Deolinda Fontainha, Fundadora e CEO da Tasquinha da Linda - «Sirvo o que gosto, com amor.»
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Foi com a genuína simpatia do Minho que Deolinda Fontainha e os filhos receberam a equipa da Villas&Golfe para uma conversa, onde a sua história de vida se revela inseparável da história da Tasquinha da Linda. Ícone gastronómico para quem aprecia peixe e marisco, o espaço, criado num antigo armazém de pesca, convida-nos a saborear o mar com tempo e (c)alma.
Dona Deolinda, fale-nos da sua história… Como surge na sua vida a ligação à cozinha e esta influência do mar?
Toda a minha vida trabalhei com peixe, sou filha de um falecido homem do mar. Nunca estudei, só trabalhei, porque foi o que me ensinaram a fazer. Tive uma peixaria, depois uma empresa de exportação de peixe e pescada. Na altura das Festas da Agonia organizava-se o Baile do Pescador, onde se comia, bebia, dançava… Um dia decidi, juntamente com o meu pai e com a minha família, fazer esse baile. Contratei uma orquestra e durante três anos fiz a festa no adro aqui do restaurante. Eu tinha um armazém grande de peixe, onde hoje é a minha cozinha, e depois fui adquirindo devagarinho os outros espaços do restaurante. Foi por aí que comecei, faz este ano dezoito anos. A minha cozinha é a cozinha que a minha mãe me ensinou, a cozinha tradicional da ribeira. É feita da forma mais simples possível, para que se possa saborear o melhor que tem o nosso mar. Não é preciso muita coisa se o produto for fresco, não é necessário acrescentar nada. Fui crescendo pé a pé e tentei sempre melhorar, sou uma mulher muito realizada.
«A minha cozinha é a cozinha que a minha mãe me ensinou, a cozinha tradicional da ribeira. »

A Tasquinha da Linda nasce, como referiu, num antigo armazém de pesca recuperado junto ao Castelo de Santiago da Barra. Que fascínio surgiu por este espaço ao ponto de o transformar num restaurante?
Onde é hoje o restaurante existia um armazém velho que um senhor me tinha emprestado, onde se salgava peixe e fazia transformação de carapau, por exemplo. Quase numa conversa de brincadeira, acabei por adquirir esse armazém, reestruterei o espaço e assim nasceu a Tasquinha da Linda. Como eu fazia sempre os bailaricos na rua, as pessoas tinham o hábito de dizer “Vamos ali à Tasquinha da Linda”. E foi por aí que nasceu o nome do restaurante.
A Tasquinha da Linda é hoje uma referência em Viana do Castelo e foi, inclusivamente, distinguido como Bib Gourmand pelo Guia Michelin. O que significou este reconhecimento para si e para a sua família?
É um reconhecimento muito bom, mas sem dúvida que se não fosse o cliente, ele não existia. O mais importante é que o cliente saia daqui satisfeito. Se alguma coisa não correr bem, porque há erros humanos, eu tento conversar com o cliente, explicar a siuação, porque efetivamente há coisas que acontecem que nós não controlamos. Mas o importante é que o cliente saia daqui satisfeito.

O que acha que faz da Tasquinha da Linda um espaço especial?
O amor e a boa energia que eu dedico a este espaço.
Quem trabalha consigo aqui, diariamente?
Tenho uma equipa que inclui o meu filho mais velho, o Sérgio, que está na sala e a irmã, Anaísa, que trata de muitas sobremesas. E tenho aqui a minha mãe, que toda a vida esteve ao meu lado e ainda dá uma ajuda na cozinha de vez em quando. Faz a minha comida para mim e para os meus filhos todos os dias.

DEOLINDA FONTAINHA, COM FILHO SÉRGIO E ANAÍSA
Aqui encontramos exclusivamente peixe e marisco, não há pratos de carne. Porque é que decidiu manter-se fiel a este conceito?
O conceito é este e é assim que eu quero continuar. Sirvo o que gosto, com amor. Logicamente que, se tivermos uma criança, uma pessoa que veio no grupo e não sabia ao que vinha, há sempre uma carne que possa ser servida, porque eu almoço aqui e também tenho de comer carne. Mas este é o conceito de Tasquinha da Linda.
Quais são os pratos que representam verdadeiramente a essência da Tasquinha da Linda?
São vários, mas destaco os nossos mistos de marisco. O único produto no misto de marisco que é congelado é a gamba, porque não existe com aquele tamanho na costa portuguesa. De resto, todo o marisco é fresco e do nosso mar, desde as navalhas à sapateira, passando pelos mexilhões ou pela santola. A cataplana de peixe e marisco também é um dos pratos que mais se destacam, que leva uma base de amêijoa, cebola, tomate, pimento, tipo caldeirada, e por cima gambas e mexilhões vivos, que abrem no seu próprio copo. O arroz de tamboril também é muito famoso, com tamboril da nossa costa. E temos sempre o peixe do dia, com grande variedade, o que o mar trouxer.
«[…] todo o marisco é fresco e do nosso mar, desde as navalhas à sapateira, passando pelos mexilhões ou pela santola.»
Fale-nos também das sobremesas…
As sobremesas típicas da casa, as mais antigas e feitas por mim, são, por exemplo, as Lindinhas, de massa filó com doce de ovos e amêndoas. Temos também o Bolo da Amizade, criado por nós, que leva frutos secos e doce de ovos por cima, o arroz doce e o leite creme. Mas a minha filha Anaísa criou novas sobremesas, espetaculares, que têm sido muito apreciadas.
Anaísa Ramos – Criei doces como o Amar (o amor e o mar), que no fundo é um suspiro, com sabores completamente diferentes. A última criação, que é muito procurada, foi a Flor, servida numa taça de Flor, que é mousse de chocolate, ganache, caramelo salgado e chantilly. Temos ainda uma linha de chocolate da Tasquinha da Linda, algo paralelo ao restaurante, que conta sempre com chocolates exclusivos e únicos.
Que tipo de vinhos gosta de ver à mesa com os vossos peixes e mariscos?
Essa é a parte que o meu filho trata e que eu não percebo tanto, por isso, deixo com ele.
Sérgio Ramos – A nossa carta de vinhos vai crescendo todos os anos e tentamos que abranja todas as regiões possíveis do nosso país, incluindo as ilhas. O nosso foco são os vinhos da região, neste caso o Loureiro, onde estamos inseridos. Gostamos que o cliente saia da sua zona de conforto e para cada prato escolhido temos uma opção mais irreverente, com o intuito de surpreender o cliente. Esta é a nossa linha de conduta. Todos os anos alteramos a carta, porque procuramos sempre novidades e qualidade, mas contamos neste momento com uma oferta de 350 vinhos.
O que significa para si um verdadeiro luxo na gastronomia?
Uma comida muito bem feita. Nada de Knorr, nada de molhos… É por isso que aqui usamos tomates nossos, pimentos, cebola, tudo feito no dia. Aqui não há comida pré-feita.
Fora do restaurante, quem é a Deolinda Fontainha? O que gosta de fazer quando consegue desligar do ritmo intenso da cozinha?
Não há assim muito tempo, confesso. Ou vou às compras, ou vou ao banco… Não há muito tempo livre, mas quando posso vou visitar coisas que não conheço, para evoluir, para estarmos presentes competitivamente no mercado. Também gosto de viajar, estive muitos anos sem viajar mas hoje em dia viajo muito. Gosto de visitar quintas, conhecer vinhos…
Quando olha para o futuro, como vê a Tasquinha da Linda? E existe algum projeto em perspetiva?
Espero que sejam os meus filhos a comandar, mas espero ainda estar aqui. Que este legado seja para eles. Tenho outro filho, que estuda e não tem tanto interesse no restaurante, mas quero, acima de tudo, que todos eles sejam felizes e façam aquilo que eu não tive oportunidade de fazer.
Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira