Fernando Melo, Jornalista e crítico astronómico - Vinho e luxo: (muito) para lá do preço

Fernando Melo, Jornalista e crítico astronómico - Vinho e luxo: (muito) para lá do preço

Ao longo de quase quarenta anos de prática profissional no fantástico mundo do vinho, acumulei sobretudo perplexidades. Para mim, o luxo principal está nos momentos de ouro que as pessoas, viagens e provas me proporcionaram. Logo a seguir, o privilégio de sempre ter ligado a bebida a um ritual culto, com expressa renúncia ao excesso de consumo. E finalmente, constato que quanto mais entro no mundo dos vinhos, mais tenho ainda para aprender. Quando se é bem iniciado, o caminho é inesgotável. Ao contrário do que muitos possam pensar, o dinheiro não é o mais importante. É a disponibilidade interior o aspeto mais crucial.
Luxo é tempo. O prazer do vinho não acontece cedo na vida. Há que dar tempo ao tempo e perder o medo da experiência. Assume-se e aviva-se todo um ritual que invariavelmente comunicamos aos nossos filhos e amigos. Incluo neste aspeto especial aqueles vinhos com que homenageamos os nossos, abrindo colheitas de anos importantes nas suas histórias.
Luxo é partilha. Nada me dá mais prazer do que partilhar com amigos, filhos e parentes uma boa garrafa de vinho. Atrevo-me mesmo a postular que sem partilha não há vida no mundo do vinho. Segue-se como corolário que a glória está na mesa, na harmonização com comida. E se temos gosto em cozinhar e pôr na mesa pratos importantes na família, é imperativo fazê-lo com os vinhos certos.
Luxo é colecionar. Ter uma garrafeira que cresce connosco, à qual vamos acrescentando ao mesmo tempo novos valores e descobertas, é o que a torna verdadeiramente nossa. Sabemos que tudo o que dela consta está orientado para os nossos momentos mais especiais. Abrir vinhos que celebram certos momentos, como aniversário de filhos, é um dos destinos mais nobres que lhes podemos dar.
Luxo é beber. O vinho ganha vida própria quando o bebemos. Os que dizem que não gostam, na verdade nunca foram devidamente iniciados. Faz parte do ritual a abertura de uma garrafa especial. É muito importante honrar o vinho com bons copos. Decantar um vinho é prepará-lo com requinte para a melhor fruição possível. 
Luxo é comprar. O tempo ensina-nos a frequentar leilões vínicos, a comprar online, e a dar valor real às boas compras. Nunca nos pode faltar na mesa o vinho de que mais gostamos. Por isso, mais do que comprar para ter, é muito importante desenvolver a prática de comprar bem, a bons preços e com boa qualidade. Mesmo numa perspetiva estritamente hedonista, é hábito salutar e que nos faz crescer. É proibido esbanjar, nos tempos que correm.

Fernando Melo
Jornalista e crítico astronómico

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