Paulo Abrantes Diretor-geral do Grupo Decisões e Soluções - O imobiliário em Portugal: do dinamismo à moderação

Paulo Abrantes Diretor-geral do Grupo Decisões e Soluções - O imobiliário em Portugal: do dinamismo à moderação

Desde 2020, o setor imobiliário em Portugal viveu uma transformação intensa. Os preços dispararam, a procura internacional consolidou-se, as rendas subiram de forma acentuada e as tensões sociais ganharam visibilidade, sobretudo nas grandes cidades. 
O índice de preços da habitação cresceu 9,1% no espaço de um ano, de acordo com o INE, com um mercado sobrevalorizado desde 2017, de acordo com o Banco de Portugal, já que o ritmo da subida de preços superou bastante o crescimento dos rendimentos e da economia. É esta discrepância que alimenta a sensação de que «o mercado subiu mais do que devia» — e que, mais cedo ou mais tarde, terá de se corrigir. Entretanto, os números do arrendamento confirmam a pressão do mercado: rendas mantêm-se em máximos e a oferta de longa duração continua escassa devido ao peso do turismo e a preferência pelos arrendamentos de curta duração. A perceção pública de crise habitacional é, portanto, bem fundamentada.
Mas começamos a ver sinais de mudança. As medidas anunciadas pelo Governo, nomeadamente a redução do IVA na construção - enorme incentivo aos investidores e às empresas de construção – ou a da tributação para 10% para os proprietários que fixem o valor de arrendamento num teto máximo de 2300 euros, podem, de facto, vir a criar respostas reais.
Olhando para 2026, podemos antecipar alguns cenários, entre eles uma possível desaceleração moderada, com preços da habitação a crescer entre 2% e 6%, refletindo um mercado mais maduro, taxas de juro estabilizadas e algum reforço da oferta. Por outro lado, e num quadro mais otimista embora menos provável, talvez se possa assistir ao regresso a crescimentos próximos dos dois dígitos, caso se verifique uma descida rápida das taxas de juro e um apetite renovado do investimento estrangeiro.
Na minha opinião, a tendência será a da moderação, apesar da instabilidade que vivemos na Europa e no mundo. O imobiliário português continuará dinâmico, mas 2026 será o ano em que o mercado passará a refletir melhor as condições reais da economia e do poder de compra das famílias. Já os decisores continuarão a ter em mãos uma tarefa urgente: acelerar os projetos de habitação acessível, gerir o equilíbrio entre turismo e cidade habitável e criar rapidamente soluções para um mercado que ainda está em crise. 

Paulo Abrantes
Diretor-geral do Grupo Decisões e Soluções

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