidade ambiental.
Há uma preocupação do Estado em atrair jovens agricultores?
A média de idade dos nossos agricultores é superior a 64 anos. Temos de rejuvenescer este setor. Por isso, aumentámos para o dobro o apoio aos jovens agricultores, nomeadamente, os jovens agricultores em regime de exclusividade.
Existem mais de 259 mil explorações agrícolas, em Portugal, mas são as de grande dimensão, cerca de 3,6%, que geram 60% do valor de produção. Negligenciamos os pequenos produtores?
Não considero que exista uma marginalização. É natural que as maiores explorações, quer em termos de área, quer em termos de produção, contribuam mais para o valor de mercado e para a importante missão de abastecimento alimentar, quer em quantidade, quer em qualidade. No entanto, há um crescente reconhecimento da importância da agricultura familiar e dos circuitos curtos de comercialização, como os mercados locais e as produções especializadas. Devemos, ainda, valorizar o papel de cariz socio-territorial e a promoção de valores culturais, a nível local e regional. Os nossos programas de incentivos no PEPAC reconhecem esta realidade.
O que é preciso mudar no setor agro-económico? Que objetivos existem do ponto de vista governamental?
O setor agroeconómico precisa de mais eficiência, inovação e sustentabilidade. Algumas das principais mudanças necessárias incluem um maior rendimento para os agricultores, o acesso ao financiamento para investimento, com condições mais favoráveis; […] a modernização das infraestruturas agrícolas e […] a promoção da internacionalização, incentivando a exportação de produtos agrícolas portugueses.
E do ponto de vista ambiental? Temos os recursos e as condições certas para a prática de uma agricultura sustentável?
Portugal tem boas condições para uma agricultura sustentável. Com efeito, podemos considerar que a agricultura portuguesa é, na generalidade, uma agricultura extensiva, com mais de 50% da superfície agrícola afeta a pastagens. Contudo, enfrenta desafios como a escassez de água e a erosão dos solos. Um tema central é a água. Não podemos deixar “fugir” a água toda para o mar. Avançámos para a iniciativa “Água que Une”, cujo objetivo é definir uma rede interligada de armazenamento, gestão e distribuição eficientes da água para a agricultura e para o consumo humano. Esta iniciativa permitirá repor os caudais ecológicos dos nossos rios e terá investimentos para evitar cheias. Outra iniciativa estruturante é o Pacto Nacional para a Floresta que tem em consideração a sua dimensão económica, ambiental e social.
No contexto Europeu, com exemplos muito positivos como o dos países nórdicos, podemos considerar que Portugal tem matas a mais e hortas a menos?
A área agrícola em Portugal é,em termos relativos, superior à dos países nórdicos […]. A Floresta e a Indústria Florestal em Portugal têm uma importância muito significativa para a economia nacional, representando 4,1% das exportações. Estes resultados não devem esconder os riscos associados a áreas significativas do nosso território que são, repetidamente, assoladas pelos impactos dos incêndios. Portugal tem uma elevada cobertura florestal, mas nem sempre bem gerida. A principal questão está relacionada com os riscos climáticos e também com a falta de rendimento que, em muitos casos, se retira das explorações florestais. O governo apresentará, em breve, um Pacto Nacional para a Floresta.
Portugal é considerado um destino de luxo e por isso mesmo tem dado cartas em novos mercados e negócios, nomeadamente nos produtos gourmet. Para si, o que é que distingue os nossos produtos e a nossa marca?
Temos produtos de enorme qualidade, boas infraestruturas, um bom clima - esta brisa atlântica - um povo acolhedor, um país seguro. Os nossos produtos gourmet têm sabores irrepetíveis e carregam a tradição e o saber transmitido e acumulado de geração em geração.
«Gosto de cortar a relva, mas ainda não me dediquei à horta.»
A procura pelo wellliving está também associada a uma boa alimentação e, por isso, ao que é biológico. Considera que, por esse motivo, a perceção da agricultura também está a mudar?
Na UE, existem regras ambientais e elevados padrões de segurança alimentar. A moderação é essencial. Defendo a dieta mediterrânica, que é património cultural e imaterial da Unesco, e que tem como elementos o consumo moderado de vinho e de azeite. A moderação é a palavra-chave.
É um homem do norte e no norte come-se particularmente bem. Tem cuidados com a alimentação? Em que medida esta nova ligação à agricultura o faz mudar hábitos ou perspetivas?
O meu prato preferido é arroz de pica no chão. Não mudei de preferências. Agora que estou a Ministro, nem sempre tenho tempo para almoçar, e noto que isso se calhar me faz mais mal do que comer…
O que gosta de fazer nos seus tempos livres? Podemos perguntar se o Ministro da Agricultura tem alguma horta?
Adoro cozinhar. A próxima aprendizagem vai ser aprender a preparar e assar leitão no forno a lenha. Adorava jogar futebol, mas, para voltar a jogar, tenho de perder uns quilos. No Mar, a caça submarina era outra paixão, que não faço há uns anos. Gosto de ler e escrever, de tocar concertina. Gostava de voltar a tocar órgão e saxofone. Gosto de cortar a relva, mas ainda não me dediquei à horta.
No seu contexto pessoal, o que significa viver bem?
Vivo bem se tiver saúde e liberdade e se a minha mulher, os meus filhos e familiares estiverem felizes.
Texto: Carla Martins
Fotos: Direitos Reservados