Chef Júlia Oliveira – Divorciar-me deu-me uma força interior que eu jamais pensei que teria.

Chef Júlia Oliveira – Divorciar-me deu-me uma força interior que eu jamais pensei que teria.

Entre muros carregados de história e uma cozinha onde a tradição é tratada com emoção, Júlia Oliveira construiu muito mais do que um restaurante de sucesso. No Mosteiro, no The Lince, a chef encontrou o cenário perfeito para afirmar uma identidade culinária profundamente portuguesa, feita de partilha, memória e afeto — os mesmos valores que sempre guiaram o seu percurso pessoal e profissional. Hoje, o Mosteiro é reflexo da sua assinatura: uma casa onde a qualidade se sente à mesa, a família é ponto de partida e de chegada, e o sucesso nasce da consistência, da autenticidade e de um amor autêntico pela cozinha.


O seu percurso na cozinha tem sido marcado por consistência e identidade. Quando olha para trás, que momentos foram decisivos para moldar a Chef Júlia Oliveira que existe hoje?
Sinceramente, o momento decisivo foi a minha separação. Foi uma fase bastante complicada da minha vida porque tinha dois filhos menores, e tinha sido uma relação de onde saí completamente abafada. Divorciar-me deu-me uma força interior que eu jamais pensei que teria. Comecei a lutar por mim e realmente percebi que tinha muita capacidade. Comecei a ser bastante elogiada pelos meus clientes e a minha casa – na altura, o Restaurante Dona Júlia, em Braga – foi-se construíndo com mais valores, que me levaram onde hoje estou. Entretanto, não por minha vontade, o restaurante foi vendido, e o proprietário do The Lince, que era já um bom cliente meu, fez-me o convite para a criação do Mosteiro. Numa altura em que eu estava com uma depressão, esse desafio ajudou-me muito a fazer renascer a minha autoestima. 

A paixão pela cozinha nasce, muitas vezes, de memórias. Há algum momento, sabor ou ritual que tenha despertado esse gosto e que ainda hoje influencie a sua forma de cozinhar?
Eu ainda hoje não consigo perceber muito bem o motivo, eu não tenho formação de nada. Tudo começou quando eu ainda era criança. Nós eramos emigrantes e os meus pais trabalhavam e eu, a mais velha dos irmãos, fui forçada a começar a cozinhar. E acho que sempre tive esse dom da cozinha. Os meus irmãos foram crescendo e era eu que fazia as festas da família, porque a minha mãe, infelizmente, ficou bastante doente. Depois, quando casei, na altura bastante jovem, eu e o meu marido decidimos abrir um espaço numa casa antiga que a minha sogra tinha na altura. E começou assim o meu percurso na restauração. Comecei por fazer petiscos, os clientes começaram a gostar, as pessoas começaram a fazer filas para conseguir mesa, e, entretanto comecei a receber gente de Braga, Guimarães… Num espaço onde se comia de pé, de prato na mão. Na altura fomos considerados os tasqueiros mais jovens da Sé. Depois abrimos um espaço mais moderno, começamos a servir prato do dia, depois a servir à lista, e consegui chegar ao patamar que cheguei depois. O meu nome individual nasceu mesmo depois da minha separação.

O Mosteiro surge como um novo desafio num espaço carregado de história. O que a seduziu neste projeto no The Lince?
O que me seduziu foi a história do edifício. Sempre gostei de História, do que está ligado aos nossos antepassados, de pedra… e isso foi o que me motivou a estar aqui, o espaço em si. Ajudei a fazer a carta, uma carta tradicional portuguesa, de partilha, e hoje trabalho no restaurante Mosteiro com o meu nome. Começamos a encher a casa logo desde o início e, hoje em dia, o restaurante Mosteiro praticamente já se torna autónomo do hotel em si. Graças a este projeto a minha autoestima renasceu. Vi que realmente era uma mulher lutadora e hoje estou aqui felicíssima da vida, realizada. E há muitos projetos novos a caminho.

Como foi o processo de criar uma proposta gastronómica que respeita a herança do espaço, mas que ao mesmo tempo reflete a sua assinatura enquanto chef?
Para mim foi fácil porque eu já a trazia comigo. Durante 20 anos essa foi a forma como trabalhei e foi sempre com muito sucesso. Foi só encaixar. Os clientes começaram a saber que eu estava aqui e começaram a procurar-me. Foi aí que eu percebi que também era uma marca.

«Graças a este projeto [o Mosteiro] a minha autoestima renasceu. Vi que realmente era uma mulher lutadora […].»

Que pratos são mais marcantes n’O Mosteiro? E que tipo de experiência quer que o cliente leve consigo?
Eu adoro brincar com entradas tradicionais portuguesas. E tenho tido histórias engraçadas com clientes. Por exemplo, o Tozé Brito veio aqui há uns meses comer com a irmã e eu fui à mesa perguntar se ele tinha gostado. Eu tinha feito umas batatas à espanhola. Ele levantou-se a chorar, abraçou-me e disse «Obrigada, eu hoje almocei com a minha mãe. Há 30 anos que a minha mãe faleceu mas, hoje, senti exatamente o sabor dos cozinhados da minha mãe». A melhor coisa que me podem dar são elogios destes. Se cheguei aí, foi porque realmente foi bom. Os pratos mais marcantes do Mosteiro são o cabrito e a vitela; no fundo, os pratos da partilha e da família, aquilo que o Mosteiro também representa. Mas há outros, como o arroz de robalo, que vendemos muito, e carnes maturadas.

Quando se fala em luxo na cozinha, de que estamos realmente a falar? Ingredientes raros, técnica, tempo, emoção ou tudo isso em conjunto?
Para mim, de amor. É mesmo amor. É isso que eu digo aos meus funcionários, ensino-os da mesma forma que eu trabalho. Eu gosto de transmitir a paixão aos miúdos. Se trabalharmos com paixão e com amor, tudo aparece feito. É pegar na comida como se fosse ovos, transportá-la com delicadeza, transformá-la com carinho.

«Os pratos mais marcantes do Mosteiro são o cabrito e a vitela; no fundo, os pratos da partilha e da família, aquilo que o Mosteiro também representa.»

Olhando para o futuro, que caminhos gostaria ainda de explorar enquanto chef?
Estou sempre à procura de novos pratos, de novas tradições. Eu leio muito, procuro muito livros antigos relacionados com a cozinha tradicional portuguesa. Quero fazer mais e melhor. Acho que estou numa fase completa da minha vida. Estou num espaço lindo, o meu nome está a ser bastante destacado e consigo rever os meus clientes constantemente, o que também é uma alegria para mim. Voltar a casa e estar com a família, a vida do dia a dia.

O que é para si um verdadeiro luxo no dia a dia – dentro e fora da cozinha?
Um luxo para mim é conviver com os clientes, poder estar com as pessoas que eu mais amo.

Quando não está a cozinhar, como gosta de desfrutar do seu tempo?
O meu tempo livre é para viajar e provar novos sabores. Gosto muito de comer e essa parte de comer e de beber é um prazer grande que eu tenho na vida. Inspira-me, para continuar..

Há rituais que façam parte da sua rotina e que a ajudem a manter foco, criatividade e bem-estar?
O que me faz sentir bem são os elogios dos clientes. Ir à sala e os clientes começarem a bater palmas, isso é a minha vitamina, sem pre foi. O elogio dá-me forças para seguir em frente na restauração. 

«O que me faz sentir bem são os elogios dos clientes. Ir à sala e os clientes começarem a bater palmas, isso é a minha vitamina, sempre foi.»

 

Texto: Carla Martins 
Fotos: Ana Nogueira

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