Nuno Baltazar, Criador de Moda de Autor: «[…] creio que um dos meus grandes contributos para a moda portuguesa foi permanecer. »

Nuno Baltazar, Criador de Moda de Autor: «[…] creio que um dos meus grandes contributos para a moda portuguesa foi permanecer. »

Falar de moda portuguesa nos últimos 25 anos é, inevitavelmente, falar de Nuno Baltazar. Com uma trajetória marcada pela identidade e por um olhar profundamente autoral, é através das suas criações que materializa um pensamento poético, revelador de tantas inspirações e de tantas histórias. Há uma paixão serena pela beleza da arte (e da vida) que se sente nesta conversa com Nuno Baltazar, para a Villas&Golfe. 

A Villas&Golfe celebra este ano 25 anos de história. Quando olha para estes mesmos 25 anos na moda portuguesa, quais considera terem sido as maiores transformações e em que momentos sente que também ajudou a escrevê-las? 
Para mim, aquilo que mais marca o panorama da moda de autor nestes 25 anos é o surgimento e o crescimento de tantas novas marcas de autor, que se têm vindo a consolidar. Enquanto autor resiliente, creio que um dos meus grandes contributos foi permanecer. Foi ter desenvolvido uma marca, uma identidade reconhecível, que no fundo também sirva de identidade para o próprio país na área da moda. Acho que isso é fundamental. Temos referências sem as quais não conseguimos imaginar a moda portuguesa, como a Ana Salazar, o José Manuel Gonçalves, dentro de uma primeira vaga, e depois o Luís Carvalho, o Gonçalo Peixoto, a Ana Duarte. Eu faço parte desse grupo de pessoas, dessas gerações. No fundo, já sou um sénior.

 «Gosto muito da ideia de poder descobrir detalhes, aprofundar, ter tempo de dar guinadas e mudar de direção […]» 

Qual considera ter sido o momento que melhor definiu o seu percurso?
Considero que foi um momento difícil na minha vida. Um período em que a minha mãe estava doente, com cancro de mama, e eu tinha de acompanhá-la e tinha, simultaneamente, de criar uma coleção. E, portanto, tinha de perceber que era possível encontrar um universo rico o suficiente dentro de mim e ter mecanismos que me ajudassem a continuar a fazer um trabalho autoral, não desvirtuando aquilo que eu estava a passar no momento. Criei uma coleção que refletia esse meu estado de espírito. Foi só nesse momento em que percebi que há uma grande diferença entre o que a coleção é e o momento da apresentação. Eu até posso fazer uma apresentação mais dramática, mais intensa, mas depois a forma como as pessoas se relacionam com ela não é necessariamente igual à forma como eu a apresento. Ou seja, não quer dizer que depois a forma como as pessoas vão reinterpretar aquilo que eu proponho não seja completamente diferente.

 

O seu trabalho sempre revelou uma identidade muito própria, reconhecível sem nunca depender de tendências passageiras. Como se constrói uma assinatura criativa que permanece atual ao longo de tantos anos? 
Eu acho que isso é algo sobre o qual eu sempre tive consciência, talvez por admirar tantos outros colegas e as minhas maiores referências desde o início serem designers que inclusivamente já tinham morrido. Conhecer a história deles, perceber o que é que está por trás de cada trabalho, sempre foi algo que me deu uma perceção muito clara de que um criador de moda de autor tem sempre que ter um trabalho muito pessoal. E a sua forma de ver o mundo e as situações, as suas próprias vivências, refletem- se no seu trabalho, é isso que o torna absolutamente pessoal. Acho que a característica mais fundamental pra qualquer criador é ser muito curioso, é ver pra lá da superfície.

Onde encontra hoje inspiração e como transforma essas influências em peças que continuam a responder à mulher contemporânea? 
Nas pessoas. Se há coisa que eu adoro fazer é ver documentários sobre figuras conhecidas, que podem até já não estar entre nós. Por exemplo, eu adoro o trabalho da Paula Rego, mas gosto mais ainda da personalidade dela, de perceber o que está por detrás disso. Ou do Mário Cesariny, por exemplo. E de tantos outros artistas, alguns execráveis também. A minha inspiração não é uma coisa que venha do imediato. Vejo a minha cabeça como um baú, onde vou acumulando vivências, experiências, conversas que eu gravo na minha memória, porque de alguma maneira, no momento em que isso aconteceu, foi verdadeiramente especial. Em algumas das vezes eu tenho automaticamente a consciência de que esse momento vai ser revelador no futuro. 

 

 

Depois de tantos reconhecimentos e de uma trajetória que assume já 27 anos, o que o continua a desafiar e a entusiasmar?
O que me entusiasma é mergulhar mais fundo. Tem muito a ver com um lado emocional. Gosto muito da ideia de poder descobrir detalhes, aprofundar, ter tempo de dar guinadas e mudar de direção, não estar preso a uma ideia inicial, poder ter essa liberdade. No período pós-pandemia fiz uma das coleções mais importantes para mim até agora, a que chamei “Ensaio”. Decidi olhar para peças de roupa que eu tinha desenvolvido noutras coleções e que por algum motivo as considerava um fracasso. Decidi que ia debruçar-me sobre o meu erro. Então esse trabalho foi exatamente fazer com que aquela peça pudesse ter uma nova vida, uma outra reinterpretação. Quando regresso a determinadas ideias sinto que estou a evoluir. Não sendo um escritor, a minha forma de escrever histórias é através da roupa.

Ao longo da sua carreira vestiu figuras incontornáveis da cultura e da televisão portuguesas. O que procura compreender numa pessoa antes de desenhar uma peça para ela?
As suas fragilidades. Influenciam-me no sentido em que as fragilidades de alguém podem ser o seu ponto forte e/ou o seu ponto fraco. Uma fragilidade é algo que potencia, de certa forma, uma insegurança. Portanto, se eu conhecer a fragilidade, eu consigo trabalhar a segurança, dando àquela pessoa algo que a faça sentir mais mais empoderada, conhecendo a sua própria natureza. Muitas vezes também preciso perceber qual é a situação daquela pessoa, se vai apresentar, se vai cantar, em que situação vai estar, como é que ela se relaciona. E depois perceber qual a fórmula que eu melhor posso entregar àquela pessoa para que, naquela situação, esteja com o seu potencial máximo. 

«[…] hoje em dia, a mulher que eu adorava mesmo vestir era a Fernanda Torres. Ela reúne uma série de coisas que eu acho absolutamente inspiradoras.»

 

Há alguma figura que desejasse muito vestir e que ainda não vestiu?
Um dos meus sonhos sempre foi vestir a Meryl Streep, que eu adoro. Continuo com a mesma vontade. Mas hoje em dia, a mulher que eu adorava mesmo vestir era a Fernanda Torres. Ela reúne uma série de coisas que eu acho absolutamente inspiradoras. 

Na sua opinião, o que distingue uma pessoa bem vestida de uma pessoa verdadeiramente elegante? 
Elegância não tem a ver com tamanho, tem a ver com a fisicalidade, com a autenticidade, com o autoconhecimento. Há pessoas que não conseguem ser elegantes porque não se conhecem verdadeiramente. Uma pessoa bem vestida pode ser só alguém que veste aquilo que lhe dão para vestir exatamente daquela maneira, sem acrescentar nada. Mas eu gosto imenso quando alguém veste roupa minha e lhe acrescenta algo que não é meu, a veste de uma maneira completamente diferente daquilo que eu imaginava. Isso dá-me imenso prazer, porque significa que aquela peça deixa de ser minha e passa a ser mesmo daquela pessoa. Acho que a elegância também se pode construir, e aí entra a curiosidade e a ousadia de experimentar, sem medo de falhar.

«Não sendo um escritor, a minha forma de escrever histórias é através da roupa.»

 

Para si, o que distingue verdadeiramente uma peça de luxo hoje em dia? E o que é um luxo para si?
Eu acho que uma peça de luxo está, inevitavelmente, relacionada com a qualidade dos materiais e com a forma como é construída. O luxo pressupõe que a construção tenha tempo de vida. Secalhar o luxo é o tempo, como em tantas coisas da vida. O tempo para desfrutar, o tempo para que o objeto seja trabalhado com carinho, rigor, detalhe. Luxo é também ser natural. 

«[…] gosto imenso quando alguém veste roupa minha e lhe acrescenta algo que não é meu, a veste de uma maneira completamente diferente daquilo que eu imaginava.»

Qual é a sua peça de estilo de eleição?
Gosto muito desta lâmina que uso ao peito, há vinte anos. É uma lâmina que foi a Moda Lisboa que me deu no dia em que eu fiz o meu primeiro desfile sozinho no evento. Portanto, tenho uma relação afetiva muito grande com este objeto, que me acompanha sempre. No que toca a peças de roupa, gosto muito de camisas. 

Que criação elegeria com a maior da sua carreira?
Uma das tais peças que eu considerava um erro e que originaram uma coleção.  Um vestido cinzento, num tecido com uma seda bordada com paetês bronze. O tecido era maravilhoso, o vestido estava super bem construído, mas no desfile inicial achei que não acrescentava rigorosamente nada. Quando decidi fazer esse trabalho converti-o num colete feminino a partir de um colete de homem e a forma como incorporei as duas coisas transformou-o totalmente noutra coisa. E passou a ser tanta coisa numa peça só. Representa também a minha capacidade de olhar pra algo e de lhe dar uma outra possibilidade. Hoje em dia faz parte do acervo do MUDE - Museu de Design em Lisboa. Foi um exercício de psicodrama.

 

Quando não está a desenhar e a viver o seu lado profissional, o que gosta de fazer?
Gosto muito de ir a eventos culturais. Pode ser uma ida ao cinema, de preferência cinema de rua. Gosto de ir a museus, a espetáculos de dança contemporânea. De ir à praia.

E como cuida da sua saúde mental e física? O que faz para “desligar”? 
Essa é uma grande dificuldade que eu tenho. Mas para mim é fundamenal estar em contato com a água. Esse contacto é algo que verdadeiramente me desconecta, acho que é uma questão intrauterina. Tenho como objetivo futuro praticar natação. E tenho o Júlio, o meu cão, que me ajuda muito a desconectar, com o carinho único que só os animais nos dão. 

O que gostaria ainda de criar que nunca teve oportunidade de concretizar? Quais os projetos para o futuro?
Profissionalmente, gostava muito, e estou a trabalhar nesse sentido, de poder desenvolver coleções cápsula para uma grande superfície. Ou seja, conseguir ter um projeto de moda acessível, para o máximo possível de pessoas. Do ponto de vista pessoal, mas no fundo também profissional, desenvolver outras competências artísticas, de construção de outras coisas, de outras peças que não necessariamente peças de roupa.

Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira

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