Cozido à Barrosã - À mesa com a “Avó Chiquinha” e a tradição de Montalegre

Cozido à Barrosã - À mesa com a “Avó Chiquinha” e a tradição de Montalegre

Foi na sua cozinha típica, entre o vapor dos potes de ferro pousados sobre a lareira, que Idalina Garcia Gomes, mais conhecida por “Avó Chiquinha”, recebeu a equipa da Villas&Golfe. Nesta reportagem, sentimos o sabor da tradição e o carinho das gentes de Montalegre ainda antes de ir para a mesa, mal sabíamos que nos acolheriam verdadeiramente como família.
Os gestos da confeção do Cozido à Barrosã repetem-se há gerações. Natural de Vilar de Perdizes mas residente em Montalegre desde o casamento, Idalina aprendeu a preparar o Cozido à Barrosã com a mãe e nunca mais deixou que esta receita se perdesse. Faz parte da sua vida desde que começou a cozinhar e continua a confeccioná-la com o mesmo respeito pelos ingredientes e pelos tempos que a tradição exige.

[…] este não é um simples cozido à portuguesa. É um Cozido à Barrosã, profundamente ligado ao território, ao clima e às gentes […].

Segundo a “Avó Chiquinha”, esse é, aliás, o truque para o sucesso de um bom cozido: qualidade nos ingredientes e respeito pela sua confeção. Porque este não é um simples cozido à portuguesa. É um Cozido à Barrosã, profundamente ligado ao território, ao clima e às gentes que há séculos aprenderam a conservar os alimentos para enfrentar os rigorosos invernos da serra.



Tudo começa muito antes de o lume ser aceso. A carne de porco é salgada, pendurada no fumeiro e sujeita a um processo lento e natural de cura. Aqui não existem atalhos nem aromas artificiais. O fumo nasce apenas de pequenas brasas recuperadas dos fornos a lenha e de alguns paus de carvalho, suficientes para envolver delicadamente a carne sem lhe retirar a autenticidade. Depois, é o frio característico de Montalegre que faz o resto, secando lentamente cada peça e concentrando-lhe o sabor.
Só então chega o momento da confeção. O pote de ferro e a lareira continuam a ser elementos indispensáveis, preservando uma forma de cozinhar onde o tempo vale tanto como os ingredientes. À carne fumada juntam-se a couve, a cenoura e os restantes produtos da terra. Mais recentemente, a “Avó Chiquinha” acrescentou ao prato o acompanhamento de um arroz de feijão, uma pequena evolução da receita original, sem nunca lhe alterar a essência. Nós adoramos!



Idalina aprendeu a preparar o Cozido à Barrosã com a mãe e nunca mais deixou que esta receita se perdesse. 


A qualidade da matéria-prima continua a ser o segredo maior. O porco é criado na região e cada ingrediente respeita a origem deste território singular, onde a natureza, o pasto e o clima contribuem para sabores impossíveis de reproduzir noutro lugar.
À mesa, compreende-se facilmente porque este prato atravessou gerações. O fumeiro revela-se intenso, mas equilibrado; a carne desfaz-se com delicadeza – há chouriço de abóbora, sangueira, chouriça de carne, pernil, vitela, pé, cabeça, orelha e focinho de porco; a couve absorve os sucos lentamente libertados durante horas de cozedura e cada garfada transporta a autenticidade de uma cozinha que nunca precisou de reinventar-se para permanecer extraordinária.



O pote de ferro e a lareira continuam a ser elementos indispensáveis, preservando uma forma de cozinhar onde o tempo vale tanto como os ingredientes. 

E extraordinárias são também as pessoas. Na Casa da Avó Chiquinha, que também é um alojamento rural de charme, Idalina e os filhos sabem receber os seus convidados como família. E servir-lhes uma refeição inesquecível. Dizem-nos que quem prova este Cozido à Barrosã pela primeira vez dificilmente esquece a experiência e nós comprovamos. 
Há quem lhe chame único. Outros dizem que é um sabor "do outro mundo". Talvez porque, cada vez mais, o verdadeiro luxo não esteja na complexidade, mas na honestidade de uma receita que continua a ser preparada como sempre foi: com tempo, com fogo, com produtos da terra e com a sabedoria de quem aprendeu que as melhores tradições não se escrevem — passam-se de geração em geração, à volta de uma mesa. Entre família e amigos.

Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira

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