Tasquinha da Linda - Uma mesa de alma e mar
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Quem chega à Tasquinha da Linda conhece-a discreta mas charmosa, nas imediações do Castelo de Santiago da Barra, em Viana do Castelo. A entrada faz o convite para um espaço que se revela, depois, ainda mais encantador no seu interior. Há um bom gosto evidente nas novas paredes deste antigo armazém de peixe, onde Deolinda Fontainha fez nascer a fama desta tasca, que já vai muito além do Minho.
A sua energia, vibrante e acolhedora, é a alma da casa, e sobre isso duvidamos que seja possível discordar. É no contacto próximo com o cliente, quase num abraço de «seja bem vindo a casa» que Deolinda se dá a conhecer. A sua história — feita de trabalho desde a infância, de peixe, de cais e de persistência — não é um detalhe: é a espinha dorsal de tudo o que aqui se vive. A cozinha que hoje se serve é a mesma que aprendeu com a mãe, fiel à tradição da ribeira, depurada até ao essencial.

Há um bom gosto evidente nas novas paredes deste antigo armazém de peixe, onde Deolinda Fontainha fez nascer a fama desta tasca […].
Mas é à mesa que tudo se revela. Aqui não há distrações, nem desvios conceptuais – aliás, não venha ao engano, porque aqui não vai encontrar carne. O mar é o centro — e é tratado com um respeito que toca o silêncio mas convida à contemplação viva, em família. Cada prato chega com uma clareza rara, como se a cozinha recusasse qualquer excesso que pudesse perturbar a pureza do produto.

MISTO DE MARISCO
O mar é o centro — e é tratado com um respeito que toca o silêncio mas convida à contemplação viva, em família.
Aqui prova-se o mar em várias formas, mas sempre com a mesma assinatura, a de Deolinda, que conhece o produto melhor do que ninguém. O marisco, maioritariamente nacional, surge no ponto exato, vibrante, sem concessões. Há de tudo: camarão, navalhas, mexilhão, ameijoas, lavagante, sapateira, ostras, navalheiras… Não se assuste quando vir chegar à mesa o misto de marisco – compreendemos se tiver dúvidas sobre se tem barriga para tudo, mas deixamos a dica: arrisque. A cataplana, prato forte da casa, revela profundidade e equilíbrio; o arroz de tamboril, por sua vez, conforto e identidade. Há uma coerência rara em cada prato — tudo parece falar a mesma língua.

OSTRAS
O marisco, maioritariamente nacional, surge no ponto exato, vibrante, sem concessões.
Na sala, o filho Sérgio conduz a experiência com discrição e conhecimento, sobretudo no que toca à carta de vinhos. Com cerca de 350 referências, a seleção percorre o país com inteligência, privilegiando a região, mas nunca se limitando a ela. Há uma intenção clara: provocar descoberta, sugerir combinações inesperadas, ampliar a experiência.

SOBREMESA FLOR
E depois, as sobremesas. Se a base da casa é tradição, é com a filha Anaísa que surge um novo fôlego criativo. Entre o legado e a inovação, encontramos propostas que surpreendem sem quebrar a identidade. Das clássicas «Lindinhas» às criações mais contemporâneas como o doce «Amar» (homenagem ao amor e ao mar), há um equilíbrio subtil entre memória e expressão. Tudo termina com a sensação de que nada foi deixado ao acaso.
Mas talvez o verdadeiro luxo, aqui, não esteja na técnica, na carta de vinhos ou na frescura do produto — ainda que tudo isso seja irrepreensível. Está no tempo. No tempo que Deolinda dedicou a construir este espaço, antigo armazém de peixe transformado em destino gastronómico, «pé a pé», no seu próprio tempo. No tempo que a equipa nos oferece à mesa, sem pressa, com um cuidado dedicado.
E se achar que neste texto lhe falamos demasiado de marisco e de família, pois não duvide que na Tasquinha da Linda os dois conceitos se tornam um só. A alma deste lugar é feita de família e de mar. É isso que aqui se sente.
A cataplana, prato forte da casa, revela profundidade e equilíbrio […]
Texto: Carla Martins
Fotos: Ana Nogueira