Pedro Abrunhosa, Músico, Compositor e Cantor - «Interessa-me o que ainda não fiz, isso é que me fascina.»
Share
Escritor de canções, músico e cantor - Pedro Abrunhosa não cabe, na verdade, em tão poucos conceitos. Com mais de 30 anos de carreira, continua a ser um dos mais aclamados artistas portugueses, dos quais se aproxima com o seu talento mas também com a sua inquietude cívica. Contempla a vida apreciando a serenidade do tempo e dos prazeres, ciente da vontade de continuar a desenvolver-se a si próprio. Pedro Abrunhosa é um exemplo de longevidade artística e humana, que transparece nesta conversa livre e franca com a Villas&Golfe.
Ao longo de 30 anos de carreira, como é que mantém a identidade artística sem perder a autenticidade?
Creio que em qualquer atividade, comercial, industrial ou até política, aquilo que sustenta uma marca – e, claramente, estou a assumir que a partir de determinada altura Pedro Abrunhosa passou a institucionalizar-se como uma marca – é a identidade. Nunca tentei ser o que não sou. A música que faço é uma música que me sai das entranhas, e quando nos sai das entranhas é porque não se pode ser mais genuíno. Justifico o meu sucesso sustentado com genuinidade. E essa genuinidade é aliada, creio eu, e aqui sou advogado em causa própria, a uma qualidade intrínseca subjacente àquilo que eu faço. O empenho está lá, as horas de trabalho estão lá, e em qualquer área, o empenho e as horas dedicadas ao trabalho produzem qualidade.
«A música que faço é uma música que me sai das entranhas, e quando nos sai das entranhas é porque não se pode ser mais genuíno. »

Lançou no início deste ano o seu novo álbum, “Inverbo”, sobre o qual realça a simplicidade. Numa era de streaming, de redes sociais, o que o distingue?
Numa era de refrescos, de bebidas gasosas nas vending manchines, será que um bom champanhe, um bom Barca Velha, um bom Redoma Reserva perderam qualidades? Música e entretenimento são coisas diferentes. A música sempre foi para a humanidade um local de elevação, é uma conexão com o divino. […] O streaming não altera essa propriedade ontológica do que é a música. A música é uma coisa para nós gostarmos e pormos um like? Ou continua a ser um momento de transcendência? É por isso que a música no streaming, na qual eu também estou, é uma música de voracidade como é uma Coca-Cola. Consome-se rapidamente, mas não cria memória. O que cria memória é sabermos com quem nos sentamos à mesa, para beber um Batuta 2022 Reserva. A música faz parte disso. Não é um instante que nós vivemos que define aquilo que eu faço. O que define o que eu faço é querer continuar a conectar as pessoas a esse espaço mágico dentro delas. É o que este álbum faz. Neste álbum é notória a minha despreocupação em relação ao momento que atravessamos. Foi feito um estudo económico no IPAM sobre o impacto económico da minha digressão, e, apesar dessa aparente distância com aquilo que é o mercado, eu tenho os pés muito dentro do mercado. A música que eu faço concretiza-se ao vivo. Não é pelo facto de eu não ligar ao algoritmo que a minha música se afasta das pessoas, pelo contrário, é bastante próxima delas.

Enquanto figura pública é socialmente muito interventivo. O que mais sente que mudou no mundo – para melhor e para pior – desde “Viagens”?
Muita coisa… Mas não podemos olhar para o passado como um sítio de excelência. O passado é o passado. Não considero que o passado fosse melhor, era outra coisa. Vivemos tempos políticos e sociais muito instigados pelas redes sociais e pelo algoritmo, um tempo muito polarizado. Isso não existia antes da internet, que tem a vantagem profunda de podermos consultar o mais distante conhecimento e renovado aspeto científico e literário, mas que a esmagadora maioria das pessoas utiliza para insultar os outros. Isso revela muito sobre o tempo que vivemos. Até há pouco tempo se aparecesse alguém a dizer que a terra era plana, imediatamente o seu amigo mais próximo diria que ele era um idiota, ele desistia e parava ali. Agora esse idiota encontra outros idiotas e falam uns com os outros. A internet conseguiu pôr os idiotas a falar uns com os outros, o que é perigoso para o resto do mundo. Temos uma vaga político-económica a avassalar o mundo com a sua idiotice e alguns já são Presidentes da República. Isto é o resultado que a humanidade deu a esse veículo maravilhoso chamado internet. Há quem o faça de outra maneira, mas infelizmente quem o faz de outra maneira não chega à Presidência da República. Na Cimeira do G7, os atuais “líderes do mundo” reunem-se com os patrões da inteligência artificial, com os oligarcas, vão ouvi-los e provavelmente receber algumas instruções. Há uns anos atrás seriam os sociólogos, os demógrafos, os cientistas e os académicos a ser consultados para saber o que o povo precisa, se de mais escolas, se de melhor educação. Agora vão lá os senhores da IA e as respostas são de que o povo precisa de mais anúncios, de mais meninas em biquíni, de mais distração, e, sobretudo, de mais manipulação, que serve para uma claríssima manipulação política.
«A internet conseguiu pôr os idiotas a falar uns com os outros, o que é perigoso para o resto do mundo.»
Sente que hoje vive e cria com mais urgência ou com mais contemplação?
A contemplação é um palavra muito bonita, e faço o meu trabalho exatamente com contemplação. Eu trabalho no silêncio. O que não quer dizer que as músicas também não tenham, muitas vezes, o seu lado de raiva.
Fora dos palcos, que hábitos são essenciais para si no sentido de manter a sua qualidade de vida?
Acho fundamental e ponho em prática uma alimentação saudável, dentro dos parâmetros que eu considero ser o saudável. Mas eu tenho duas atividades: a escrita de canções e estar em cima de um palco. E em cima de um palco tenho de estar relativamente em forma. Faço desporto de uma forma religiosa, todos os dias tenho o hábito de correr 6 km a uma velocidade relativamente elevada e fazer uma hora e meia de desporto aplicado, científico, rigoroso. Por outro lado, tento praticar a acuidade intelectual. Ler coisas difíceis, ser curioso, vasculhar, continuar a desenvolver-me intelectualmente. O cérebro não é um músculo mas tem essa capacidade de ser treinado, de ser estimulado. Eu vou ao ginásio exatamente para não ganhar camadas adiposas, e o cérebro também precisa de não ser uma massa disforme. E isso só acontece se ele for desafiado.
O que considera luxo?
Ter tempo para uma conversa como esta. Sentar-me a ler... Eu acho que a leitura é um repositório de tempo. Utilizar tudo o que seja possível para abrandar o tempo. O desporto faz parte disso, é uma forma de abrandarmos o dia a dia. Evito estar agarrado ao telefone, não tenho notificações, estão todas desativadas.
A sua forma de vestir é marcante e criativa. O que o inspira? Onde entra a moda na sua vida?
A moda entrou na minha vida muito cedo. No Porto sempre ouve uma grande conexão à moda, a maioria dos primeiros estilistas que começavam a aparecer eram do Porto. Mas a moda tem de ser funcional, tem de servir, não podemos ser subservientes em relação à moda. E nisto não falo só de roupa, falo de tudo. Lá porque toda a gente usa qualquer coisa, não quer dizer que o vá fazer. A minha forma de vestir é sempre uma tentativa de que eu vista a roupa e não de que a roupa me vista. Em mim, gosto de uma certa distância entre a roupa de rua e a roupa de palco, porque são mundos diferentes. Mas tenho atração por uma certa exuberância elegante.
Há algum gosto particular no seu mundo material que o faça perder a cabeça?
Do mundo material… os livros. Eu sou um bibliófilo. Quando entro na casa das pessoas, a primeira coisa que me atrai é ver os livros que estão nas prateleiras, acho que isso também diz muito sobre as pessoas. Não tenho relógios nem coisas do género, não sou uma pessoa muito materialista. Tenho muita música, claro.

E golfe, costuma jogar?
Bem… Da última vez que fui fazer um jogo de golfe, deitei duas pinhas abaixo. E o caddie perguntou-me “Mas vem jogar ou vem às pinhas”?
Há algum lugar no mundo onde sente que o tempo abranda?
Há, mas não lhe vou dizer.
Que planos, desejos ou sonhos tem para si para os próximos anos?
Fazer o que ainda não foi feito. Porque o que está feito, sinceramente, interessa-me pouco. Interessa-me o que ainda não fiz, isso é que me fascina. Fui estudar filosofia tardiamente, mas continua a interessar-me isso, aprender e descobrir.
«Da última vez que fui fazer um jogo de golfe, deitei duas pinhas abaixo. E o caddie perguntou-me “Mas vem jogar ou vem às pinhas”?»
Que legado gostaria de deixar, não apenas na música, mas na forma como viveu a sua vida?
Acho que pensarmos nisso é um bocadinho arrogante. Humildade é saber que alguma coisa ficará, mas não dar muita importância a isso. Sermos modestos às vezes penaliza a valorização que fazemos de nós próprios, mas sermos modestos post-mortem já é não sermos humildes. Eu não penso nisso. O único legado em que penso é em relação aos meus filhos mas não é um legado material, é um legado de valores.
Texto: Carla Martins
Fotos: Direitos Reservados