O Victor – Herança, distinção e devoção à arte de bem receber
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Há casas que não se limitam a servir refeições: servem histórias, memórias, gerações inteiras. Situado na Póvoa de Lanhoso, o restaurante O Victor é uma dessas casas raras, onde o tempo se acomoda com suavidade e a tradição respira em cada gesto. O seu guardião é Victor Peixoto, homem de raízes profundas e alma inteira dedicada ao acolhimento, à gastronomia e à continuidade de um legado familiar que começou de forma simples e modesta.
Há casas que não se limitam a servir refeições: servem histórias, memórias, gerações inteiras.
Quem por aqui passa é recebido com o seu sorriso terno, gentileza e simpatia, no espaço onde ainda hoje se mantem a mercearia que os pais abriram, exatamente um dia depois de casarem. «Começou por ser uma tasquinha, mas rapidamente se tornou o ponto de encontro para muitas e boas pessoas», recorda Victor. Com o passar dos anos, a tasquinha transformou-se num restaurante que hoje é uma incomparável referência.
Aqui, a gastronomia mantém-se fiel às origens e o bacalhau é rei e senhor. Não só pode comprá-lo, na mercearia, como pode sentar-se e saborear. Mas, antes de tudo, avisamos que se já tem um prato de bacalhau favorito, o melhor então talvez seja não experimentar este.
As batatas a murro, «o melhor bacalhau do mercado e o melhor azeite» fazem deste prato a especialidade da casa e o protagonista de um reconhecimento nacional e até internacional. Mas não menos difícil de resistir é o cabrito de leite, feito como fazia a mãe de Victor, e a costeleta de vitela barrosã, grelhada na brasa, ambas provenientes das terras altas.
Aqui, a gastronomia mantém-se fiel às origens e o bacalhau é rei e senhor. Não só pode comprá-lo, na mercearia, como pode sentar-se e saborear.
Também as sobremesas mantêm o toque da família: o leite-creme, outro ex libris da casa – uma pausa para lhe dizer que, garantidamente, não provará outro igual - o bolo de noz, o pudim de coco e o pudim Abade de Priscos são preparados pelas filhas, Olga e Maria Angelina. «Elas são as grandes continuadoras desta casa. E sinto-me felicíssimo por, tal como eu continuei este legado, elas também o continuarem».

Entre os muitos visitantes ilustres que por aqui passaram, como Amália Rodrigues, destaca-se Jorge Amado, que, aliás referiu o restaurante numa das suas obras, «Navegação de Cabotagem». A ligação perdurou nas gerações seguintes: «Os filhos ainda passam por aqui quando vêm à Europa». E os seus versos ainda se lêm por quem visita: «Não existe restaurante onde se coma melhor do que nesta pequena casa de pasto, escondida entre vinhedos e flores, na aldeia de São João de Rei…». De referir ainda que Cristiano Ronaldo encomendou o bacalhau do Sr. Victor várias vezes, aquando das estadias na sua casa no Gerês.
Entre os muitos visitantes ilustres que por aqui passaram, como Amália Rodrigues, destaca-se Jorge Amado, que, aliás, referiu o restaurante numa das suas obras […].
O percurso d’O Victor foi recentemente reconhecido ao mais alto nível do país. Aos 88 anos, Victor Peixoto recebeu das mãos de Sua Excelência o Presidente da República, o Grau Oficial da Ordem de Mérito Comercial — uma honraria que descreve como inesquecível. «Foi das melhores coisas da minha vida. Quando eu entrei no Palácio de São Bento, com a minha mulher, as minhas filhas e o meu genro, senti-me o Victor mas outro Victor». Recorda a amabilidade do Presidente e a emoção profunda que sentiu: «Se entrasse no céu não ficava melhor. Senti que honrei os meus pais. Tive pena de o meu pai não estar vivo para ver.»
Victor continua a viver onde tudo começou: «Durmo no quarto onde nasci, nasci nesta casa. Levanto-me com apetência para isto, todos os dias.” Chega cedo ao restaurante, onde as filhas já lhe anteciparam o trabalho: «Quando chego elas já cá estão, já tenho tudo preparadinho». Revê as redes sociais, o correio, observa o pulsar diário da casa. E, como em todas as casas que verdadeiramente o são, termina o dia em família: «Almoçamos e jantamos todos os dias em família».
Questionado sobre o segredo que sustenta décadas de reconhecimento, Victor responde com a simplicidade dos que nada precisam de acrescentar: «Ser fiel para com o nosso cliente». E talvez seja essa fidelidade — à memória, aos seus, às origens — que faz do restaurante O Victor não apenas um ponto de referência gastronómica, mas um lugar onde o tempo ganha sabor, e onde cada visita se transforma numa história para levar consigo.

«Este é um espaço de harmonia, convívio, para conversar e saborear», define Victor, com a voz de aconchego e serenidade de quem conhece, melhor do que ninguém, o valor de uma casa com alma.
Aos 88 anos, Victor Peixoto recebeu das mãos de Sua Excelência o Presidente da República, o Grau Oficial da Ordem de Mérito Comercial […].
Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira