Épicerie des Terroirs - A arte do queijo como um ritual
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É na Rua de Diu, onde a brisa atlântica encontra o quotidiano elegante da Foz do Douro, que encontramos um espaço que parece ter vindo de outra geografia e de outra cultura gastronómica: a queijaria Épicerie des Terroirs. O projeto nasce da ligação entre pai e filho, Tomé e Mário Ferreira, portugueses com vida feita em França, mas com a vontade de trazer ao Porto a mesma reverência que os franceses dedicam ao queijo.
[… ]um espaço que parece ter vindo de outra geografia e de outra cultura gastronómica […]
Mário, que trabalhou como responsável de qualidade em França, encontrou a paixão que o move em Lisboa, quando trabalhou numa queijaria. «Foi aí que percebi que queria trabalhar o queijo de forma mais profunda, mais artesanal, por conta própria», partilha. A ideia de abrir um espaço próprio ganhou forma quando percebeu que, na Foz, não existia nada semelhante: um ponto de encontro para quem conhece, para quem viaja, para quem procura sabores autênticos — ou simplesmente para quem tem curiosidade.

A Épicerie des Terroirs reúne queijos, vinhos, charcutaria, patés, compotas e mostardas, escolhidos a dedo e vindos sobretudo de pequenos produtores. A seleção é maioritariamente francesa, percorrendo diferentes zonas do país, mas inclui algumas preciosidades portuguesas, como queijo da Serra da Estrela de um pequeno produtor, feito com leite cru de ovelha, de fermentação totalmente natural. «Um queijo de leite cru tem o melhor do queijo. O leite vai direto do animal para a produção, não se tira gordura — e é na gordura que está o verdadeiro valor», sublinha Tomé. E se há tema que pai e filho dominam, é precisamente esse: a diferença entre um queijo industrial e um verdadeiramente artesanal. Na Épicerie, praticamente nenhum dos queijos passa por processos químicos, e muitos deles são fruto de um trabalho manual, demorado e cada vez mais raro.
A Épicerie des Terroirs reúne queijos, vinhos, charcutaria, patés, compotas e mostardas, escolhidos a dedo e vindos sobretudo de pequenos produtores.
Entre os queijos franceses, destacam-se o Comté, clássico das montanhas francesas e favorito de quase todos, ou ainda o Gouda e vários tipos de queijos de cabra, mais leves e delicados. Há também um Brie que nada tem a ver com o dos supermercados, e um Roquefort vindo de um dos dois únicos produtores artesanais que ainda fazem tudo de forma tradicional. São peças que carregam terroir, memória e profundidade.

Mas a experiência proposta vai muito além da compra ao balcão: há degustações, partilhas, conversas sobre maturações e origens, e as irresistíveis tábuas de queijo com combinações de vaca, ovelha e cabra, mais curados ou menos curados, sempre acompanhados por frutos secos e por vinhos escolhidos com igual critério. Esses chegam diretamente de pequenos produtores franceses e portugueses, com uma produção mais biológica e menos industrial. Nesta experiência, nós não ficamos indiferentes ao moliterno al tartufo e ao saucisson sec truffé, acompanhados de um Vidago Villa – garantimos, são sabores dos deuses.

Criar cultura e aproximar os portugueses do queijo artesanal é objetivo. Em França, o queijo é mesmo um ritual. «No fim de uma refeição, come-se sempre queijo. Em minha casa era obrigatório… e representava mesmo um orçamento», ri-se Tomé. Em Portugal, esse hábito ainda está por formar — e é isso que a Épicerie se propõe a cultivar um público conhecedor, mas também um público que quer aprender.

Inspirados nas queijarias tão típicas de cidades como Nantes, Tomé e Mário querem tornar o Épicerie des Terroirs uma verdadeira referência. Um lugar onde o tempo abranda, onde o saber se prova, e onde cada queijo conta uma história vivida muito antes de chegar à mesa da Foz.
Na Épicerie, praticamente nenhum dos queijos passa por processos químicos, e muitos deles são fruto de um trabalho manual, demorado e cada vez mais raro.
Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira