Marta Andrade – «A Europa é muito mais forte porque a ADA existe […]»

Marta Andrade – «A Europa é muito mais forte porque a ADA existe […]»

Com apenas 31 anos, Marta Andrade lidera o Grupo ADA, único produtor europeu de dispositivos médicos no setor têxtil, reconhecido mundialmente pela qualidade e segurança. Com uma alegria espontânea e um olhar meigo mas atento, conversou com a Villas&Golfe numa grande entrevista, pautada pela emoção das recordações do pai mas, acima de tudo, por uma garra que realça, em cada palavra, o trabalho e o contributo da ADA para um propósito maior.


O Grupo ADA celebra 50 anos, posicionando-se hoje como o único produtor europeu de dispositivos médicos no setor têxtil e alcançando um volume de negócios na ordem dos 60 milhões de euros anuais. Que valores e fundamentos estratégicos considera terem sido essenciais para sustentar este percurso de crescimento tão singular?
Quando inauguramos a empresa, há 50 anos, o nosso objetivo era criar uma empresa diferente, não só em termos de qualidade, mas mais do que isso, com os melhores valores. Hoje somos reconhecidos como a empresa com melhor qualidade no setor, não só a nível europeu mas mundial. Acima de tudo, queremos que todas as pessoas que trabalham na ADA, os clientes, os fornecedores, compreendam bem os nossos valores para nos poderem ajudar a fazer uma diferença ainda maior. Acreditamos que a felicidade nos trabalhadores é um fator diferenciador, e muitas vezes, até quando estamos a fazer apresentações internacionais, os próprios profissionais de saúde, reconhecem a energia das nossas pessoas, porque elas são muito felizes a trabalhar aqui. Eu acredito que a indústria não tem de ser cinzenta, pode ser um ambiente divertido, jovem, de criação de valor, independentemente do produto final. Uma outra caraterística que nos distingue, por sermos a única empresa desta tipologia de produto na Europa, é termos de executar o nosso trabalho considerando as exigências da produção na Europa, que requer algumas dificuldades. Decidimos olhar para todos esses requisitos do mercado não como um peso mas como algo que nos diferencia. A Europa é muito mais forte porque a ADA existe, naquilo que refere à segurança de fornecimento aos hospitais. Isso verificou-se durante o COVID, já que, apesar de vivermos no século XXI e estarmos na Europa, com acesso a bens de luxo, aquilo que é o produto de suporte básico à vida falhou. Produtos como as compressas, se falharem, param um hospital, e nós não temos essa noção. Nunca se viveu uma crise profunda neste sentido porque a ADA esteve lá. E porque colaboram connosco indústrias que eu admiro muito, e que têm os mesmos valores que nós, no sentido de superar esta dificuldade de produzir na Europa, no sentido de um propósito muito maior. É assim que eu vejo a nossa diferenciação.

A recente venda de 49% do capital à holding austríaca Rau-Be Beteiligungen GmbH, do grupo austríaco-alemão Lohmann & Rauscher (L&R), marcou um novo capítulo na vida do Grupo. O que motivou esta decisão e que horizontes estratégicos se antevêm com esta parceria?
Esta venda tem muita história por detrás, mas efetivamente o que a acabou por motivar foi a pretensão de accionistas da empresa de saírem do capital. E portanto nós, irmãs, ou comprávamos a participação dos outros acionistas, ou arranjávamos um parceiro que achássemos interessante para a empresa. O que acabou por acontecer foi a procura de uma solução que fosse inteligente, que nos permitisse entrar em mercados onde não estamos. A Lohmann & Rauscher (L&R) é uma empresa que eu admiro imenso, e também é uma empresa familiar, com os mesmos valores que nós, por isso é um match perfeito. Acreditávamos que, para a ADA dar um salto maior, tinha de ter uma empresa com estas caraterísticas no capital. 

O Grupo está presente em diferentes geografias. Como é que esta presença internacional enriquece a competitividade e o trabalho desenvolvido a partir de Portugal?
Durante os nossos primeiros 40 anos estivemos muito focados na indústria propriamente dita, porque procurávamos a competitividade e a segurança do produto. Acerca de dez anos atrás, começamos a fortalecer a nossa imagem e a comunicação daquilo que somos, nomeadamente através de participação em feiras internacionais ou parcerias estratégicas. Mas há algo que nos distingue, apesar do nosso nome e reconhecimento, que é a humildade. Se somos hoje os melhores, amanhã podemos já não ser. Por isso temos de continuar a nossa busca por melhoria contínua. Hoje fazemos congressos, onde damos o nosso parecer para melhor utilização do produto, estamos próximos dos profissionais de saúde. E foi com essa projeção e essa visão que também lá fora começaram a perceber que o nosso produto era realmente diferenciador, validado também pelas nossas certificações, pelas nossas matérias primas. A segurança e o fornecimento também são muito importantes. Os nossos únicos concorrentes estão na China. Muitas vezes encontramos produto não conforme, comunicamos às autoridades, e esse produto é retirado do mercado. Queremos trazer segurança para os profissionais de saúde e para os doentes.

«Adoro trabalhar com as pessoas que estão na ADA, é viciante para mim.»

Assumiu a liderança executiva aos 31 anos, mas está profissionalmente dentro da empresa desde os 18. A liderança chamou por si desde cedo?
Eu acho que a questão dos números, das vendas, da criação de negócio, é algo que está em mim naturalmente. Há uma história que recordo: o meu pai nunca fazia férias, e, num verão em que a irmã dele, que vendia toalhas, estava com problemas no negócio, o meu pai queria ajudá-la. Aproveitou, simultaneamente, para educar as filhas. Comprou um camião de toalhas e disse-nos «Quero que vocês vendam isto tudo. Vamos criar a vossa própria empresa.» Tínhamos nós uns 12 anos. Toda a gente estava à espera que não conseguíssemos, mas criamos logo um nome para a nossa empresa, pensamos em estratégias engraçadas, montamos uma banquinha na loja de móveis da minha mãe e acabamos por vender aquilo num mês. Na altura até o meu pai ficou impressionado. Logo ali se revelou que nós gostamos de trabalhar, de vender, e deste mundo dos negócios. Neste sentido, eu queria muito vir trabalhar cedo. Gostei de estudar, mas sentia que o ambiente que vivia na faculdade era muito vazio. E então disse ao meu pai que queria ir estudar à noite e durante o dia vir trabalhar, e que queria que ele me ensinasse. Lembro-me de vir para a ADA e começar logo a ir a reuniões com ele. O meu pai ouvia muito os jovens. Eu gosto muito de contratar jovens, gosto de pessoas inteligentes e gosto de me questionar quando contrato: «Eu trabalharia para esta pessoa?». Adoro trabalhar com as pessoas que estão na ADA, é viciante para mim. 

«O meu pai era um homem de negócios mas era a pessoa mais amorosa do mundo e não escondia isso numa reunião ou num evento.»

Como geriu emocional e profissionalmente a morte do seu pai, enquanto, simultaneamente, também enfrentava uma doença oncológica?
Foi uma das etapas mais difíceis da minha vida. Eu via no meu pai o melhor que pode existir, e ainda vejo. Quando descobri que ele estava doente foi a pior sensação que senti e que acredito que sentirei. Depois desse choque e de olhar para ele, que era um guerreiro, o meu objetivo foi procurar uma solução. Procuramos todas as opiniões possíveis, em vários sítios do mundo, e eu achei sempre que iríamos ultrapassar aquela doença. Fui educada a que se me dedicasse muito a algo iria conseguir. Portanto, eu achava que me dedicasse ao tratamento daquela doença, mesmo que fosse muito difícil, nós iríamos conseguir. O meu pai era muito positivo, dizia que não tinha dor nenhuma e só me dizia para vir trabalhar para a ADA. E todos os dias eu só queria chegar a casa e levar-lhe boas notícias da empresa. Lembro-me de rezar para que aquela doença passasse para mim, para o meu pai ficar saudável. E quando descobri que estava doente, naquele processo, por estupidez máxima, achei que foi isso que aconteceu. E fiquei feliz. Não disse a ninguém, apenas às minhas irmãs. Mas acabou por não ser assim; eu fiz uma cirurgia e consegui tratar, mas o meu pai acabou por falecer. Mas eu nunca deixei que a minha doença tomasse 1% da minha atenção. Por um motivo, que eu ainda não sei qual é, aconteceu o que aconteceu ao meu pai e a dor nunca vai desaparecer, a dor só aumenta. Com o tempo, sinto cada vez mais saudade. Olho para este sítio, que é o escritório dele, e sinto que falta aqui ele. Mas fui uma sortuda por ter tido um pai como ele, ainda que tenha sido por tão pouco tempo. A família é o mais importante.


Enquanto líder e enquanto filha, quais foram os ensinamentos mais marcantes que o seu pai lhe deixou e que ainda hoje a acompanham no exercício da liderança?

Os principais valores que o meu pai me ensinou foram a humildade, a vigilância, – porque precisamos de ser vigilantes na nossa vida, nas nossas relações, em tudo – e o carinho. O meu pai era um homem de negócios mas era a pessoa mais amorosa do mundo e não escondia isso numa reunião ou num evento. Ele ensinou-me a ser autêntica e verdadeira comigo própria. Nunca devemos tentar ser algo que não somos, seja porque motivo for, devemos ser autênticos. 


Afirma que o seu propósito é inspirar e ajudar pessoas. Como é que esse propósito se manifesta no seu dia a dia enquanto CEO? 
Percebi muito nova qual era o meu propósito. Acho que devemos tentar perceber qual é o nosso propósito e abraçá-lo com felicidade. A gratidão é algo que o meu pai me ensinou e eu tento comunicar diariamente isso às pessoas com quem eu gosto de trabalhar. Gosto de comunicar e elogiar. Gosto de me sentir inspirada por todo o tipo de profissões, pela sua diferenciação. E quando se nota que fazemos algo com o coração, é totalmente diferente.

«Percebi muito nova qual era o meu propósito.»

 A distinção «30 under 30» da Forbes Portugal destacou a sua trajetória e performance. Que impacto teve este reconhecimento?
Fiquei muito feliz. Na altura questionei se o merecia realmente, porque há tantas pessoas que admiro imenso e que mereciam uma distinção… Aproveitei essa experiência para conhecer pessoas de outros setores, de outras áreas, aprendi muito. Fiquei super feliz por poder trazer o nome da família e a indústria para uma publicação tão importante. 


Sendo mulher e sendo jovem, num universo empresarial ainda maioritariamente masculino, alguma vez sentiu que a sua voz não era plenamente ouvida por esses motivos?

Eu nunca senti distinção por ser mulher. Acho que houve um trabalho de todas as mulheres de gerações passadas para hoje termos a sorte de não sentirmos essa diferenciação. Sou uma pessoa ainda mais feliz quando trabalho com mulheres, porque acho as mulheres mais trabalhadoras e focadas. Contudo, já senti diferenciação por ser muito nova. Ou seja, em salas onde normalmente estão homens de 60 anos para cima, está lá uma menina, de 31 anos. Isso eu acho um bocadinho chocante. Sinto que existe uma fase em que parece que as pessoas ainda me estão a testar, a tentar perceber se sei alguma coisa ou se não sei nada. Mas sinto que rapidamente as pessoas percebem os valores da empresa, da equipa, e os meus objetivos. 

Quem é a mulher que encontramos por detrás da CEO? 
A Marta – ou Martinha, como gosto que me chamem - é uma pessoa super feliz, verdadeiramente. Eu estou sempre a sorrir. Tenho a sorte de ter uma família que me ensinou a ter valores. A Marta quer sempre fazer o melhor pelos outros. Gosto muito de cantar, de ser engraçada, de criar bom ambiente para as pessoas. A Marta é amiga. Sou uma irmã babadíssima, amo as minhas irmãs. A minha mãe é a melhor mãe do mundo, foi ela que permitiu que tudo isto acontecesse, porque detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Sou uma sonhadora, acima de tudo, uma menina que vê o mundo todo cor de rosa.


Como cuida da sua saúde mental e onde encontra espaço para respirar, pausar e manter o bem-estar?

Gosto muito de falar sobre temas que não tenham nada que ver com nada. Tenho amigas que trabalham em setores completamente diferentes do meu e, quando quero desligar, gosto de falar com essas pessoas e perceber os problemas delas, até mesmo para conseguir relativizar. Gosto do exercício de desmembrar problemas e criar soluções. 


Existe algum objeto, marca, peça de moda ou ritual de lifestyle que considere uma verdadeira perdição – aquele que não dispensa? 

Eu acho que é muito importante descontrairmos, conseguirmos desanuviar. Viajo muito em trabalho, por isso quando preciso do meu repouso fico sempre em Portugal. Adoro Portugal. Gosto muito de estar comigo própria, adoro estar sozinha, a relaxar, num sítio bonito, a observar as pessoas... Adoro ir a um bom restaurante e ver um bom serviço a acontecer; adoro perceber, por exemplo, como um bom chef confeciona algo. Gosto muito de apreciar bons profissionais, porque isso me inspira e me renova energias. Desporto… é algo que deveria fazer mais e estou nessa busca, porque é muito importante.


Se projetarmos o horizonte a dez anos, como imagina o Grupo ADA e que legado gostaria de ver associado ao seu nome enquanto líder deste novo capítulo da história?

Temos a ambição de aumentar a nossa capacidade, para nos tornarmos a maior empresa do mundo na nossa tipologia, no que toca à capacidade. Queremos preservar a indústria europeia 100% amiga do ambiente e das pessoas, como nós somos, alcançando ainda mais certificações. Para além disso, queremos criar condições para distribuir em Portugal produtos que não produzimos cá, mas que são produzidos na Europa com os mesmos valores da ADA. Para isso, pretendemos construir novos armazéns na Península Ibérica. Queremos reforçar a nossa equipa de qualidade e o que ela representa. E temos o sonho de criar uma eco station, uma fábrica que irá recolher os desperdícios têxteis de toda a indústria e reprocessá-los, para que eles possam ser reutilizados, ou seja, criar uma nova fibra 100% reciclada. Enquanto Marta, o meu maior sonho é continuar a provar que é posível ter uma indústria forte em capacidade, que consiga, com os valores certos, continuar a ser competitiva e bem sucedida.

«Gosto muito de apreciar bons profissionais porque isso me inspira e me renova energias.»

Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira

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